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Exposição Frida Kahlo – Conexão entre as Mulheres Surrealistas no México por Rosângela Vig

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te
Esquece-te
Tem por volúpia a dispersão.
(MEIRELES, 1982, IV)

Fig. 1 – Frida Kahlo, Autorretrato con monos, 1943, Óleo sobre tela, Courtesy the Guelman Collection, ©2015 Banco de México Diego Rivera & Frida Kahlo Museums Trust.

Fig. 1 – Frida Kahlo, Autorretrato con monos, 1943, Óleo sobre tela, Courtesy the Guelman Collection, ©2015 Banco de México Diego Rivera & Frida Kahlo Museums Trust.

O tempo tem sido generoso com a História da Arte. Nosso olhar agradece, sempre muito encantado com o legado que cada período deixou e que cada estilo construiu. Se o Clássico delicia por natureza, o Moderno enfeitiça, arrebata. A Arte é mesmo capaz disso. E ainda é capaz de encantar ainda mais o olhar, ao se embrenhar por outros campos. Aqueles da fantasia, da imaginação. Foi assim o estilo Surrealista, no início do século XX. Liderado pelo poeta André Breton (1896-1966), esse modelo recebeu influência dos conceitos da Psicanálise, de Sigmund Freud 1 (1856-1939) e tinha como objetivo realçar o papel do subconsciente, na criação artística. Entre os artistas que se destacaram, estão Salvador Dali 2, René Magritte e Max Ernst. No México, esse estilo reuniu mulheres de grande relevância, na Arte.

Fazendo uma Conexão entre as Mulheres Surrealistas no México, sob a curadoria da pesquisadora Teresa Arcq, o Instituto Tomie Ohtake reúne grandes nomes, como Frida Kahlo, Maria Izquierdo, Remedios Varo, Leonora Carrington, Lola Álvarez Bravo, Lucienne Bloch, Kati Horna, Bridget Tichenor, Rosa Rolanda, Jacqueline Lamba, Bona de Mandiargues, Sonja Sekula, Marjorie Cameron e Sylvia Fein. Nessa ligação, estão presentes cerca de 100 obras de mulheres nascidas ou radicadas no México, com vigorosa produção, ao lado de Frida Kahlo.

Fig. 2 – Frida Kahlo, Retrato de Diego Rivera, 1937, Óleo sobre Masonite, 46 x 32 cm, ©2015 Banco de México Diego Rivera & Frida Kahlo Museums Trust. Foto de Gerardo Suter.

Fig. 2 – Frida Kahlo, Retrato de Diego Rivera, 1937, Óleo sobre Masonite, 46 x 32 cm, ©2015 Banco de México Diego Rivera & Frida Kahlo Museums Trust. Foto de Gerardo Suter.

Como definição, a obra Surrealista liga-se a representações de um mundo fantástico, muitas vezes abstrato e imaginário. Desvirtua-se, a obra, muitas vezes, do campo do sonho, cede lugar ao pesadelo, que se assenhora das mãos do artista e que age livremente, no correr do pincel e da tinta, sobre a tela alva. Foi assim o estilo de Frida Kahlo 3 (1907-1954) (Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón), a artista mexicana, internacionalmente reconhecida, que é destaque da mostra. Sua irreverência ao se expressar, caminhou lado a lado com suas aflições e seu sofrimento. A poliomielite, enfrentada logo aos seis anos, deixou uma sequela no pé direito. Mais tarde, com dezoito, um acidente com o bonde, no qual viajava, provocou sérias lesões e a levou a sofrer inúmeras cirurgias. Tal fato, não apenas a levou a sentir dores, pelo resto da vida, mas também mudou o rumo de sua vida, encaminhando-a para a Arte. Durante a convalescença, Frida pintava com as tintas de seu pai e com um cavalete adaptado à cama. Suas primeiras obras revelam a influência das vanguardas europeias, vinda de um grupo de jovens intelectuais, do qual fizera parte, na adolescência. A influência da Arte popular mexicana veio do marido, Diego Rivera (1886-1957) (Fig. 2), com quem Frida se casou em 1929. Em sua estadia em Detroit, com Diego Rivera, Frida entrou em contato com a artista americana Lucienne Bloch, com quem trabalhou técnicas surrealistas. Sua primeira exposição individual, em Nova York, foi em 1938, na Julian Levy Gallery e as pinturas apresentadas foram depois, levadas para a Galeria Renou & Colle, em Paris, numa exposição organizada por André Breton, que classificou a obra de Frida como Surrealista. Sua primeira exposição individual no México, foi em 1953, um ano antes de sua morte.

