História da Arte Categoria – Site Obras de Arte https://www.obrasdarte.com Artes Plásticas e Galeria Virtual de Arte Wed, 17 Apr 2019 13:12:33 +0000 pt hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.9.8 https://www.obrasdarte.com/wp-content/uploads/2014/02/cropped-Logo-Obras-de-Arte-140-x-140-32x32.jpg História da Arte Categoria – Site Obras de Arte https://www.obrasdarte.com 32 32 Arte Moderna – Abstracionismo por Rosângela Vig https://www.obrasdarte.com/arte-moderna-abstracionismo-por-rosangela-vig/ https://www.obrasdarte.com/arte-moderna-abstracionismo-por-rosangela-vig/#respond Fri, 05 Apr 2019 15:06:50 +0000 https://www.obrasdarte.com/?p=50256-pt Você também pode ouvir esse artigo na voz da própria Artista Plástica Rosângela Vig:

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Alumbramento
Eu vi os céus! Eu vi os céus!

Ah essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!

Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela… e sinto-a pura…

Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizações da bruma
A amortalhar, a cintilar!
(BANDEIRA, 2008, p.51)

Talvez quando o artista cerra o olhar a Arte penetra nas profundezas de sua alma. É nesse momento que seu espírito divaga. Deflagra-se então um embate entre o mundo real, aquele dos desalentos, da melancolia e das asperezas; e o mundo de comprazimento e de enlevo que somente no sonho se conhece. Talvez seja nesse instante que nasce a Arte pura, livre das articulações da vida real e das intempéries e tormentas que insistem em margear nossas almas. Somente a Arte pura leva o espírito ao delírio, a um despenhadeiro de emoções ou a um ascender de impressões que muitas vezes ficaram ocultas na alma. O artista é aquele que descobre o caminho para essas secretas paragens. O espírito livre flutua por esses recônditos e se deleita em emoções e em regozijo. Talvez seja esse o maior papel da Arte.

Essa pureza de ideias pode estar na forma ou na cor; nas representações realistas, surrealistas ou abstratas e apresenta a realidade sob o olhar do artista. A Arte Abstrata passa por esses caminhos, para além do real, para a realidade do olho da alma e dos mais intrínsecos significados. Essa forma de expressão desrealiza o mundo conhecido; flutua livremente pelos campos da forma e da cor, como se a tocar as notas de uma canção; como se a repousar numa tela alva as formas e as cores em seu estado puro. Ali as matizes emergem, mesclam-se, desvanecem como pétalas de flores desabrochando, numa infindável e interessante brincadeira.

Dentro do contexto da Arte Moderna, no início do século XX a Arte Abstrata tomou corpo e seguiu até os dias de hoje, como um estilo revolucionário e transformador. Antes da Primeira Guerra, o Abstracionismo já despontava em vários países, como uma maneira de explorar todos os potenciais da cor e da forma, apartado da realidade.

Importantes episódios históricos marcaram a primeira metade do século XX. A Europa via nascer a União Soviética comunista; o mundo sofria com a Primeira e a Segunda Guerra Mundial; a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, levou à Grande Depressão Americana. Entre as mudanças do período, a sociedade européia passou a contar em grande escala com mulheres no mercado de trabalho, em substituição aos homens que eram convocados para a guerra. O sistema familiar que por tantos anos foi rígido modificava-se e, mesmo após a guerra, as mulheres continuaram a trabalhar. A Arte se adequou a esse novo estilo de vida e se firmou na modernidade que avançava.

Fig. 1 – Casa Rietveld Shroder, Yaro Mir, Visit UNESCO by Yaromir. Fig. 2 – Casa Rietveld Shroder, Yaro Mir, Visit UNESCO by Yaromir. Fig. 3 – Rietveld Shroder House, @holandesando, Website: holandesando.com/casa-rietveld-schroder/.

Arquitetura

Nossa própria época exige sua própria
forma… sua própria manifestação.
(Gerrit Rietveld in GLANCEY, 2012, p. 177)

O Moderno caminhava a passos largos e trazia inovações na Arquitetura, para a década de 30. Acompanhando a sociedade da época as mais relevantes mudanças estiveram por conta da busca por simplicidade, por funcionalidade e por um distanciamento da ornamentação. A geometria e o abstracionismo que se aplicavam à Pintura passaram a ser de grande interesse na decoração interna, com formas simples e linhas retas.

Entretanto esses novos modelos arquitetônicos eram acessíveis apenas aos clientes ricos. As grandes massas, até antes da Segunda Guerra Mundial, tendiam ser mais conservadoras. Mas o fato é que a incalculável destruição por toda a Europa, durante as guerras, levou à necessidade de se construir casas em quantidade, de forma rápida e eficiente. Aos arquitetos ainda caberia o desafio de construir habitações para os trabalhadores, que oferecessem qualidade de vida, com jardins e luz do sol.

Novas concepções sobre o Design e a Arquitetura também foram muito difundidos pela revista De Stijl (O Estilo), fundada em 1917, por Theo van Doesburg (1833-1931); Piet Mondrian (1872-1944); e Georges Vantongerloo (1886-1965). O propósito da revista era o de disseminar uma estética que aproximasse perfeição e harmonia espiritual; além de promover o uso de novas formas e de cores primárias para objetos do dia a dia.

O Arquiteto e Designer Holandês Gerrit Rietveld (1888-1964), fundador do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, chegou a fazer parte da revista para a qual escreveu até 1928 e foi o primeiro a aplicar os princípios da revista em seu estilo. Sua preocupação se voltava para o social, com uma forma de produção acessível, padronizada, que fizesse uso de novos materiais. Exemplo de flexibilização de espaços domésticos é a Casa Rietveld Schröder 1 (Figuras 1 e 2), do arquiteto, construída em 1924, na cidade de Utrecht, Holanda, de acordo com os conceitos do movimento De Stijl. A construção, ícone do Modernismo na Arquitetura, recebeu em 2000, status de Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO.

Pode ser que a fachada da casa lembre inicialmente uma obra de Arte ou uma pintura de Mondrian, com suas linhas retas, quadrados e retângulos sobrepostos, em cinza e branco, dos quais sobressaem linhas retas em preto e em vermelho. Abrandando a geometria da construção, as plantas parecem complementar essa fusão de cores, na correta medida. Feito um cubo, de dois andares, a casa se destaca, em meio às outras da rua. E se o exterior da casa assemelha-se a uma obra de Arte, seu interior não é diferente. As cores e a geometria estão presentes em cada ambiente e é perceptível o aproveitamento de cada espaço e de cada canto, de maneira justa, na correta medida.

A obra mais conhecida de Rietveld é a Cadeira Vermelha e Azul, the “Red-Blue Chair2 em exposição no MoMA, em Nova Iorque. O objeto decorativo propõe a utilização de formas retas, linhas e cores também no mobiliário. Com assento azul e encosto vermelho, a cadeira tem estrutura e braços em vigas finas de madeira pintadas de preto. A sensata utilização do azul e do vermelho vivos contrapõe com a seriedade das linhas estruturais, o que de certa forma acentua a ligação com a modernidade e com a Arte.

Em Viena, entre 1919 e 1933, foram construídas 66.000 habitações, sob a direção do arquiteto Karl Ehn (1884-1959). Muitas dessas casas eram pequenas, construídas em subúrbios com jardim, de modelo trazido da Inglaterra. Com propostas mais ousadas, as cidades holandesas de Amsterdã e Roterdã também aderiram a programas habitacionais de massa.

No campo da Arquitetura ainda é importante que se lembre o conceito de simplificação e de poucos detalhes, das obras de Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969); a preocupação com a luz de Le Corbusier (1887-1965); ou ainda a funcionalidade das obras de Walter Gropius (1883-1969), fundador da Bauhaus 3 e pioneiro da Arquitetura Moderna.

A maior dessemelhança exterior torna-se a maior semelhança interior.
(KANDINSKY, 1991, p. 125)

Fig. 4 – Vasily Kandinsky, Pequena Pintura com Amarelo (Improvisação), 1914, óleo sobre tela, 31 x 39 5/8 polegadas (78.7 x 100.6 cm) Emoldurado: 32 3/4 x 41 1/2 x 2 1/2 polegadas (83.2 x 105.4 x 6.4 cm). Philadelphia Museum of Art, The Louise and Walter Arensberg Collection, 1950-134-103. Fig. 5 – Vasily Kandinsky, Círculos em um Círculo, 1923, óleo sobre tela, 38 7/8 x 37 5/8 polegadas (98.7 x 95.6 cm) Emoldurado: 44 1/4 × 43 1/8 × 2 3/4 polegadas (112.4 × 109.5 × 7 cm). Philadelphia Museum of Art, The Louise and Walter Arensberg Collection, 1950-134-104. Fig. 6 – Vasily Kandinsky, Cartão Postal número 3, para Exposição da Bauhaus, Weimar, Julho-Setembro 1923, Litografia Colorida, Imagem: 5 3/8 x 3 3/4 polegadas (13.7 x 9.5 cm) Folha: 5 15/16 x 4 1/4 polegadas (15.1 x 10.8 cm). Philadelphia Museum of Art, Presente de Carl Zigrosser, 1974-179-100.

Escultura

Uma grande liberdade, ilimitada aos olhos de alguns, que nos permite ouvir a voz do espírito, que vemos manifestar-se nas coisas com uma força particular, que utilizará gradualmente, e já utiliza todos os domínios espirituais como seus instrumentos (…).
(KANDINSKY, p. 125, 1991)

O afastamento do realismo foi a principal marca da Estética Abstrata. No campo da Escultura, o ilimitado e a liberdade ainda se associaram à simplicidade de linhas, ao racionalismo, às formas orgânicas e ao uso de materiais diferenciados.

Figuraram entre os importantes nomes da época, os dos escultores Constantin Brancusi (1876-1957), Henry Moore (1898-1986) e Jorge Oteiza 4 (1908-2003).

Com obras em vários países, o britânico Henry Moore produzia trabalhos em grandes dimensões e chegou a ser influenciado pelas várias vertentes da Arte Moderna, do início do século XX e por Constantin Brancusi. O Abstrato de Moore recebeu incursões realistas, modificadas pelas distorções, como se as imagens fossem orgânicas, abertas, com movimentos, gestos e ondulações. A leveza de sua obra vinha da inspiração nas formas da natureza e do cuidado com a adequação aos ambientes em que se inseriam. Seu estilo ficou impresso em suas Figuras Reclináveis 5, conhecidas pela forma como o artista delineou o corpo, sem lhes imprimir detalhes. As obras parecem silenciosas, com lentos trejeitos, como se descansassem sobre alguma imaginária superfície.

Autodidata, Jorge Oteiza (1908-2003) principiou na Escultura, sob influência do Expressionismo, mas seu estilo adquiriu incursões abstratas nos anos 50, após o contato com a obra de Henry Moore. A inspiração nos pintores abstratos conduziu Oteiza à idéia de esvaziar as formas geométricas. Sua série “Caixas Vazias” surgiu nesse contexto, entre os anos de 1957 e 1958. Entre as premiações do artista, uma foi na Bienal de São Paulo, em 1957. Mantendo o rigor do volume, o artista delineou as formas conhecidas, reduzindo-as a suas linhas externas, como se estivessem ocas.

A popularização dos escultures e de marchands veio com a ocupação de áreas públicas, como praças e calçadas, como elemento decorativo à semelhança do que aconteceu no Renascimento.

Fig. 7 – Paul Klee, Composição com Figuras, 1915, Caneta e tinta e aquarela sobre papel montado em cartolina, Folha: 10.16 × 12.7 cm (4 × 5 in.) mount: 10.8 × 13.02 cm (4 1/4 × 5 1/8 in.). National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon. Fig. 8 – Paul Klee, Ludwigstrasse, 1912, Caneta e tinta preta com lavagem em papel creme, colocado em papelão, geral: 9.9 x 19 cm (3 7/8 x 7 1/2 in.). National Gallery of Art, Washington. Presente de Benjamin and Lillian Hertzberg.

