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Exposição Pablo Picasso: mão Erudita, olho selvagem por Rosângela Vig

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Com o desenho e as cores sempre quis penetrar um pouco mais na consciência do mundo e dos homens, para que essa compreensão nos libere cada dia um pouco mais. (Picasso in MARQUÉS, 2007, p.48)

Com o pensamento justo e revolucionário, o espanhol Pablo Picasso (1881-1973) não hesitou em externar, por meio da Arte, seus sentimentos a respeito de um período conturbado, marcado por conflitos como a Guerra Civil Espanhola, a Ocupação da França, pelas tropas alemãs, e as Guerras Mundiais. Seu talento inato, que despontou já na infância, deixou claro o domínio e o discernimento sobre as cores e sobre as formas, que transformariam Picasso em um dos maiores expoentes da Arte do século XX. Sua genialidade mudaria para sempre os paradigmas da Arte Moderna.

Logo aos sete anos, Picasso iniciava no mundo da Pintura, por meio de seu Pai. Aos quatorze, já fazia obras acadêmicas e, a qualidade de seu trabalho se firmava aos dezesseis, com uma Menção Honrosa na Exposição Nacional de Belas Artes e uma medalha de ouro, em sua cidade, Málaga.

Sua Arte, completa, externou os desassossegos de sua época e de sua vida; evoluiu no traço e na cor, até chegar à Arte pura, livre dos padrões e do rigor da forma. Até a adolescência, pode-se dizer que seus trabalhos se mantiveram figurativos. Entre 1901 e 1904 (Fig. 1), na Fase Azul, ficaram nítidos os sentimentos do abandono, da solidão e da pobreza, por meio do uso da cor e das expressões dos personagens retratados. A essa fase, atribuem-se fatos que marcariam a vida do artista para sempre: a perda de sua irmã de oito anos, Concepción e o suicídio de seu amigo Casagemas. De 1904 a 1906, a paixão por Fernande Olivier o levou a inaugurar a Fase Rosa. O uso abundante do vermelho e do rosa, o retrato de personagens de circo, como acrobatas, arlequins e dançarinos foram os traços mais marcantes dessa fase. Nesse período, já instalado em Paris, Picasso trabalhou incansavelmente; e conheceu um grupo de intelectuais, entre os quais André Breton (1896-1966), a escritora Gertrude Stein (1874-1946) e Guillaume Apollinaire (1880-1918).

Mas a evolução de sua obra ainda sofreria influência de uma viagem que fizera a Andorra e do contato que teve com as Artes Grega, Ibérica e Africana. O Período Africano ou Protocubismo, como foi chamada sua produção, entre 1907 e 1909 (Fig. 2), abria campo para uma nova forma de representação. Dessa fase, uma das obras mais importantes de Picasso, Les Demoiselles D’Avignon 1, de 1907, apresenta claras influências de máscaras africanas, nos rostos de duas das mulheres retratadas. A despreocupação com a forma já despontava no formato retilíneo dos corpos das mulheres. Envoltas em uma espécie de véu, as prostitutas da rua de Paris fazem poses sensuais, com seus corpos esguios, em tons de rosa e parecem se mover lentamente.

Mas as linhas retas e as formas alongadas de Les Demoiselles D’Avignon se acentuaram e o Cubismo amadurecia. Junto a Picasso, Georges Braque (1882-1963) se destacou no estilo, que depois envolveu outros nomes como Juan Gris (1887-1927), Fernand Léger (1881-1955), Jean Metzinger (1883-1956), Marcel Duchamp (1887-1968), Robert Delaunay (1885-1941) e Sonia Delaunay (1885-1979). Desvencilhada do comum, a Arte de Picasso perturbava, por deixar à mostra uma realidade que distorcia as imagens conhecidas. No olhar que passeia pela obra, percebe-se o abandono da perspectiva clássica para planos abertos, simultaneamente decompostos, dispostos em linhas retas, como se várias dimensões fossem exibidas ao mesmo tempo.