Fig. 3 – Frida Kahlo, El abrazo de amor del Universo, la Tierra, México, Diego, yo y el señor Xólotl, 1949, Óleo sobre Masonite, ©2015 Banco de México Diego Rivera & Frida Kahlo Museums Trust.

Fig. 3 – Frida Kahlo, El abrazo de amor del Universo, la Tierra, México, Diego, yo y el señor Xólotl, 1949, Óleo sobre Masonite, ©2015 Banco de México Diego Rivera & Frida Kahlo Museums Trust.

Entre suas 143 obras, 55 são autorretratos, e são uma narrativa de sua vida, uma autobiografia repleta de simbologias. Vinte de suas pinturas e seis autorretratos estão na exposição. A obra intensa de Frida é um registro dos dramas que viveu, pelas dores físicas que sentia; por sua homossexualidade; pelo casamento tumultuado com Rivera, repleto de brigas, de separações e de traições; pelos abortos, em virtude do acidente que tivera. Separada de Diego, Frida chegou a ter um caso com Leon Trotski 4 (1879-1940) e uniu-se novamente ao marido em 1940.

O amor incondicional pelo marido ficou nítido em sua obra. Na figura 3, a Terra é representada por uma mãe protetora, que aninha em seus braços Frida, que por sua vez aconchega Diego, maternalmente, como uma mãe a abrigar um filho pequeno, no colo, num gesto zeloso, como ela mesma revelou em cartas, com o cuidado de não deixar que ele adoecesse. Seu gesto também representa o instinto maternal que pode ter sido transferido para o marido, uma vez que Frida não conseguia levar uma gravidez adiante e ter filhos. Tal decepção ficou nítida nas obras em que Frida se referiu ao aborto, como é o caso da figura 5. A imagem impressionante subvertia modelos clássicos, deixando claro, seu caráter provocativo e visceral. Repleta de simbologias, a obra tem uma interpretação profunda dos próprios mitos da artista. Nas obras de Frida, é categórica sua paixão pelo pelo México, por sua Cultura, por seu povo e por suas tradições, revelada nos elementos e no colorido de suas obras. Tais cores faziam se revelar também em sua forma singular de se vestir (Fig. 10), aos moldes dos trajes regionais mexicanos; das deusas ou tehuanas com seus ornamentos e acessórios.

E a mostra apresenta o Surrealismo, pelas mãos de Alice Rahon na forma de um mundo imaginário e obscuro (Fig. 11); ou por meio da instável e desconjuntada figura, formada por linhas e que parece dançar sobre o fundo preto (Fig. 12). Estranhas figuras invadem a tela de Leonora Carrington (Fig. 13) e parecem compartilhar naturalmente, um jantar, em um mundo exótico. Os sonhos estão presentes na mística cena de Marjorie Cameron (Fig. 14), onde espíritos flutuam no espaço, perdidos, sem rumo. Um mundo curioso está presente também na obra de Remedios Varo (Fig. 15) onde um personagem parece acionar o estranho veículo, em cujo interior, um pianista parece não perceber a cena a seu redor. As incríveis cores de fundo, parecem aquelas dos sonhos mais obscuros, para onde o sono nos costuma levar.

A tela em branco pode ser o testemunho de que o sonho age, quando o artista se entrega à fantasia; quando a imaginação abre suas longas asas e alça voo, rumo à realidade de uma obra. Assim, feito uma ovelha desgarrada, solta-se de seu rebanho, ao se libertar de padrões que a impediam de atuar. Para Schiller,

O prazer espiritual se funda em representações com consciência; o prazer sensível sobre nenhuma ou sobre representações sem consciência. (…) O prazer espitirual costuma ser mais fraco, porém é mais duradouro que o sensível. (SCHILLER, 2004, p.42)

Se o efeito mais grandioso que cabe à Arte é o de promover sensações agradáveis ao espírito, essa impressão pode ser infindável, quando há um sentido desafiador e portanto, mais profundo. O deleite então se entrega, permanece demoradamente na alma. Talvez seja esse o principal atributo do Surrealismo, ao ingressar nos mundos quiméricos e nas cenas fabulosas. No mundo das artistas mexicanas, as imagens fantásticas ousaram caminhar ao lado de seres surreais, em mundos imaginários. No de Frida Kahlo, seu interior falou por meio de suas obras; foi provocante e escapou da racionalidade, deixando à mostra seus próprios dramas. De todas, ficou a faculdade de agradar e de proporcionar sublimes e duradouros efeitos na alma, por meio de sua Arte.