Pintura

O azul, o azul subiu, subiu e caiu.
O pontudo, o fino sibilou e fez-se intruso, mas não o transpassou.
Em todos os recantos a coisa ressoou.
O castanho espesso ficou suspenso aparentemente por toda a eternidade
Aparentemente. Aparentemente.
(KANDINSKY, 1991, p.163)

Nada é mais inebriante do que o momento em que a obra é gerada. Tal entusiasmo é perceptível na citação de Kandinsky (1866-1944) e mostra que, além da Pintura, o artista era habilidoso também com as palavras. Suas obras revelaram uma forte ligação com a Música, de onde vinha muito de sua inspiração. Para Kandinsky as cores e o movimento de uma obra se ligavam à Música. Feito melodia para o olhar, suas pinturas se distanciaram do figurativo à medida que demonstravam consistência artística e amadurecimento. E o campo da abstração foi onde a Arte-Música de Kandinsky se acomodou.

A idéia de distanciamento da realidade que vinha sendo experimentada por artistas já no final do século XIX, com o Fauvismo e o Expressionismo, consolidava-se com o Cubismo, que abria portas para a Arte Abstrata. A Pintura passava a ser uma representação subjetiva da idéia que o artista tinha das coisas e do mundo. As primeiras obras surgiram a partir de 1910 e, até os dias de hoje, a Arte Abstrata desafia o olhar, ao se voltar para o interior e para o campo das sensações.

Ainda sob influência do Expressionismo, nas primeiras décadas do século XX, surgiam na Alemanha importantes movimentos que culminariam na Arte Abstrata. Entre eles A Ponte (Die Brücke), em 1905; e O Cavaleiro Azul (Der Blaue Reiter) em 1911, do qual fez parte Wassily Kandinsky (1866-1944), juntamente com Alexej von Jawlensky (1864-1941, Franz Marc (1880-1916), August Macke (1887-1914), Paul Klee (1879-1940), e Marianne Von Werefkin (1860-1938). Sob influência do Expressionismo e do grupo O Cavaleiro Azul, nascia o anseio por uma Arte que se aproximasse da alma do artista e do campo das sensações. O Abstracionismo Lírico ou Informal então irrompia, influenciado pelo Expressionismo, pelo Fauvismo e tendo Kandinsky como seu maior representante. De forte inspiração no rigor matemático e na racionalidade do Cubismo e do Futurismo, formava-se também um segundo grupo, o Abstracionismo Geométrico. Seguindo o pensamento racional, o grupo se ramificou pelo mundo em várias vertentes, entre as quais o Suprematismo com o russo Kazimir Malevich (1879-1935); o Neoplasticismo, ligado à Revista De Stijl, com Piet Mondrian (1872-1944) e Theo van Doesburg (1833-1931), na Holanda; o Construtivismo, também na Rússia; o Concretismo, com o suíço Max Bill (1908-1994); e o Neoconcretismo, no Brasil, com Hélio Oiticica (1937-1980) e Lígia Clark (1920-1988).

Não é difícil ligar a Arte de Kandinsky à Música. Na figura 5, é possível perceber os sons das notas musicais de sua colorida orquestra, ao centro de um palco imaginário. Iluminadas por holofotes, as linhas pretas cruzam o espaço, enroscam-se nos círculos coloridos, translúcidos, que também se transpõem. A delicada cena parece emitir ruídos, a cada movimento. É compreensível que sua arte se aproxime de um teor mais interiorizado, voltado para o espírito, para um entendimento aprofundado.

Com uma paleta de cores menor, o cartão para a Exposição da Bauhaus (Fig. 6) também se apresenta com linhas retas em contraponto com círculos coloridos. De suas junções, emergem novas formas preenchidas ou vazias, umas se justapondo às outras. Em seu acomodamento, a imagem adquire vida e dela os sons que emanam são os de sinetas alinhadas ao tempo e ao movimento.

Os tons verdes da natureza disputam espaço na cidade de Paul Klee (Fig. 10). É possível reconhecer galhos e copas de árvores em meio ao urbano, como se os campos de cores estivessem em uma árdua tentativa de estender seus largos braços. Suas formas não definidas parecem se comprimir sobre o fundo branco.

Ainda mais distante do campo da realidade, o movimento Suprematista explorava as formas geométricas puras, como foi a obra de Malevich 6. A lógica em seu trabalho consistia em dispor círculos, triângulos, quadrados e retângulos em cores vivas, sobre fundos brancos. Muitas vezes sobrepostas, outras vezes acomodadas feito quebra cabeças, as formas encaixam-se de maneira coerente no vazio espaço, ajustando-se a ele.

É bem provável que a alma do artista penetre em cada obra e a percorre, fingindo não estar ali. Taciturno e compenetrado, ele ajusta-lhe as imagens pessoalmente, em silêncio sepulcral. O único som que se ouve é o do badalar das formas em contato com as cores.

Fig. 9 – Paul Klee, Rouxinóis Persas, 1917, Guache, aquarela, caneta e tinta preta sobre grafite sobre papel, montadas em cartolina; a folha bordada na parte superior com tira de papel amarela montada para apoiar, geral: 22.8 x 18.1 cm (9 x 7 1/8 in.). National Gallery of Art, Washington. Presente de Catherine Gamble Curran and Family, em honra do 50º aniversário da National Gallery of Art. Fig. 10 – Paul Klee, Árvore e Arquitetura - Ritmos, 1920, Óleo sobre papel, geral: 27.9 x 38.3 cm (11 x 15 1/16 in.). National Gallery of Art, Washington. Presente de Benjamin and Lillian Hertzberg.

Considerações Finais

A liberdade se expressa no esforço do espírito para libertar-se das formas que já cumpriram o seu papel – das formas antigas – e para criar a partir delas, formas novas, infinitamente diversas.
(KANDINSKY, p. 121, 1991)

No fecundo terreno da tela alva, a autonomia do artista se permitiu agir e por ela dispor o que havia de mais puro, no campo da Arte. Ali ele trabalhou com as cores e com as formas de maneira emancipada, madura e inteligente, como nunca se viu. A criatividade debruçou sobre o espaço disponível, permitiu-se falar por si só, remontando o que havia de mais belo em seu espírito. O intenso entusiasmo que desencadeou nesse momento permitiu que a Arte adquirisse feição própria. Para Kandinsky a “maior dessemelhança exterior torna-se a maior semelhança interior” (p. 125, 1991).

O resultado de tal liberdade, de tal busca interior é a exploração de novos campos, é o trafegar por direções indefinidas, e, sobretudo viajar por onde somente o espírito determinar, entre as cores que nascem e que desvanecem; que emergem e que se derramam faceiras, ora recuando, ora avançando, numa divertida brincadeira que nunca finda. Deve ser pura a Arte; deve ser pura e esclarecida a alma daquele que a explora; e deve ser livre o gosto.

O deleite sucede quando o alvo espaço da tela se torna convidativo e insinuante. É aí que a Arte fala por si só, destaca-se da realidade desumana e transita por novas direções. É possível que nesse instante se desencadeiem as mesmas emoções que sentiu o artista no intenso entusiasmo por sua criação. Fruir é permear a obra, vendo-lhe o mundo interior que ali ficou impresso, é sentir-lhe os cheiros, degustar-lhe o sabor e ouvir-lhe os sons que ecoa.

No palco, crepúsculo azul-escuro, a princípio esbranquiçado, depois de um azul escuro intenso. Depois de certo tempo, começa-se a ver no meio do palco, uma pequena luz, que se torna mais viva quando o azul escurece. Depois de certo tempo, música na orquestra. Pausa.

Atrás do palco começa-se a ouvir um coro disposto de modo que não se possa situar o lugar de onde vem o canto. Ouvem-se principalmente as vozes dos baixos. O canto é regular, com interrupções indicadas por pontos.
(KANDINSKY, p. 145, 1991)

1 Vídeo da parte externa e interna da Casa Rietveld Schroder:
www.youtube.com/watch?v=r0tvx6rA1os

2 Vídeos do youtube da Cadeira de Rietveld:
www.youtube.com/watch?v=VocMPhETkdM
www.youtube.com/watch?v=GsyaaG_95bg

3 Link sobre a Bauhaus, Visit UNESCO, by Yaromir:
visitunescobyyaromir.blogspot.com/2016/06/bauhaus.html

4 Jorge Oteiza Museum:
www.museooteiza.org/

vídeo de Jorge Oteiza:
www.youtube.com/watch?v=vjhgJOJfDYg

5 Figura Reclinável, de Henry Moore, no Tate Museum:
www.tate.org.uk/art/research-publications/henry-moore/henry-moore-om-ch-reclining-figure-r1172012

6 Vídeo sobre Malevich da Royal Academy of Arts:
www.youtube.com/watch?v=e3YS6uZ87Ec

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Referências:

  1. BANDEIRA, Manuel. Bandeira de Bolso, Uma Antologia Poética. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2008.
  2. BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.
  3. BYSTRINA, Ivan. Tópicos de Semiótica da Cultura, Aulas de Yvan Bystrina. PUC – SP,CISC (Centro Interdisciplinar de Pesquisas em Semiótica da Cultura e da Mídia). São Paulo: PRE-PRINT. Tradução Norval Baitello Júnior e Sônia B.Castino, 1995.
  4. CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. 2a. edIção. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. Tradução Nilson Moulin.
  5. CHILVERS, Ian; ZACZEK, Iain; WELTON, Jude; BUGLER, Caroline; MACK, Lorrie. História Ilustrada da Arte. São Paulo: Publifolha, 2014.
  6. EAGLETON, Terry. A Idéia de Cultura. São Paulo: Editora UNESP, 2005.
  7. FARTHING, Stephen. Tudo Sobre a Arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.
  8. GASSET, José Ortega y. A desumanização da arte. 5 a. Edição. São Paulo: Ed. Cortez, 2005.
  9. GLANCEY, Jonathan. A História da Arquitetura. São Paulo: Edições Loyola, 2012.
  10. GOLDING, John. Conceitos da Arte Moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.
  11. GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.
  12. HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
  13. KANDINSKY, Wassily. Olhar sobre o Passado. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora Ltda. 1991.
  14. KANT, Immanuel. O Belo e o Sublime. Pôrto: Livraria Educação Nacional Ltda. 1942.
  15. MEIRELES, Cecília. Espectros. São Paulo: Editora Global, 2013.
  16. PROENÇA, Graça. Descobrindo a História da Arte. São Paulo: Editora Ática, 2005.

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As figuras:

Fig. 1 – Casa Rietveld Shroder, Yaro Mir, Visit UNESCO by Yaromir.

Fig. 2 – Casa Rietveld Shroder, Yaro Mir, Visit UNESCO by Yaromir.

Fig. 3 – Rietveld Shroder House, @holandesando, Website: holandesando.com/casa-rietveld-schroder/.

Fig. 4 – Vasily Kandinsky, Pequena Pintura com Amarelo (Improvisação), 1914, óleo sobre tela, 31 x 39 5/8 polegadas (78.7 x 100.6 cm) Emoldurado: 32 3/4 x 41 1/2 x 2 1/2 polegadas (83.2 x 105.4 x 6.4 cm). Philadelphia Museum of Art, The Louise and Walter Arensberg Collection, 1950-134-103.

Fig. 5 – Vasily Kandinsky, Círculos em um Círculo, 1923, óleo sobre tela, 38 7/8 x 37 5/8 polegadas (98.7 x 95.6 cm) Emoldurado: 44 1/4 × 43 1/8 × 2 3/4 polegadas (112.4 × 109.5 × 7 cm). Philadelphia Museum of Art, The Louise and Walter Arensberg Collection, 1950-134-104.

Fig. 6 – Vasily Kandinsky, Cartão Postal número 3, para Exposição da Bauhaus, Weimar, Julho-Setembro 1923, Litografia Colorida, Imagem: 5 3/8 x 3 3/4 polegadas (13.7 x 9.5 cm) Folha: 5 15/16 x 4 1/4 polegadas (15.1 x 10.8 cm). Philadelphia Museum of Art, Presente de Carl Zigrosser, 1974-179-100.

Fig. 7 – Paul Klee, Composição com Figuras, 1915, Caneta e tinta e aquarela sobre papel montado em cartolina, Folha: 10.16 × 12.7 cm (4 × 5 in.) mount: 10.8 × 13.02 cm (4 1/4 × 5 1/8 in.). National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon.