O crítico de Arte francês, da época, Louis de Vauxcelles (1870-1943) deixou clara sua estranheza pelo novo modelo, que reduzia tudo a “pequenos cubos” (in MARQUÉS, 2007, p.50). Com origens na obra de Paul Cézanne 2, o Cubismo foi além, evoluiu, assimilou novas técnicas e novos materiais. Dessa evolução resultaram três fases. Na primeira, até 1909 (Fig. 2), havia ainda nítidas influências da obra de Cézanne. Na segunda, o Cubismo Analítico, entre 1909 e 1912 (Fig. 3), percebe-se a decomposição das imagens e uma tendência ao monocromático. Na terceira, o Cubismo Sintético, entre 1912 e 1919, Picasso e Braque passaram a utilizar cores mais fortes e colagens, com a intenção de tornar as imagens reconhecíveis, numa espécie de reação à fragmentação excessiva das imagens.

E a obra de Pablo Picasso ainda passou por um período clássico, durante a década de 20 (Fig. 4). Picasso abandonava o Cubismo e aderia ao estilo clássico, como uma medida cautelosa, uma vez que a guerra proporcionara um clima de precaução contra estrangeiros. Na década de 30, o contato com os surrealistas o levou a utilizar a figura do minotauro em suas obras. Muitas gravuras desse período apresentavam cenas eróticas.

Seu mais célebre e conhecido trabalho entretanto, foi o resultado do sentimento de repulsa do artista pelo bombardeio à cidade espanhola de Guernica, em 1936, que causou a morte de centenas de pessoas. Da indignação de Picasso surgiu Guernica 3, 4, em 1937, um painel, de 3,5 por cerca de 8 metros, que está atualmente no museu Reina Sofia. Na imagem, a sensação de esfacelamento, de desespero e de medo, deixam claros os horrores de uma guerra. Em um primeiro plano, a pintura monocromática pode ser compreendida como ícone da ideia de tristeza (KANDINSKY, 2008, p. 6), para kandinsky,

Qualquer outra cor, mesmo as mais claras, adquirem, quando sobre fundo negro, uma nova força e vivacidade. O negro representa a tristeza mais profunda, é o símbolo da morte. Um nada sem possibilidades, morto depois de o sol morrer, como um silêncio eterno, sem esperança de futuro.

E o símbolo da morte e a dor está presente na imagem, há mortos entre as figuras; uma mulher irrompe em desespero, com uma criança nos braços; outros parecem estar gritando; um cavalo, símbolo de potência, está se contorcendo; o touro, símbolo da Espanha, também está na imagem; ao fundo, o clarão e a fumaça que parecem vir de fora, sugerem o ataque inesperado. O caos da cena proporciona a impressão de assombro, de dilaceração e, embora a obra provoque a sensação de irracionalidade, seu conteúdo soou como um protesto em defesa da paz. Segundo Picasso,

O que você crê que seja um artista? Um imbecil que não tem mais do que olhos, se é pintor; orelhas, se é músico; ou lira em todas as camadas do coração, se é poeta? Muito ao contrário: ele é ao mesmo tempo um ser político. É um instrumento de guerra ofensivo e defensivo contra o inimigo”. (Picasso in MARQUÉS, 2007, p.48)

Picasso ousou expor suas reflexões, de maneira genial. Seu traço único e irreverente demonstrou uma percepção de mundo racional, calculada. O domínio sobre o objeto artístico ficou claro. O resultado foi uma obra equilibrada, persuasiva, a despeito de seu traço selvagem. Para o artista (Picasso in MARQUÉS, 2007, p.48) esse era o meio para dizer as coisas do modo que lhe parecia mais natural. A alma desimpedida permitiu que sua genialidade aflorasse, por meio da Arte.