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Notas:

1 Sigmund Freud: educacao.uol.com.br/biografias/sigmund-freud.htm

2 Salvador Dali: www.salvador-dali.org/dali/en_index

3 Museu Frida Kahlo: www.museofridakahlo.org.mx

4 Leon Trotsky foi um intelectual marxista e revolucionário bolchevique, do Império Russo que se refugiou no México, onde teve contato com Frida Kahlo e Diego Rivera (global.britannica.com/biography/Leon-Trotsky)

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Vídeos

Alice Rahon: www.youtube.com/watch?v=n6n41uXIYco

Frida Kahlo – Vídeo NET TV Paraná: www.youtube.com/watch?v=Vgwn79HtwiA

Remedios Varo: www.youtube.com/watch?t=45&v=UryikOphQe8

A Exposição

A mostra, uma realização do Instituto Tomie Ohtake, contou com os patrocínios do Bradesco e do IRB Brasil RE, do copatrocínio do SESI e dos apoios do Aché, Akzo Nobel, Arezzo, Calvin Klein, Recovery e Tozzini. Para a sua organização, foram inestimáveis as colaborações do SRE – Secretaria de Relaciones Exteriores do México, da Embaixada do México no Brasil, do INBA – Instituto Nacional de Bellas Artes, do CONACULTA – Consejo Nacional para la Cultura y las Artes e do CPTM – Conselho de Promoção Turística do México.

Teresa Arcq

Teresa Arcq, historiadora de arte, Mestre em Museologia e Gestão em Arte e em Arte Cinematográfica pela Universidade de Casa Lamm na Cidade do México, trabalhou como curadora chefe do Museu de Arte Moderna da Cidade do México entre 2003 e 2006. Foi co-curadora da exposição A Arte de Mark Rothko – Coleção da The National Gallery of Art, e de várias exposições do acervo permanente, destacando-se a de Remedios Varo. A partir de 2007, como curadora independente produziu para o Museu de Arte Moderna da Cidade do México Remedios Varo – Cinco Chaves, uma retrospectiva em comemoração ao centenário do nascimento da artista inspirada em seu livro homólogo; e Alice Rahon – Uma surrealista no México, que também foi apresentada no El Cubo, em Tijuana. Arcq é Professora de História da Arte no Centro de Cultura Casa Lamm. Publicou vários ensaios e faz palestras sobre arte moderna mexicana, movimento avant-garde europeu e mulheres surrealistas no México, Estados Unidos, Europa e Ásia.

Frida Kahlo – conexões entre mulheres surrealistas no México

Inauguração: 26 de setembro, das 11h às 18h para convidados
Visitação de 27 de setembro de 2015 a 10 de janeiro de 2016
De terça a domingo, das 11h às 20h

R$10,00 e R$5,00 (até 10 anos grátis); às terças grátis; compra de ingressos: ingresse.com, aplicativo do Instituto Tomie Ohtake, ou na bilheteria do Instituto de terça a domingo, das 10h às 19h. Vendas a partir do dia 01 de setembro de 2015.

Instituto Tomie Ohtake

Av. Faria Lima 201 (Entrada pela Rua Coropés 88) – Pinheiros SP
Metrô mais próximo – Estação Faria Lima/Linha 4 – amarela
Fone: 11 2245 1900

De terça a domingo, das 11h às 20h

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Como chegar:

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Referências:

BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.

FARTHING, Stephen. Tudo Sobre a Arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.

GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

MEIRELES, Cecília. Cânticos. São Paulo: Ed.Moderna, 1982.

SCHILLER, Friedrich Von. Fragmentos das Preleções sobre Estética. Belo Horizonte: Ed. UFMG – Departamento de Filosofia, 2004.

CHILVERS, Ian; ZACZEK, Iain; WELTON, Jude; BUGLER, Caroline; MACK, Lorrie. História Ilustrada da Arte. Publifolha, S.Paulo, 2014.

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