Fig. 8 – Paul Klee, Ludwigstrasse, 1912, Caneta e tinta preta com lavagem em papel creme, colocado em papelão, geral: 9.9 x 19 cm (3 7/8 x 7 1/2 in.). National Gallery of Art, Washington. Presente de Benjamin and Lillian Hertzberg.

Fig. 9 – Paul Klee, Rouxinóis Persas, 1917, Guache, aquarela, caneta e tinta preta sobre grafite sobre papel, montadas em cartolina; a folha bordada na parte superior com tira de papel amarela montada para apoiar, geral: 22.8 x 18.1 cm (9 x 7 1/8 in.). National Gallery of Art, Washington. Presente de Catherine Gamble Curran and Family, em honra do 50º aniversário da National Gallery of Art.

Fig. 10 – Paul Klee, Árvore e Arquitetura – Ritmos, 1920, Óleo sobre papel, geral: 27.9 x 38.3 cm (11 x 15 1/16 in.). National Gallery of Art, Washington. Presente de Benjamin and Lillian Hertzberg.

Fig. 1 – Casa Rietveld Shroder, Yaro Mir, Visit UNESCO by Yaromir. Fig. 2 – Casa Rietveld Shroder, Yaro Mir, Visit UNESCO by Yaromir. Fig. 3 – Rietveld Shroder House, @holandesando, Website: holandesando.com/casa-rietveld-schroder/. Fig. 4 – Vasily Kandinsky, Pequena Pintura com Amarelo (Improvisação), 1914, óleo sobre tela, 31 x 39 5/8 polegadas (78.7 x 100.6 cm) Emoldurado: 32 3/4 x 41 1/2 x 2 1/2 polegadas (83.2 x 105.4 x 6.4 cm). Philadelphia Museum of Art, The Louise and Walter Arensberg Collection, 1950-134-103. Fig. 5 – Vasily Kandinsky, Círculos em um Círculo, 1923, óleo sobre tela, 38 7/8 x 37 5/8 polegadas (98.7 x 95.6 cm) Emoldurado: 44 1/4 × 43 1/8 × 2 3/4 polegadas (112.4 × 109.5 × 7 cm). Philadelphia Museum of Art, The Louise and Walter Arensberg Collection, 1950-134-104. Fig. 6 – Vasily Kandinsky, Cartão Postal número 3, para Exposição da Bauhaus, Weimar, Julho-Setembro 1923, Litografia Colorida, Imagem: 5 3/8 x 3 3/4 polegadas (13.7 x 9.5 cm) Folha: 5 15/16 x 4 1/4 polegadas (15.1 x 10.8 cm). Philadelphia Museum of Art, Presente de Carl Zigrosser, 1974-179-100. Fig. 9 – Paul Klee, Rouxinóis Persas, 1917, Guache, aquarela, caneta e tinta preta sobre grafite sobre papel, montadas em cartolina; a folha bordada na parte superior com tira de papel amarela montada para apoiar, geral: 22.8 x 18.1 cm (9 x 7 1/8 in.). National Gallery of Art, Washington. Presente de Catherine Gamble Curran and Family, em honra do 50º aniversário da National Gallery of Art. Fig. 8 – Paul Klee, Ludwigstrasse, 1912, Caneta e tinta preta com lavagem em papel creme, colocado em papelão, geral: 9.9 x 19 cm (3 7/8 x 7 1/2 in.). National Gallery of Art, Washington. Presente de Benjamin and Lillian Hertzberg. Fig. 7 – Paul Klee, Composição com Figuras, 1915, Caneta e tinta e aquarela sobre papel montado em cartolina, Folha: 10.16 × 12.7 cm (4 × 5 in.) mount: 10.8 × 13.02 cm (4 1/4 × 5 1/8 in.). National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon. Fig. 10 – Paul Klee, Árvore e Arquitetura - Ritmos, 1920, Óleo sobre papel, geral: 27.9 x 38.3 cm (11 x 15 1/16 in.). National Gallery of Art, Washington. Presente de Benjamin and Lillian Hertzberg.

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Arte Moderna – Cubismo por Rosângela Vig https://www.obrasdarte.com/arte-moderna-cubismo-por-rosangela-vig/ https://www.obrasdarte.com/arte-moderna-cubismo-por-rosangela-vig/#respond Tue, 30 Oct 2018 17:38:18 +0000 https://www.obrasdarte.com/?p=48485-pt Você também pode ouvir esse artigo na voz da própria Artista Plástica Rosângela Vig:

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Orfeu
Admirem o poder notável

Desta linha nobre e louvável:
Ela é a voz que veio da luz ressoando
De que fala Hermes Trismegisto em seu Pimandro. 1
(APOLLINAIRE, 1997, p.27)

O artista é o cavaleiro. Suas rédeas guiam nosso olhar pelos caminhos do sonho e da fantasia. Nesse itinerário debruçam maravilhadas nossa imaginação e nossas próprias aspirações. Quando se atreve o artífice a ousar, aventura-se nosso olhar, nosso coração e nossa alma a passear por novos ângulos e inimagináveis perspectivas. Podemos nos encantar ou simplesmente ficar atônitos diante do Belo ou do Sublime que o tempo tem descortinado. E o tempo tem sido generoso com nosso olhar. A Arte é uma senhora aventureira que se reinventa incansavelmente. E nada foi mais audacioso e arrojado do que a Arte que se desvencilhou da forma realista no início do século XX. Entre as ousadas tendências estéticas do novo século o Cubismo foi a mais influente e revolucionária.

Desprendidos da realidade, os pintores exploraram um novo modo de representação e o objeto passou a ser visto por meio de linhas, como se estivesse aberto, decomposto. E o estilo chegou às demonstrações estéticas, alargou seus braços no campo da Literatura e teve Apollinaire como seu maior representante. Em seu livro Caligramas 2 a poesia dialoga com o leitor, por meio das palavras e por meio das imagens. O texto ocupa o espaço e se configura em imagens. Aqui, também a liberdade prevaleceu, por meio de idéias soltas, dispostas aleatoriamente, como se estivessem em desordem, como se fossem descontínuas.

O conturbado período em que floresceu o Cubismo foi marcado por grandes guerras, entre elas, a Revolução Russa (1917); a Primeira Guerra Mundial (1914-1918); a Segunda Guerra Mundial (1939-1945); e a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Mas a humanidade também testemunhou grandes avanços da Tecnologia e da Comunicação, entre os quais, a invenção da televisão em 1925, por John Logie Baird (1888-1946); Albert Einstein (1879-1955) revolucionou o campo da Física com a Teoria da Relatividade (1905); Alberto Santos Dumont (1873-1932) conseguiu que seu 14-Bis realizasse o primeiro vôo em 1906; e Alexander Fleming (1881-1955) descobriu as funções antibióticas da penicilina em 1928. À era ainda cabe atribuir a difusão da fotografia 3 que reproduzia as imagens reais, permitindo à Arte ser ela mesma.

Em meio a esse alvoroçado cenário a Pintura via florescer na França de 1907, o Cubismo, com Pablo Picasso (1881-1973) e Georges Braque (1882-1963). As origens do estilo, entretanto, remontam um pouco antes, ainda no Pós-Impressionismo, final do século XIX, com Paul Cézanne (1839-1906) que já trabalhava com as cores puras e a representação das coisas, na forma de cilindros e de cones. Em 1911, o Cubismo se popularizou e foi difundido para vários países da Europa e para o Brasil.

Arquitetura

Somos a geração dos jovens iracundos,
a emergir como cactos de fúria
para mudar a face do tempo.
(MAIAKÓVSKI, in COSTA, 2003, p.30)

A desconstrução da forma e o distanciamento do Clássico propostos pelo Cubismo revelaram-se também na Arquitetura e, nesse campo, pode ser que o único país representante seja a República Tcheca 4. Em meio aos vários padrões arquitetônicos que a cidade de Praga, capital do país, abriga, o Cubismo está presente em várias de suas construções. E talvez, entre elas, a mais importante seja a Casa da Virgem Negra (The House at the Black Madonna) (Fig. 1).

Considerado uma obra prima do Cubismo Tcheco, o edifício foi construído entre 1911 e 1912 e projetado pelo arquiteto Josef Gočár (1880-1945). Seu interior abriga um museu dedicado ao Cubismo. Em um dos cantos, da parte externa do edifício, fica a estátua de pedra do Barroco que dá nome à construção (Fig. 2). Completamente ajustado ao estilo da região, a simplicidade organizada da imponente fachada revela traços cubistas nas imensas janelas angulares, intercaladas por colunas. No primeiro andar, o Grand Café Orient está entre os elegantes ambientes que também asseguram o feitio Cubista, com seus itens ornamentais, como lustres, objetos de decoração e mobiliário, repletos de linhas geométricas, de cones e cilindros. Ali, o jogo de luz e de sombra complementa a idéia de fragmentação da forma com a difusão e a orientação de luz, como se ela também se fracionasse, ao sabor do estilo cubista.

Fig. 1 – Casa da Virgem Negra, Museu de Artes Decorativas. Prague.eu: The Official Tourist Website for Prague. Foto: Ondrej Kocourek.

Fig. 1 – Casa da Virgem Negra, Museu de Artes Decorativas. Prague.eu: The Official Tourist Website for Prague. Foto: Ondrej Kocourek.

Escultura

Até uma parte de um objeto tem valor. Todo um novo realismo reside no modo como se considera um objeto ou uma de suas partes. (Léger in MACK, 2014, p.323)

O estilo que reinventava a Arte encontrou campo fértil na Escultura. A liberdade permitiu aos artistas tornarem táteis as imagens decompostas. E o campo imagético desenhado pelo Cubismo na Pintura, foi também aproveitado na Escultura. Nesse sentido, a busca foi pela autonomia, pelo desprendimento da realidade, pela busca de novos materiais e de novas técnicas. A colagem foi uma delas e por ela foi possível a sobreposição de formas geométricas, permitindo ao olhar a sensação de volume e de profundidade em meio aos campos vazados e aos espaços cheios.

Tais atributos foram revelados nas obras de grandes nomes como Raymond Duchamp-Villon (1873-1918) e Constantin Brancusi (1876-1957), mas foi pelas mãos do grande precursor do Cubismo, Pablo Picasso (1881-1973) que a Escultura adquiriu relevância 5. Picasso atuou ao lado de seu amigo Georges Braque (1882-1963), com quem iniciou, difundiu o estilo e compartilhou idéias. Mais que apenas intersecções de volumes e de formas, os principais traços da pintura de Picasso também ficaram à mostra em seus objetos escultóricos.

A flexibilidade no uso de materiais pode ser observada em vários objetos como a Cabra 6. Próximo do estúdio de Picasso havia um pátio repleto de sucatas de metal e de materiais de construção. Desse lugar, o artista retirou pedaços de cerâmica e de ferro que utilizou para formar o esqueleto do animal e o preencheu com gesso. Um cesto complementou o espaço que forma o tórax e dois jarros representam os úberes. Para a curvatura da espinha e para o focinho foram usadas folhas de palmeiras; e o artista ainda aproveitou restos de metal por toda a estrutura. O resultado foi uma obra surpreendente, repleta de detalhes de uma cabra de verdade, com pernas muito magras, imóvel. É possível reconhecer por toda a escultura, traços dos objetos e do ferro utilizados por Picasso. Sua liberdade ficou perceptível na despreocupação com a forma; na rugosidade da pele do animal; nas linhas retas das costas, pernas e patas da cabra, características do Cubismo. A busca por novas linhas e por novas texturas deixou exposto um desejo de fuga do figurativo e possibilitou que ele transitasse livremente pela Arte em si. Consideradas degeneradas, muitas obras de Picasso foram retiradas de coleções públicas pelo regime nazista. Atualmente fazem parte de coleções de grandes museus do mundo.

Seguindo as linhas retas do Cubismo, o Cavalo Grande (Fig. 3), de Raymond Duchamp-Villon parece estar prestes a dar um salto. Ao contrário da Cabra de Picasso, a superfície do cavalo é lisa, composta por figuras geométricas que se encaixam perfeitamente com as partes do corpo que representam e, por elas, enfatizam-se os movimentos do animal. O brilho que permeia os espaços vazados e cheios da imagem leva luz e sombra, possibilitando o jogo do claro e do escuro, ao preencher os espaços vazios realçando a idéia de movimento.