Não há dúvida de que a invenção da fotografia 5 e sua difusão, no final do século XIX, foram cruciais para que a Arte se desvencilhasse de padrões tradicionais e que avançasse na forma e na criatividade. Livres, os artistas poderiam explorar outros métodos de representação. A eles, caberia investigar novos caminhos para que a Arte se apresentasse em sua forma mais pura. Picasso compreendeu bem isso e, por meio de sua extraordinária vitalidade, sua irreverência e seu espírito ousado, renunciou ao formal, modificando para sempre a História da Arte.

A Exposição

Fazendo uma compilação dessas fases da vida e da obra de Pablo Picasso, o Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, traz 153 peças dos períodos da vida do artista, desde sua introdução ao mundo da Arte, por volta de 1900, suas influências e formação, até a fase erótica. Essas obras, pertencentes ao Museu Nacional Picasso, em Paris, são registros representativos de cada período da vida do artista e da forma como se expressou. Entre elas, há pinturas, esculturas, gravuras e fotogramas, além de fotografias de Dora Maar e filmes sobre o processo de produção do artista. A mostra do Instituto ainda conta com uma reportagem realizada por Dora Maar, como um testemunho da realização de Guernica. Na exposição, que fica até o dia 14 de agosto de 2016, em São Paulo, é possível identificar as fases de sua pintura, por meio de um percurso cronológico. As obras pertencem ao Museu Nacional Picasso, um dos mais importantes acervos da obra do artista e a exposição é um testemunho de sua vida e de seu pensamento.

Até uma parte de um objeto tem valor. Todo um novo realismo reside no modo como se considera um objeto ou uma de suas partes. (Fernand Léger in MACK, 2014, p. 323)
Os meus sonhos formais serão teu cavaleiro,
Meu destino luzindo teu belo cocheiro
Por rédeas terás tensos levando à agonia,
Meus versos, os modelos de toda poesia.
(APOLLINAIRE, 1997, p.31)

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1 Les Demoiselles D’Avignon:
www.pablopicasso.org/avignon.jsp

2 Paul Cézanne:
www.paul-cezanne.org

3 Guernica:
www.sabercultural.com/template/obrasCelebres/Guernica-Pablo-Picasso.html

4 Estudos sobre Guernica:
comunicacaoecultura.uniso.br/prod_discente/2010/pdf/Rosangela_Vig.pdf

5 Invenção da Fotografia:
www.pointdaarte.webnode.com.br/news/a-historia-da-fotografia

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Referências:

APOLLINAIRE, Guillaume. O Bestiário ou Cortejo de Orfeu. São Paulo: Editora Iluminuras, 1997. Tradução de Álvaro Faleiros.

BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.

CHILVERS, Ian; ZACZEK, Iain; WELTON, Jude; BUGLER, Caroline; MACK, Lorrie. História Ilustrada da Arte. Publifolha, S.Paulo, 2014.

FARTHING, Stephen. Tudo Sobre a Arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.

GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

MARINS, Vânia; HAUGUENAUER, Cristina. O Estudo do Uso da Cor em Games Educativos. Rio de Janeiro: Disponível em www.latec.ufrj.br/projetomuseu/tesegamedesign/colorgame. Acesso em 15 de julho de 2016.

MARQUÉS, Maria José Mas. Picasso, Gênios da Arte. Barueri, São Paulo: Girassol Brasil Edições Ltda., 2007.

SPENCE, David. Picasso, Quebrando as Regras. São Paulo: Cia Melhoramentos de São Paulo, 2005.

VIG, Rosângela Araújo Pires. DA ARTE COMO COMUNICAÇÃO À COMUNICAÇÃO COMO ARTE. Comunicação, Cultura e Mídia, Uniso, Sorocaba: 2010. Disponível em comunicacaoecultura.uniso.br/prod_discente/2010/pdf/Rosangela_Vig.pdf Acesso em 15 de julho de 2016.

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