Fig. 2 – Casa da Virgem Negra, Museu de Artes Decorativas, Santa na lateral do prédio. Prague.eu: The Official Tourist Website for Prague. Foto: Ondrej Kocourek.

Fig. 2 – Casa da Virgem Negra, Museu de Artes Decorativas, Santa na lateral do prédio. Prague.eu: The Official Tourist Website for Prague. Foto: Ondrej Kocourek.

Pintura

Como parte de um desejo de chegar tão perto quanto possível de certo tipo de realidade, em 1911 introduzi letras em minhas pinturas (Braque in MACK, 2014, p.330)

Explorar as perspectivas simultâneas; associá-las ao jogo de linhas e de cores; fugir da realidade e, sobretudo decidir se desvencilhar do comum, de alçar vôo para diferentes dimensões; talvez estejam entre os desígnios iniciais de estudo do Cubismo. Mal sabiam os artistas que, ao explorar esses novos campos, estariam também modificando para sempre a História da Arte.

Traços de distanciamento do realismo já despontavam no final do século XIX, com a obra de Paul Cézanne (1839-1906). Seu modo inovador de pintura consistia em reduzir os espaços pictóricos a cubos e a cilindros, o que foi de fundamental contribuição para o Cubismo. Considera-se o período Cézanniano como a fase inicial ou pré-analítica do Cubismo, que se deu entre 1907 e 1909.

Picasso conseguiu ir mais longe, alterou as linhas de Cézanne, ampliando seu campo de visão, com imagens retilíneas, abertas, vistas num mesmo plano simultaneamente. Les Demoiselles D’Avignon 7 foi a obra de Picasso que inaugurou e abriu o estilo cubista, em 1907. As protagonistas da cena são cinco prostitutas de um bordel em um mal afamado bairro de Barcelona. O nome Avignon, portanto, não se refere a uma cidade da França, mas à rua (Carrer Avinyó) da cidade espanhola. A obra quebrou os paradigmas da Arte tradicional ao retratar cinco mulheres nuas, com formas simplificadas. As linhas retas, angulares demonstram a influência da Arte Africana e da Arte Ibérica, com que Picasso teve contato. A mulher da esquerda veste um roupão rosa que lhe cobre parte do corpo; ela parece abrir a cena, puxando uma cortina. Ao centro, há duas mulheres em pé e uma sentada; mais atrás, outra parece descortinar um cômodo, de onde ela mesma sai. Em poses sensuais, todas parecem estar envoltas em uma espécie de véu cor de rosa. Desatentas às frutas na parte inferior da cena, elas olham para o observador. Picasso realizou vários estudos até chegar à pintura original. Entre as obras que podem ter servido de influência a Picasso, estão A Abertura do Quinto Selo ou Visão de São João, de El Greco (1541-1614); as Cinco Banhistas, de Cézanne; e o Banho Turco de Ingres (1780-1867).

Numa segunda fase, entre 1909 a 1912, o uso de cores se tornou mais moderado; prevaleceram as formas geométricas; e as obras se distanciavam do figurativo. A essa fase, cujo nome atribuído foi Cubismo Analítico ou Hermético 8, corresponde a obra Retrato de Ambroise Vollard, de 1910, de Picasso. A imagem traz como protagonista o conhecido negociante de Arte da época, Ambroise Vollard (1866-1939), cujo rosto emerge em meio às formas sobrepostas e às suaves nuances. É possível reconhecer os contornos do instrumento musical na imagem, suas cordas e os riscos de sua madeira.

A partir de 1912, numa tentativa de conduzir o olhar para a realidade, foram trazidos para a obra, elementos reconhecíveis. Além de trabalharem com maior ênfase nas cores, os artistas passaram a usar colagens, letras, pedaços de jornal e objetos. A esse período foi atribuído o nome de Cubismo Sintético 9. Está entre as obras dessa fase o Violino, de 1912, também de Picasso. É possível reconhecer os contornos do instrumento musical na imagem, suas cordas, os riscos de sua madeira e seus contornos.

Antes de chegar às formas Cubistas, entretanto, a obra de Picasso 10 passou por duas fases. Na fase Azul, entre 1901 e 1904, o artista produzia obras em tons monocromáticos, com temas que passaram pelos temas da solidão, do abatimento e da pobreza. Entre os fatos que o induziram a esse período estiveram a morte de sua irmã Concepción de oito anos e o suicídio de seu grande amigo Casagemas. A partir de 1904, até 1907, o artista passou pela fase rosa, atribuída à sua paixão por Fernande. A temática passou a girar em torno de saltimbancos e de elementos circenses, que tanto fascinavam Picasso. Nas linhas do Cubismo, o artista trabalhou juntamente com Braque e, muitas vezes, as obras dos dois se confundiam. Picasso chegou a dizer: “Era como se fôssemos casados” (“C’était comme si nous étions mariés”) (GOLDING, 1991, p.41), tamanha era a amizade e a colaboração entre ambos. Para o historiador e colecionador de Arte Daniel-Henry Kahnweiler (1884-1979), “na evolução da nova Arte, as contribuições de Picasso e Braque mal se distinguem” (in MACK, 2014, p.326). Depois da Primeira Guerra Mundial, Braque se distanciou da Arte, em virtude de ferimentos da guerra. A obra de Picasso ainda passou por um período clássico durante a década de 20 e por um período repleto de cenas eróticas em que se incluíam a figura do Minotauro, na década de 30, sob influência do Surrealismo. Em 1937, aos moldes do Cubismo, Picasso pintou sua mais célebre e conhecida obra, o painel Guernica 11, no qual expressou seu repúdio ao bombardeio que matou centenas de pessoas da cidade espanhola do mesmo nome.

Picasso e Braque atuaram na Pintura Cubista, ao lado de outros artistas como Juan Gris (1887-1927); Fernand Léger (1881-1955); o grande pintor muralista mexicano Diego Rivera (1886-1957); e Tarsila do Amaral (1886-1973), no Brasil.

O fim do Cubismo se deu em 1914, quando vários intelectuais, escritores e artistas que se juntaram ao movimento foram recrutados e se dispersaram, em virtude da I Guerra Mundial. Mas o estilo revolucionário continuou a inspirar artistas e dele vieram outros movimentos que modificaram para sempre o espaço pictórico.

Fig. 3 – By: Raymond Duchamp-Villon, Large Horse, 1914. Bronze. Collection Tate. © Raymond Duchamp-Villon, Photo © Tate. Image released under Creative Commons CC-BY-NC-ND (3.0 Unported). Link to the work on the main Tate website.

Fig. 3 – By: Raymond Duchamp-Villon, Large Horse, 1914. Bronze. Collection Tate. © Raymond Duchamp-Villon, Photo © Tate. Image released under Creative Commons CC-BY-NC-ND (3.0 Unported). Link to the work on the main Tate website.

Considerações Finais

A tartaruga
Da Trácia mágica, encanto!

Toco sim minha lira enquanto
Bichos passam ao som veloz
De minha tartaruga e voz.
(APOLLINAIRE, 1997, p.29)

O conturbado cenário em que o Cubismo floresceu foi fecundo terreno para os artistas. Guiados pela liberdade, eles se emanciparam definitivamente das formas tradicionais. A ousadia possibilitou a recriação da Estética e foi a grande marca que o estilo deixou na Arte, no Teatro e também na Literatura. Desafiando as convenções da língua escrita, a Poesia de Guillaume Apollinaire (1880-1918) privilegiou a descontinuidade, com frases, muitas vezes sem verbos, com versos autônomos; rejeitando a forma clássica. Os pensamentos fragmentados deixaram expostas visões simultâneas de uma mesma reflexão. É como se vozes mescladas e superpostas exprimissem várias nuances de um mesmo raciocínio. Tal sobreposição de pensamentos, em muito lembra a fragmentação da Pintura cubista.

Segundo Terry Eagleton (1943-),

A Arte recria as coisas individuais na forma de suas essências universais, e ao fazê-lo torna-as inimitavelmente elas próprias. No decurso disso, ela as converte de contingência a necessidade, de dependência a liberdade. O que resiste a esse processo alquímico é expurgado como refugo particularista. (EAGLETON, 2005, p.85).

Não poderia haver texto melhor para elucidar a Arte. O Cubismo delimitou esse marco de recriação. O estilo que floresceu em conturbado cenário, mudou para sempre os padrões da Arte Moderna. O caos do início do século XX foi fecundo terreno para o artista, que se viu diante de duas grandes guerras. Ali, a Arte encontrou seu espaço, seguiu seu caminho sendo ela mesma, em sua essência, livre; despertando um novo tipo de percepção, ligada ao intelecto.

Para Gasset (2005, p.50), “o prazer estético tem que ser um prazer inteligente”, isto é, possibilita um despertar de idéias, instiga o pensar crítico. Tal raciocínio se ajusta ao teor do Cubismo. Nesses novos percursos da forma, estavam em jogo novas linguagens, novas possibilidades, mas, sobretudo um discernimento aprofundado sobre época. A despeito das críticas, o Cubismo permitiu uma inovação em códigos e em experiências, proporcionando um olhar diferente sobre a fruição e sobre o objeto artístico. A obra deve despertar, pois um encantamento silencioso, que ecoa pelos sentidos, sem as imposições da realidade.

1 Do original em francês:

Orphée
Admirez le pouvoir insigne

Et la noblesse de la ligne:
Elle est la voix que la lumière fit entendre
Et dont parle Hermès Trismégiste en son Pimandre
(APOLLINAIRE,1997, p.26)

2 Livro Caligramas de Guillaume Apollinaire, do francês Caligrammes: Poémes de la Paix et de la Guerre.

3 Vídeo sobre a História da Fotografia de Joseph Nicéphore Niépce:
www.hrc.utexas.edu/exhibitions/permanent/firstphotograph/history/

4 Arquitetura Cubista:
www.fostinum.org/czech-cubist-architecture.html

5 Esculturas de Pablo Picasso:
www.youtube.com/watch?v=C1NWaN8pE-Q

6 A Cabra de Pablo Picasso:
www.youtube.com/watch?v=ntcc9saACuw

7 Les Demoiselles D’Avignon:
www.youtube.com/watch?v=SfhyGYbVGvQ

8 Cubismo Analítico ou Hermétco:
www.youtube.com/watch?v=BmfAQo27nVQ

9 Cubismo Sintético:
www.youtube.com/watch?v=QBKxazizTME

10 Pinturas de Pablo Picasso:
www.youtube.com/watch?v=HDyJGURaSfM

11 Guernica de Pablo Picasso:
www.youtube.com/watch?v=l_VSixma864

12 Do original em francês:

La tortue
Du Thrace magique, ô délire !

Mes doigts sûrs font sonner la lyre.
Les animaux passent aux sons
De ma tortue, de mes chansons.
(APOLLINAIRE,1997, p.28)

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Referências:

  1. APOLLINAIRE, Guillaume. O Bestiário ou Cortejo de Orfeu. São Paulo: Ed. Iluminuras, 1997. Tradução e apresentação de Álvaro Faleiros.
  2. BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.
  3. BYSTRINA, Ivan. Tópicos de Semiótica da Cultura, Aulas de Yvan Bystrina. PUC – SP,CISC (Centro Interdisciplinar de Pesquisas em Semiótica da Cultura e da Mídia). São Paulo: PRE-PRINT. Tradução Norval Baitello Júnior e Sônia B.Castino, 1995.
  4. CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. 2a. edIção. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. Tradução Nilson Moulin.
  5. CHILVERS, Ian; ZACZEK, Iain; WELTON, Jude; BUGLER, Caroline; MACK, Lorrie. História Ilustrada da Arte. São Paulo: Publifolha, 2014.
  6. COSTA, Eduardo Alves da. No Caminho, com Maiakóvski: Poesia Reunida. São Paulo: Geração Editorial, 2003.
  7. EAGLETON, Terry. A Idéia de Cultura. São Paulo: Editora UNESP, 2005.
  8. FARTHING, Stephen. Tudo Sobre a Arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.
  9. GASSET, José Ortega y. A desumanização da arte. 5 a. Edição. São Paulo: Ed.Cortez, 2005.
  10. GOLDING, John. Conceitos da Arte Moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.
  11. GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.
  12. HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
  13. KANT, Immanuel. O Belo e o Sublime. Pôrto:Livraria Educação Nacional Ltda. 1942.
  14. MARQUÉS, María José Mas. Gênios da Arte: Picasso. Barueri: Ed. Girassol, 2007. Tradução de Mathias de Abreu Lima Filho.
  15. PROENÇA, Graça. Descobrindo a História da Arte. São Paulo: Editora Ática, 2005.
  16. SCHILLER, Friedrich Von. Poesia Ingênua e Sentimental. São Paulo: Ed.Iluminuras, 1991.
  17. SPENCE, David. Picasso Quebrando as Regras. São Paulo: Cia Melhoramentos, 2005. Tradução de Luiz Antônio Aguiar.
  18. VIG, Rosângela. Da arte como comunicação à comunicação como arte: uma abordagem da estética cubista em Guernica. Em: www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=201241 (Último acesso em 15/10/2018)

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As figuras:

Fig. 1 – Casa da Virgem Negra, Museu de Artes Decorativas. Prague.eu: The Official Tourist Website for Prague. Foto: Ondrej Kocourek.

Fig. 2 – Casa da Virgem Negra, Museu de Artes Decorativas, Santa na lateral do prédio. Prague.eu: The Official Tourist Website for Prague. Foto: Ondrej Kocourek.

Fig. 3 – By: Raymond Duchamp-Villon, Large Horse, 1914. Bronze. Collection Tate. © Raymond Duchamp-Villon, Photo © Tate. Image released under Creative Commons CC-BY-NC-ND (3.0 Unported). Link to the work on the main Tate website.

Fig. 1 – Casa da Virgem Negra, Museu de Artes Decorativas. Prague.eu: The Official Tourist Website for Prague. Foto: Ondrej Kocourek. Fig. 2 – Casa da Virgem Negra, Museu de Artes Decorativas, Santa na lateral do prédio. Prague.eu: The Official Tourist Website for Prague. Foto: Ondrej Kocourek. Fig. 3 – By: Raymond Duchamp-Villon, Large Horse, 1914. Bronze. Collection Tate. © Raymond Duchamp-Villon, Photo © Tate. Image released under Creative Commons CC-BY-NC-ND (3.0 Unported). Link to the work on the main Tate website.

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Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Fim do Mundo

O chapéu voa da cabeça do cidadão,
Em todos os ares retumba-se gritaria.
Caem os telhadores e se despedaçam
E nas costas — lê-se — sobe a maré.

A tempestade chegou, saltam à terra
Mares selvagens que esmagam largos diques.
A maioria das pessoas tem coriza.
Os trens precipitam-se das pontes.
(HODDIS in HARDMAN, 2009, p.256)

A cena descrita na poesia é perturbadora, traduz a idéia de esfacelamento, de morte e de destruição. O pavoroso cenário desperta sentimento de medo em meio ao caos e à tragédia. Weltende foi o nome, em alemão, para o mais significativo poema do Expressionismo. Seu autor, Jacob Van Hoddis (1887-1942) tinha origem judaica e morreu num campo de extermínio nazista.

Escrito em 1911, o poema deixa exposta a desorientação e o terror, num momento apocalíptico. A linguagem figurada e o pessimismo são as marcas desse texto e foram os principais traços do Expressionismo. Opondo-se ao positivismo dos impressionistas, o movimento refletiu um olhar dos poetas sobre a sociedade moderna da época, sobre as guerras e sobre a industrialização. Ficou nítido o caráter político e o teor revolucionário e social.

O movimento foi uma das vanguardas européias do início do século XX e surgiu na Alemanha, entre 1904 e 1905, na Pintura. Quatro estudantes de Arquitetura formaram um grupo chamado Die Brüke (A Ponte). Como uma reação ao Impressionismo, com inspiração na Arte Africana e na Arte da Oceania, o grupo se atreveu a expor em suas obras as inquietações do ser humano. E nada foi mais inquietante do que a primeira metade desse século, em meio a um conturbado contexto histórico marcado por duas grandes Guerras Mundiais, pela Revolução Russa, pelo fascismo na Itália e pelo nazismo na Alemanha.

Foi nesse perturbador cenário que o Expressionismo se manifestou no campo das Artes, modificando e reorganizando as formas conhecidas, fazendo prevalecer a subjetividade sobre a realidade.

Fig. 1 – Torre Einstein, Erich Mendelsohn, 1924. Foto: Kate Peeples Brown.

Arquitetura

A idéia de grandiosidade foi o grande traço do Modernismo na Arquitetura. Influenciada em grande parte pelos arquitetos Henry Van de Velde (1863-1957), Antoni Gaudí (1852-1926) e Joseph Maria Olbrich (1867-1908) e ainda pelo movimento Arts and Crafts de William Morris (1834-1896), a Arquitetura desse período 1 tinha como marca a excentricidade.

Materiais como o tijolo, o vidro e o aço foram amplamente empregados nas construções e foi dada relevância ao subjetivismo e à funcionalidade. Com o propósito de produzir em larga escala esses materiais e também de integrar as Artes decorativas e o artesanato, os profissionais, os empresários, os arquitetos e os designers fundaram em outubro de 1907, a Federação Alemã do Trabalho, Deutsche Werkbund, primeiro movimento inspirado na Arte Nova (Art Nouveau) popular na Alemanha da época. O grupo tinha como objetivo agregar a indústria à Arquitetura, por meio do trabalho, da profissionalização e da educação. A Modernidade deveria ser inserida no Desenho Arquitetônico. Faziam parte desse grupo os arquitetos Peter Behrens (1868-1940), Walter Gropius (1883-1969) e Mies Van der Rohe (1886-1969). Outros grupos se formaram posteriormente como a conhecida Escola de Amsterdam, em 1915.

Fundada em 1919, na Alemanha, por Walter Gropius, a Bauhaus foi a primeira e mais influente escola de vanguarda do mundo, no campo das Artes Plásticas, do Design e da Arquitetura. Muito do que foi produzido na escola foi vendido no período da Segunda Guerra Mundial. Servindo como referência para grandes patrimônios arquitetônicos do mundo, a Bauhaus chegou a mudar de endereço devido às questões políticas e foi fechada em 1933 em virtude das perseguições nazistas. Grandes e conhecidos artistas e arquitetos da época chegaram a lecionar na Bauhaus, entre os quais Paul Klee (1879-1940), Wassily Kandinsky (1866-1944) e Mies Van Der Rohe (1886-1969).

Entre as mais significativas construções aos moldes do Expressionismo está o Pavilhão de Cristal 2 (1914), do arquiteto Bruno Taut (1880-1938), feito especialmente para a Exposição da Federação Alemã de Trabalho, na cidade de Colônia, na Alemanha. A construção de concreto e vidro tinha o domo oval e a fachada ornamentada com placas de vidro coloridas semelhantes a espelhos, com variações de cores que iam do azul escuro, ao verde e terminavam em amarelo, no topo. Iluminadas pelos vidros coloridos, a escadaria e a cascata no interior da torre levavam a efeitos de cor que provocavam emoções no espectador, objetivo maior da obra que, logo após a exposição, foi destruída, restando apenas fotos em preto e branco.

Projetada pelo arquiteto Erich Mendelsohn (1887-1953), a Torre Einstein 3 (Fig. 1) é um observatório astrofísico e laboratório, edificado aos moldes do Expressionismo. A obra, localizada no Parque Científico Albert Einstein, em Potsdam, na Alemanha, foi utilizada para experiências que validariam a Teoria da Relatividade de Einstein (1879-1955). É possível reconhecer o dinamismo do grande cientista na construção, com sua forma espiralada assimétrica, repleta de movimento. Embora não fosse ligado ao Futurismo italiano, o traço arrojado da construção é vivo e enérgico. O exotismo da torre chegou a causar impacto na época.

Aderiram ainda ao estilo, os arquitetos Hans Poelzig (1869-1936), Hermann Finsterlin (1887-1973), Fritz Höger (1877-1949), Hans Scharoun (1893-1972) e Rudolf Steiner (1861-1925).

Fig. 2 – Jovem Sentado, Wilhelm Lehmbruck, 1917, composto de gesso colorido, 103.2 x 76.2 x 115.5 cm. National Gallery of Art, Washington. Fundo Andrew W. Mellon. Fig. 3 – Mulher em Pé, Wilhelm Lehmbruck, 1910, bronze, 191.2 x 54 x 39.9 cm. National Gallery of Art, Washington. Fundo Ailsa Mellon Bruce.

Escultura

A Arte apanha a vida entre os materiais brutos, fá-la de novo, refunde-a sob novas formas e, absolutamente indiferente ao próprio fato, inventa, imagina, sonha e conserva entre ela e a realidade uma barreira intransponível de belo estilo, de método decorativo ou ideal. (WILDE, 1994, p.39)

Foi o espírito inventivo e sonhador que acabou levando tantas histórias para a Arte. Foi ele que permitiu à forma divagar pelos tempos criando tanta diversidade de feitios. As mãos do artífice aos poucos delinearam essa trajetória que passou pelo figurativo e que a Arte Moderna se encarregou de dar autonomia. E foi essa liberdade o atributo mais notável da Escultura expressionista.

Entre os nomes que se destacaram nesse campo, estão os de Rudolf Belling (1886-1972), Oskar Schlemmer (1888-1943), Otto Freundlich (1878-1943), Ernst Barlach (1870-1938) e Käthe Kollwitz (1867-1945).

Embora o estilo tenha diversificado de artista para artista, a todos foi comum e ficou evidente a emancipação da forma e do figurativo, com acentuada tendência à distorção e ao movimento. Essas características também estiveram entre os maiores atributos da obra de Wilhelm Lehmbruck (1881-1919). Seus personagens são estilizados, simples na forma, eles simbolizam o abandono e a tristeza, muitas vezes em meio ao êxtase e à loucura; parecem se contorcer, suplicar e se deslocar com sofreguidão. Suas figuras alongadas e solenes remetem ao estilo gótico e estão quase sempre nuas, por vezes com tecidos caindo aos pés, revelando grande parte do corpo, ora muito magro, com os ossos salientes; ora obesos. Seu Jovem Sentado (Fig. 2) pensativo e sem ânimo, parece consternado, em estado de resignação. No lento e dramático gesto, a impressão é a de que a imagem foi capturada num dado momento e que a pessoa irá se mover, ou que está se movendo. Inspirado nas idéias do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), não é difícil encontrar também no trabalho de Lehmbruck a influência dos escultores Aristide Maillol (1861-1944) e Auguste Rodin (1840-1917). As obras de Lehmbruck chegaram a ser consideradas degeneradas e foram retiradas de coleções públicas pelo regime nazista. Atualmente fazem parte de coleções de grandes museus do mundo.

Fig. 4 – Edvard Munch: O Grito, 1910, Têmpera e óleo sobre papel cartão, 83,5 x 66 cm. Munch Museum, Oslo. Photo © Munch Museum. Fig. 5 – Edvard Munch: Madonna, 1895/1902, Litografia, 605 x 442–447 mm. Munch Museum, Oslo. Photo © Munch Museum.

Pintura

O artista é e permanece livre para combinar os elementos abstratos e os elementos objetivos, para realizar uma escolha entre a série infinita das formas abstratas ou do material que os objetos lhe fornecem – em outras palavras, ele é livre para escolher seus próprios meios. Assim fazendo, ele obedece unicamente ao seu desejo interior. (KANDINSKY, 1991, p.133)

O assombro e o sentimento apocalíptico estão entre as impressões que o início do século XX deixou no pensamento. A humanidade que se via diante dos horrores de duas grandes guerras mundiais e do nazismo, não poderia ter outra interpretação de mundo que não fosse de caos e de desordem. E esse atormentado viver se refletiu na Arte por meio da expressividade e do subjetivismo. Se a Pintura do final do século XIX já testemunhava um distanciamento da realidade, o Expressionismo consolidou essa tendência no início do século XX. A liberdade do espírito, de que nos fala Kandinsky, em seu texto acima, permitiu à Arte se aproximar ainda mais da luz do pensamento e das emoções. Predominaram as distorções; a rejeição pela perspectiva e pela luz; e, sobretudo uma reorganização das formas conhecidas.

O grupo Die Brüke (A Ponte) foi a primeira manifestação, aos moldes expressionistas, em 1905, com os pintores Ernst Kirchner (1880-1938), Karl Rottluff (1884-1976), Emil Nolde (1857-1956), Oskar Kokoshka (1886-1980). Posteriormente juntaram-se mais artistas ao grupo que tinha como objetivo rejeitar o academicismo. Influenciado pelo Fauvismo, o movimento realizou várias exposições até 1913, ano em que terminou oficialmente. Entre os grupos que se formaram, seguiu-se ainda o Der Blaue Reiter (O Cavaleiro Azul), de 1911, com Franz Marc (1880-1916), Wassily Kandinsky (1866-1944), Paul Klee (1879-1940) e Lyonel Feininger (1871-1956). Envolveram-se também com o movimento os artistas Marc Chagall 4 (1887-1985), nascido na Rússia, Chaim Soutine (1893-1943), da Lituânia; Amedeo Modigliani (1884-1920), da Itália; Diego Rivera (1886-1957), José Orozco (1883-1949) e David Siqueiros (1896-1974), protagonistas do Muralismo Mexicano; Constant Permeke (1886-1952), da Bélgica; e Georges Rouault (1871-1958), da França.

Fig. 6 – Mulher Cigana com Bebê, Amedeo Modigliani, 1919, óleo sobre tela, 115.9 x 73 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 7 – Madamme Kisling, Amedeo Modigliani, 1917, óleo sobre tela, 46,2 x 33,2 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Como precursores do movimento expressionista figuram ainda os nomes do holandês Vincent Van Gogh (1853-1890), pela inconfundível natureza de seu trabalho, pelo uso das cores puras e pelo vigor das pinceladas; e do norueguês Edvard Munch (1863-1944), que passou também pelo Simbolismo.

A melancolia e a depressão, comuns nas obras de Munch, acentuam-se em O Grito (Fig. 4). Realizada em 1893, a obra recebeu mais três versões e a primeira foi pintada antes mesmo que o Expressionismo fosse reconhecido como movimento. No canto inferior esquerdo da pintura, três pessoas caminham sobre uma ponte; duas das quais num plano mais distante e uma mais próxima, em evidência. Com as mãos na cabeça, a expressão desse personagem representa o desespero ou a angústia, como se clamasse por ajuda. As cores quentes do céu e de grande parte da imagem parecem contrastar com a cor azul da água de um lago que faz parte do cenário. Em toda a cena, as cores serpenteiam, são sinuosas, tem movimento e não se deixam misturar. As formas conhecidas são deformadas, as pessoas são angulosas e distorcidas. A simplificação das linhas e o abandono das formas realistas denotam uma preocupação do artista com a expressividade. E o desespero que exterioriza o personagem reflete a própria vida do artista, em virtude dos problemas psicológicos e familiares pelos quais passou. O estilo de Munch sintetizou o espírito expressionista e serviu de inspiração aos artistas do século XX.

Para alguns estudiosos, o autônomo estilo de Amedeo Modigliani o tornava distante de qualquer movimento da época. Entretanto é possível reconhecer traços expressionistas em sua refinada forma de distorção da realidade. As cores puras, intensas e o abatimento de seus personagens angulosos estão entre os expressivos atributos de seu fazer artístico. E essa é a mais notada característica de sua Madamme Kisling (Fig. 7). A entristecida mulher ruiva, de cabelos curtos, usa gravata, camisa e paletó. Seu rosto delicado e muito magro contrasta com o olhar melancólico. A mulher sobre almofada azul (Fig. 9) está entre os diversos nus que o artista pintou. Reclinada, com tristonho olhar, ela toca o queixo em pensativo gesto. Seu rosto alongado, a languidez e o estado de prostração parecem se repetir em outras personagens que o artista pintou (Fig. 6 e 8). Aos moldes expressionistas, a simplificação de suas linhas é o que reforça o olhar para os gestos e para a exposição do interior. O artista tem o domínio do figurativo, mas seu trabalho tem como essência, a exteriorização de sentimentos.

Fig. 8 – Adrienne (Mulher com Franja), Amedeo Modigliani, 1917, óleo sobre linho, 55.3 x 38.1 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 9 – Nu sobre Almofada Azul, Amedeo Modigliani, 1917, óleo sobre linho, 65.4 x 100.9 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Para mim, portanto, o domínio da Arte se separava cada vez mais do domínio da natureza, até o dia em que vim a sentir cada um desses domínios como totalmente independentes. (KANDINSKY, 1991, p.94)

Considerações Finais

O sublime há de ser sempre grande; o belo pode ser também pequeno; o sublime há de ser sempre simples; o belo pode estar engalanado. Uma grande altura é tão sublime como uma profundidade, mas esta é acompanhada duma sensação de estremecimento e aquela de uma de assombro (…) (KANT, 1942, p.9)

Para Kant (1724-1804), a obra bela está associada ao deleite, promove os sentimentos de tranqüilidade, enternece; a obra sublime, por sua vez, incomoda, assombra e é inquietante. E o Expressionismo condiz com a sublimidade, pelo impacto que causou na apresentação de suas formas; pelo assombro da intensa demonstração de emoções. Também fica por conta da sublimidade seu feitio; o uso de cores vibrantes; as distorções; e a fuga da realidade, características que estiveram entre os maiores atributos do movimento.

Nos traços expressionistas foram expostos mais que a visão interior do artista, mas, sobretudo as aflições de um apocalíptico período que se viu diante dos horrores de duas grandes guerras mundiais. O movimento permeou o campo da Música, da Dança, do Cinema e da Fotografia e passou também pela Literatura, aos moldes da poesia que inicia esse texto. Nos anos 30, o radicalismo nazista pôs fim ao Expressionismo, na Alemanha, mas sua influência é inegável aos artistas e aos movimentos que se seguiram após a segunda metade do século XX.

Fig. 10 – Salão de Dança Bellevue, Ernst Ludwig Kirchner, 1909/1910, óleo sobre tela, 56 x 90 cm. National Gallery of Art, Washington. Ruth e Jacob Kainen Coleção, Presente em Homenagem do 50° Aniversário da National Gallery of Art. Fig. 11 – Cães Siberianos na Neve, Franz Marc, 1909/1910, óleo sobre tela, 80,5 x 114 cm. National Gallery of Art, Washington. Presente de Mr. e Mrs. Stephen M. Kellen.

Das impressões, a que fica é que a Arte deve desempenhar seu próprio papel, descomprometida, livre da forma. A única responsabilidade do artista é com seu interior; a ele cabe deixar que as emoções aflorem na forma que mais lhe agrade, para que a Arte faça sua História. E fica um texto para reflexão,

Longe da realidade, (…) a Arte revela a própria perfeição, e a turba boquiaberta, que observa a eclosão da maravilhosa rosa de pétalas inumeráveis, admite ser sua própria que lhe narram e ser seu espírito que então se exprime por uma nova forma! (WILDE, 1994, p.54)

1 Vídeo sobre a Arquitetura Expressionista:
www.youtube.com/watch?v=FO3ToFMGQns

2 Vídeo sobre o Pavilhão de Cristal de 1914:
www.youtube.com/watch?v=1VeNxaHivHQ

3 Vídeo sobre a Torre Einstein de Valter Gropius:
www.youtube.com/watch?v=nZsbmkGAZ_0

4 Museu Marc Chagall – website oficial:
en.musees-nationaux-alpesmaritimes.fr/chagall

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Referências:

  1. BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.
  2. CHILVERS, Ian; ZACZEK, Iain; WELTON, Jude; BUGLER, Caroline; MACK, Lorrie. História Ilustrada da Arte. São Paulo: Publifolha, 2014.
  3. FARTHING, Stephen. Tudo Sobre a Arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.
  4. GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.
  5. GRIMM, Reinhold; HUNT, Irmgard. German 20th Century Poetry. New York: the Continuum International Publishing Group Inc., 2001.
  6. HARDMAN, Francisco Foot. A Vingança da Hileia, Euclides da Cunha, a Amazônia e a Literatura Moderna. São Paulo: Editora UNESP, 2009.
  7. HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
  8. KANDINSKY, Wassily. Olhar sobre o Passado. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1991.
  9. KANT, Immanuel. O Belo e o Sublime. Pôrto:Livraria Educação Nacional Ltda. 1942.
  10. PROENÇA, Graça. Descobrindo a História da Arte. São Paulo: Editora Ática, 2005.
  11. WILDE, Oscar. A Decadência da Mentira. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda, 1994.

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As figuras:

Fig. 1 – Torre Einstein, Erich Mendelsohn, 1924. Foto: Kate Peeples Brown.

Fig. 2 – Jovem Sentado, Wilhelm Lehmbruck, 1917, composto de gesso colorido, 103.2 x 76.2 x 115.5 cm. National Gallery of Art, Washington. Fundo Andrew W. Mellon.

Fig. 3 – Mulher em Pé, Wilhelm Lehmbruck, 1910, bronze, 191.2 x 54 x 39.9 cm. National Gallery of Art, Washington. Fundo Ailsa Mellon Bruce.

Fig. 4 – Edvard Munch: O Grito, 1910, Têmpera e óleo sobre papel cartão, 83,5 x 66 cm. Munch Museum, Oslo. Photo © Munch Museum.

Fig. 5 – Edvard Munch: Madonna, 1895/1902, Litografia, 605 x 442–447 mm. Munch Museum, Oslo. Photo © Munch Museum.

Fig. 6 – Mulher Cigana com Bebê, Amedeo Modigliani, 1919, óleo sobre tela, 115.9 x 73 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Fig. 7 – Madamme Kisling, Amedeo Modigliani, 1917, óleo sobre tela, 46,2 x 33,2 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Fig. 8 – Adrienne (Mulher com Franja), Amedeo Modigliani, 1917, óleo sobre linho, 55.3 x 38.1 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Fig. 9 – Nu sobre Almofada Azul, Amedeo Modigliani, 1917, óleo sobre linho, 65.4 x 100.9 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Fig. 10 – Salão de Dança Bellevue, Ernst Ludwig Kirchner, 1909/1910, óleo sobre tela, 56 x 90 cm. National Gallery of Art, Washington. Ruth e Jacob Kainen Coleção, Presente em Homenagem do 50° Aniversário da National Gallery of Art.

Fig. 11 – Cães Siberianos na Neve, Franz Marc, 1909/1910, óleo sobre tela, 80,5 x 114 cm. National Gallery of Art, Washington. Presente de Mr. e Mrs. Stephen M. Kellen.

Fig. 1 – Torre Einstein, Erich Mendelsohn, 1924. Foto: Kate Peeples Brown. Fig. 2 – Jovem Sentado, Wilhelm Lehmbruck, 1917, composto de gesso colorido, 103.2 x 76.2 x 115.5 cm. National Gallery of Art, Washington. Fundo Andrew W. Mellon. Fig. 3 – Mulher em Pé, Wilhelm Lehmbruck, 1910, bronze, 191.2 x 54 x 39.9 cm. National Gallery of Art, Washington. Fundo Ailsa Mellon Bruce. Fig. 4 – Edvard Munch: O Grito, 1910, Têmpera e óleo sobre papel cartão, 83,5 x 66 cm. Munch Museum, Oslo. Photo © Munch Museum. Fig. 5 – Edvard Munch: Madonna, 1895/1902, Litografia, 605 x 442–447 mm. Munch Museum, Oslo. Photo © Munch Museum. Fig. 6 – Mulher Cigana com Bebê, Amedeo Modigliani, 1919, óleo sobre tela, 115.9 x 73 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 7 – Madamme Kisling, Amedeo Modigliani, 1917, óleo sobre tela, 46,2 x 33,2 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 8 – Adrienne (Mulher com Franja), Amedeo Modigliani, 1917, óleo sobre linho, 55.3 x 38.1 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 9 – Nu sobre Almofada Azul, Amedeo Modigliani, 1917, óleo sobre linho, 65.4 x 100.9 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 10 – Salão de Dança Bellevue, Ernst Ludwig Kirchner, 1909/1910, óleo sobre tela, 56 x 90 cm. National Gallery of Art, Washington. Ruth e Jacob Kainen Coleção, Presente em Homenagem do 50° Aniversário da National Gallery of Art. Fig. 11 – Cães Siberianos na Neve, Franz Marc, 1909/1910, óleo sobre tela, 80,5 x 114 cm. National Gallery of Art, Washington. Presente de Mr. e Mrs. Stephen M. Kellen.

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Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…
(Alphonsus de Guimaraens apud MOISÉS, 2000, pp.331-332)

Ismália é um dos mais belos poemas de Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), o grande poeta do Simbolismo brasileiro. O texto envolve emoções e se aproxima dos sentidos. As imagens são oníricas, a morte é o tema e a linguagem, muito próxima da música, é fluida, repleta de aliterações. Na Literatura, o Simbolismo surgiu no final do século XIX, na França, inspirado nos ideais do Romantismo; opôs-se ao Realismo e ao Naturalismo e trouxe à tona os estados de alma. Entre os nomes mais relevantes, estão os poetas franceses Stéphane Mallarmé (1841-1898); e também Charles Baudelaire (1821-1867) que, embora não estivesse mais vivo quando o Simbolismo se consolidou na França, foi situado como pré-simbolista e o mais importante do movimento.

Assim foi na Literatura, assim foi na Arte. O estilo permeou as manifestações artísticas, entre 1880 e 1910, trazendo mais encantos e Histórias para a Arte. Nesse campo, a imaginação do artífice percorreu além do visível, sondou o subconsciente e o mundo dos sonhos, tema da obra a Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud (1856-1939), o criador da Psicanálise. O livro, publicado em 1899, despertou interesse em toda a Europa e ecoou nas Artes.

A Art Nouveau, que trazia mais beleza à Arquitetura e ao Design, de certa forma também serviu de inspiração aos simbolistas, embora eles se opusessem à prosperidade e à abundância que o novo estilo propunha.

Fig. 1 – Luminária de mesa Ninféia, Louis Comfort Tiffany, 1904, cristal e bronze, 67,31 x 48,26 cm. Virginia Museum of Fine Arts, Richmond. Presente de Sydney e Frances Lewis. Photo: Katherine Wetzel. © Virginia Museum of Fine Arts. Fig. 2 – Luminária de mesa Begônia, Louis Comfort Tiffany, 1900, cristal e bronze, 41,9 x 33 cm. Virginia Museum of Fine Arts, Richmond. Presente de Sydney e Frances Lewis. Photo: Katherine Wetzel. © Virginia Museum of Fine Arts.

Arquitetura e Design

Art Nouveau

Queremos viajar sem vapor e sem vela!
Fazei para amainar o tédio das prisões
Por nossa alma passar, tesos como uma tela,
Horizontes de amor, nossas recordações.
(BAUDELAIRE, p.151, 2006)

A justeza das palavras acima podem acertadamente deslindar um coração de artista. É bem possível que o gênio criativo navegue por águas turbulentas, desprendido, solto, cruzando desconhecidas direções. E a alma soberana do artífice enveredou por esses intranqüilos percursos, trazendo mais encantos para a Arquitetura do final do século XIX. Viu-se, na época, uma ruptura com o passado e um despertar para o novo. A tendência que trazia novos ares se aproximava do mundo dos sonhos e do encantamento. A França via nascer a Art Nouveau, estilo que acabou seguindo para outros países da Europa, vigorando entre 1880 e 1920. O exotismo Nouveau modernizou o Design e promoveu um florescimento das artes decorativas e da Arquitetura. O estilo acompanhou a modernidade, a industrialização e o crescimento da burguesia, fazendo uso de materiais como o ferro, o vidro e o cimento. Quanto à forma, serviam como fontes de inspiração, a natureza, as flores e os animais.

Diferente de tudo o que até então se viu, o novo estilo, em grande parte, teve suas origens nas Artes Gráficas. Mas há que se lembrar ainda da influência da Arte e dos objetos japoneses; e das linhas do movimento inglês Arts and Crafts de William Morris 1 (1834-1896).

Um marco para a Art Nouveau foi a abertura, em 1895, da loja Maison de l’Art Nouveau (Casa da Arte Nova), do colecionador e comerciante de Arte, Siegfried Bing (1838-1905). O projeto da casa de Bing foi apresentado na Exposição Universal de 1889. A loja teve seu interior projetado pelo arquiteto Henry Van de Velde (1863-1957). Em meio aos refinados ambientes, de famosos designers, havia pinturas e cartazes de importantes artistas como Toulouse-Lautrec (1864-1901), Paul Signac (1863-1935) e Edvard Munch (1863-1944); tecidos desenhados por William Morris; além de objetos de Louis Comfort Tiffany (1848-1933), artista e designer conhecido por seu trabalho com vitrais. Receberam o estilo Nouveau as entradas para as estações Place de La Bastille e Place de L’Etoile, desenhadas em 1899, pelo grande arquiteto da época, Hector Guimard (1867-1942).

Fig. 3 – Ambiente interno do Museu Hector Guimard, em Paris. Foto: Le Cercle Guimard. Fig. 4 – Interior e teto do Museu Hector Guimard, em Paris. Foto: Le Cercle Guimard. Fig. 5 – Fachada do Museu Hector Guimard, em Paris. Foto: Le Cercle Guimard.

O modelo Nouveau está nas luminárias de mesa de Louis Comfort Tiffany (Figuras 1 e 2). Representando uma planta, a originalidade da luminária (Fig. 1) de Tiffany utiliza o bronze para a raiz e para o caule. As pétalas das flores e as folhas são os coloridos cristais pendendo. Mais que simplesmente decorativo, o objeto é uma delicadeza da Arte, lembrando as cores e o estilo dos desenhos de Morris, a Arte japonesa. A planta é a ninféia aquática, presente nos jardins e nas telas do pintor impressionista Claude Monet (1840-1926).

A grande contribuição Nouveau ficou por conta do mobiliário. Na figura 3, as linhas do estilo parecem evidenciar a natureza em meio ao ambiente, nos objetos de uso do dia a dia. As linhas curvas na ornamentação dos móveis são raminhos e folhas brotando, ou flores desabrochando. A natureza se integra ao ambiente, ou o ambiente se integra à natureza, por meio das formas irregulares e sinuosas dos móveis, nos ambientes do Museu Hector Guimard. A impressão final é a de que tudo se move lentamente.

Na parte externa do museu (Fig. 4), os detalhes do teto, da sacada ou do corrimão que conduz à escadaria são arredondados, irregulares, sinuosos, como são os elementos da própria natureza em crescimento. É como se a floresta vertesse para fora seus galhos. Na fachada do museu (Fig. 5), as janelas e sacadas parecem ser extensões do ambiente interno. As linhas curvas debruçam entristecidas sobre a calçada fria.

Fig. 6 – Fachada da Casa Batlló, Francis Benavides. Fig. 7 – Fachada da Casa Batlló, Francis Benavides.

O estilo Nouveau ainda perambulou por Barcelona, na Espanha, deixando surreais e inesquecíveis marcas nas notáveis obras de Antoni Gaudí (1852-1926). Entre as diversas fases de amadurecimento do trabalho do arquiteto catalão, foi nítida a influência do revivalismo gótico, com inspiração em Eugène Viollet-le-Duc (1814-1879). O arquiteto ainda passou pela fase do mecenato do empresário Eusebi Guell (1846-1918). Gaudí estava entre os artistas que o rico e culto empresário acolheu e de quem se tornou mecenas e amigo íntimo. Gaudí chegou a receber várias encomendas de Guell e, nessa fase, entrou em contato com a Art Nouveau, que influenciou seu trabalho, embora sua trajetória tenha adquirido feição única.

Entre as mais conhecidas obras de Gaudí estão o templo católico a Sagrada Família 2, em estilo gótico, iniciado em 1882 e ainda não terminado; o Parque Guell 3, inaugurado em 1922, cuja idéia principal era ser um residencial de luxo, mas acabou por se tornar um parque; a casa Milá, conhecida como La Pedrera, construída entre 1905 e 1907; e a casa Batlló 4 (Figuras 6 e 7) construída entre 1904 e 1906.

Considerada a obra prima de Gaudí, as formas orgânicas e sinuosas de janelas e de portas da casa Batlló em muito lembram as do Castelo Rá-Tim-Bum, da série infantil brasileira. De forma mais acentuada que a fachada do Museu Guimard, as linhas de Gaudí parecem adquirir vida e se mover lentamente, como a se espreguiçar ao calor do sol. De certa maneira, em sua solidez, as paredes são tenras e não estão paradas. Os coloridos vitrais e mosaicos condizem com uma encantada floresta, coberta por um telhado repleto de escamas, não menos colorido que as paredes. A surreal e mágica construção parece irromper grandiosa de dentro de uma árvore, abrindo-lhe fendas, afastando seus galhos e emergindo em vida e em cores.

Fig. 8 – Thais, Emmanuel Villanis, 1890, bronze, 55 cm. Hickmet Fine Arts ©. Fig. 9 – Lucrécia, Emmanuel Villanis, 1890, bronze, 53 cm. Hickmet Fine Arts ©.

Escultura

Nada em Arte é feito apenas através da vontade,
tudo é feito pela submissão dócil ao subconsciente.
(Odilon Redon apud BUGLER, 2014, p.299)

As linhas da Art Nouveau se tornaram fonte de inspiração para os escultores. Nesse campo, as linhas ondulantes adquiriram certa sensualidade e movimento. A ornamentação orgânica percorreu os ambientes levando leveza e um sentido decorativo.

Émile Antoine Bourdelle 5 (1861-1929) se destacou como o mais notável da Belle Époque e o precursor da Escultura do século XX. Em seus traços são reconhecíveis as linhas do Romantismo e as formas e os movimentos da água.

Emmanuel Villanis (1858-1914), escultor francês, foi mais conhecido por seus objetos em pequena escala, em bronze em que misturavam uma espécie de Neoclassicismo às elegantes linhas da Art Nouveau. Em seus temas eram freqüentes a Mitologia (Figuras 8 e 9) e os elementos florais. Eram comuns os bustos, as figuras femininas, os nus e uma tendência para a sensualidade e para o erotismo. As esculturas de Thais e de Lucrécia correspondem a duas mulheres da Antiguidade romana. Em ambas, a reconhecível beleza das mulheres se completa com o olhar sedutor. Villanis esteve entre os mais produtivos escultores de sua época e seus trabalhos foram exportados para vários países.

Fig. 10 – Descanso, Pierre Puvis de Chavannes, 1863, óleo sobre tela, 108,5 x 148 cm. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção. Fig. 11 – Trabalho, Pierre Puvis de Chavannes, 1863, óleo sobre tela, 108,5 x 148 cm. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção.

Pintura

A Arte é em essência idealista: os sonhos mais
profundos têm a interpretação mais pessoal.
(Fernand Khnopff apud BUGLER, 2014, p.309)

As palavras são do artista Fernand Khnopff (1858-1921) e resumem o principal atributo do Simbolismo. As novas formas abstratas se aproximavam mais da realidade espiritual, contrariando a Arte representativa ou realista. Os temas passearam pelos mundos dos sonhos e das visões. Opondo-se ao Impressionismo, os simbolistas preferiam a sugestão de idéias, por meio de ícones. Na Pintura, foi dada relevância à forma, às cores, às linhas e, sobretudo à subjetividade. Khnopff liderou o movimento na Bélgica e foi admirado por vários artistas, entre os quais Edvard Munch (1863-1944) e Gustav Klimt (1862-1918).

A melancolia está presente na desolada paisagem da obra de Pierre Puvis de Chavannes (1824-1898), na figura 12. O homem de aspecto esmorecido e pesaroso está solitário, como se refletisse sobre algo. As cores da natureza são misturadas e discretas, contrastam com o protagonista da cena. Ao redor do filho, que um dia foi insolente, os porcos se alimentam, lembrando a conhecida parábola que simboliza a redenção. Assim como grandes artistas de sua época, Chavannes não se encaixou em apenas um movimento, passou pelo Impressionismo, pelo Pós-Impressionismo e pelo Simbolismo. O uso das cores moderadas, não puras, também é característica de duas de suas obras de 1863 (Figuras 10 e 11). Percebe-se uma referência ao período Clássico, na forma, na perspectiva e nas sombras.

Fig. 12 – O Filho Pródigo, Pierre Puvis de Chavannes, provavelmente de 1879, óleo sobre linho, 106,5 x 146,7 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

O contato com o Simbolismo francês, no Salão da Rosa-Cruz, em 1892, levou o artista suíço Ferdinand Hodler (1853-1918) a voltar seu estilo para um sentido metafísico. Os estados de alma estão presentes em sua obra Noite 6, que escandalizou a sociedade da época. Nela, a representação do sono se aproxima da idéia de morte. Há pessoas aparentemente adormecidas, nuas, em profundo sono, solitárias, abraçadas sugerindo certo erotismo. Uma delas é repentinamente acordada pela morte. Entre as pessoas, duas foram suas mulheres e o próprio artista se retratou na cena.

O erotismo também esteve em várias obras de Gustav Klimt (1862-1918) que chegou a ser acusado de pornografia. Seu estilo diversificado, entretanto reuniu elementos do Simbolismo, do Impressionismo e da Art Nouveau. Um casal unido em terno e intenso abraço é o tema do mais conhecido trabalho de Klimt, o Beijo, de 1907. No tecido que envolve o casal, é possível reconhecer as influências Nouveau e Bizantina, nas linhas geométricas e no motivo floral da estampa. Sob os dois há coloridos arbustos, flores e raminhos e as fitas douradas despencando sobre os pés da mulher, do lado direito da obra. As formas arredondadas dela contrastam com o talhe angular e retilíneo dele. Sob o manto dourado, os dois parecem estar nus e completamente envolvidos um com o outro. O fundo da cena é quase imperceptível ao olhar, uma vez que há um destaque para os protagonistas. A pintura fez parte da fase dourada da vida de Klimt que chegou a utilizar folhas de ouro em várias de suas telas desse período.

Fig. 13 – Edvard Munch: Vampiro II, 1895-1902, litografia, 380-387 x 550-560 mm. Munch Museum, Oslo. Photo © Munch Museum. Fig. 14 – Edvard Munch: Separação, 1896, óleo sobre tela, 96,5 x 127 cm. Munch Museum, Oslo. Photo © Munch Museum.

O artista norueguês, Edvard Munch, um dos precursores do Expressionismo assim como outros pintores de sua época, também transitou pelo Simbolismo. Em 1896, quando esteve em Paris, chegou a ter entre seu círculo de amigos, o poeta francês Stéphane Mallarmé. Muito da própria vida de Munch, repleta de tragédias, acabou por se revelar em suas obras em que eram comuns a melancolia e a tristeza. Entre as litografias que produziu depois de 1896, a obra Vampiro (Fig. 13) chegou a ser chamada de Amor e Dor pelo artista. Na imagem lúgubre, um homem está envolto nos braços de uma mulher que beija seu pescoço. Angustiado, ele parece se deixar levar pelo abraço e provavelmente pela morte.

Em Separação (Fig. 14), o protagonista também é um homem entristecido pela dor do término de um relacionamento. Essa e outras obras de Munch, como O Beijo de sua autoria e O Grito, fizeram parte de uma série intitulada O Friso da Vida, em inglês, The Freize of Life, cujos temas oscilavam entre o amor, a ansiedade, o ciúme, a infidelidade e a morte. Assim como Klimt e muitos da época, Munch era obcecado pela sexualidade feminina. Na cena da figura 14 estão presentes elementos da sexualidade, da lascívia e da traição. Solitário, o homem parece não conseguir se mover, tal é seu desânimo. A cor vermelha em sua mão direita, sobre o peito, simboliza o sangue vertendo do coração. Contrastando com sua imagem, a mulher se destaca na imagem e se apresenta formosa. Como se não o percebesse, ela caminha distante e fria, com os longos cabelos ao vento. O desenho de seus cabelos acompanha a linha sinuosa do vento que parece soprar. É possível reconhecer, na imagem, traços da Art Nouveau, nas linhas sinuosas, nos contornos simplificados e no uso das cores.

Entre os artistas que também passaram pela corrente simbolista ainda vale citar os nomes de Paul Gauguin (1848-1903), Gustave Moureau (1826-1898), Arnold Böcklin (1827-1901), Ferdinand Hodler (1853-1918), Odilon Redon (1940-1916) e Fernand Khnopff (1858-1921).

Fig. 15 – Pandora, Odilon Redon, 1910-1912, óleo sobre tela, 143,5 x 62,9 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 16 – São Sebastião, Odilon Redon, 1910-1912, óleo sobre tela, 144 x 62,5 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Considerações Finais

A Arte encontra em si mesma a perfeição. Não se
deve julgá-la por um modelo exterior. Ela é mais
um véu que um espelho. Possui flores e pássaros
desconhecidos em qualquer floresta. Inventa e
destrói mundos e, com um fio escarlate, pode tirar a
lua dos céus. (…) Para ela a Natureza não tem leis.
(WILDE, 1992, p.45)

Oscar Wilde (1854-1900) fez parte do movimento europeu chamado Esteticismo, com características muito próximas às do Simbolismo. Para o escritor inglês, o Belo seria um antídoto para a frieza da industrialização. Ele se opunha ao realismo e acreditava na Arte pela Arte. Suas palavras e seu pensamento ecoam ainda hoje. E pode ser que os caminhos da Arte atenuem a frieza e as asperezas do mundo real.

Ao engenheiro das formas e das cores é possível engendrar um mundo novo, arquitetar sonhos, erguer universos e vislumbrar cenas de que somente a imaginação e a Arte são capazes. A ele é possível conceber mundos surreais, tão belos como os de Gaudi; suscitar no espectador os mais intensos assombros, como nas Pinturas de Munch; ou ainda fomentar inefáveis sensações, como nas pinturas de Klimt.

Essa diversidade da qual se fala nas últimas décadas do século XIX levou elementos suficientes para que a Arte se permitisse falar por si só, sem as mãos da realidade, sem as distorções da vida. E os caminhos da Arte são muito próximos daqueles por onde a Poesia trilha. O criar é profundo, procede da alma em êxtase. E a Arte é o bálsamo da alma.

O objetivo da vida é o autodesenvolvimento.
Cumprir a própria natureza perfeitamente –
essa é a razão porque estamos aqui.
(WILDE, 1986, p.13)

1 Site oficial de William Morris Society:
www.morrissociety.org

² Vídeo da Sagrada Família de Gaudí:
www.youtube.com/watch?v=UrKSk4xFVLw

3 Vídeo do Parque Guell de Gaudí:
www.youtube.com/watch?v=HP_bOvoUr90&t=35s

4 Site oficial, Casa Batlló:
www.casabatllo.es

Vídeo com comentário:
www.youtube.com/watch?v=j31eZTrW0Ss

5 Émile Antoine Bourdelle – site do Museu Bourdelle:
www.bourdelle.paris.fr

6 Vídeo com comentário da Obra Noite de Ferdinand Hodler:
www.kunstmuseumbern.ch/en/see/collection/videos-higlights-collection/ferdinand-hodler-the-night-271.html

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Referências:

  1. BAUDELAIRE, Charles. Sobre a Modernidade. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2007.
  2. BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. São Paulo: Martin Claret, 2006.
  3. BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.
  4. CHILVERS, Ian; ZACZEK, Iain; WELTON, Jude; BUGLER, Caroline; MACK, Lorrie. História Ilustrada da Arte. São Paulo: Publifolha, 2014.
  5. FARTHING, Stephen. Tudo Sobre a Arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.
  6. GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.
  7. HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
  8. MOISÉS, Massaud. A Literatura Brasileira através dos Textos. São Paulo Ed.Cultrix, 2000.
  9. PROENÇA, Graça. Descobrindo a História da Arte. São Paulo: Editora Ática, 2005.
  10. VERLAINE, Paul. One Hundred and One Poems by Paul Verlaine. Chicago: The University of Chicago Press, 1999. Tradução de Norman R.Shapiro.
  11. VIG, Rosângela Araújo Pires. DA ARTE COMO COMUNICAÇÃO À COMUNICAÇÃO COMO ARTE. Comunicação, Cultura e Mídia, Uniso, Sorocaba: 2010. Disponível em:
    comunicacaoecultura.uniso.br/prod_discente/2010/pdf/Rosangela_Vig.pdf
  12. WILDE, Oscar. A Decadência da Mentira e outros ensaios. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1992.
  13. WILDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray. São Paulo: Editora Scipione, 1986.

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As figuras:

Fig. 1 – Luminária de mesa Ninféia, Louis Comfort Tiffany, 1904, cristal e bronze, 67,31 x 48,26 cm. Virginia Museum of Fine Arts, Richmond. Presente de Sydney e Frances Lewis. Photo: Katherine Wetzel. © Virginia Museum of Fine Arts.

Fig. 2 – Luminária de mesa Begônia, Louis Comfort Tiffany, 1900, cristal e bronze, 41,9 x 33 cm. Virginia Museum of Fine Arts, Richmond. Presente de Sydney e Frances Lewis. Photo: Katherine Wetzel. © Virginia Museum of Fine Arts.

Fig. 3 – Ambiente interno do Museu Hector Guimard, em Paris. Foto: Le Cercle Guimard.

Fig. 4 – Interior e teto do Museu Hector Guimard, em Paris. Foto: Le Cercle Guimard.

Fig. 5 – Fachada do Museu Hector Guimard, em Paris. Foto: Le Cercle Guimard.

Fig. 6 – Fachada da Casa Batlló, Francis Benavides.

Fig. 7 – Fachada da Casa Batlló, Francis Benavides.

Fig. 8 – Thais, Emmanuel Villanis, 1890, bronze, 55 cm. Hickmet Fine Arts ©.

Fig. 9 – Lucrécia, Emmanuel Villanis, 1890, bronze, 53 cm. Hickmet Fine Arts ©.

Fig. 10 – Descanso, Pierre Puvis de Chavannes, 1863, óleo sobre tela, 108,5 x 148 cm. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção.

Fig. 11 – Trabalho, Pierre Puvis de Chavannes, 1863, óleo sobre tela, 108,5 x 148 cm. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção.

Fig. 12 – O Filho Pródigo, Pierre Puvis de Chavannes, provavelmente de 1879, óleo sobre linho, 106,5 x 146,7 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Fig. 13 – Edvard Munch: Vampiro II, 1895-1902, litografia, 380-387 x 550-560 mm. Munch Museum, Oslo. Photo © Munch Museum.

Fig. 14 – Edvard Munch: Separação, 1896, óleo sobre tela, 96,5 x 127 cm. Munch Museum, Oslo. Photo © Munch Museum.

Fig. 15 – Pandora, Odilon Redon, 1910-1912, óleo sobre tela, 143,5 x 62,9 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Fig. 16 – São Sebastião, Odilon Redon, 1910-1912, óleo sobre tela, 144 x 62,5 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Fig. 1 – Luminária de mesa Ninféia, Louis Comfort Tiffany, 1904, cristal e bronze, 67,31 x 48,26 cm. Virginia Museum of Fine Arts, Richmond. Presente de Sydney e Frances Lewis. Photo: Katherine Wetzel. © Virginia Museum of Fine Arts. Fig. 2 – Luminária de mesa Begônia, Louis Comfort Tiffany, 1900, cristal e bronze, 41,9 x 33 cm. Virginia Museum of Fine Arts, Richmond. Presente de Sydney e Frances Lewis. Photo: Katherine Wetzel. © Virginia Museum of Fine Arts. Fig. 3 – Ambiente interno do Museu Hector Guimard, em Paris. Foto: Le Cercle Guimard. Fig. 4 – Interior e teto do Museu Hector Guimard, em Paris. Foto: Le Cercle Guimard. Fig. 5 – Fachada do Museu Hector Guimard, em Paris. Foto: Le Cercle Guimard. Fig. 6 – Fachada da Casa Batlló, Francis Benavides. Fig. 7 – Fachada da Casa Batlló, Francis Benavides. Fig. 8 – Thais, Emmanuel Villanis, 1890, bronze, 55 cm. Hickmet Fine Arts ©. Fig. 9 – Lucrécia, Emmanuel Villanis, 1890, bronze, 53 cm. Hickmet Fine Arts ©. Fig. 10 – Descanso, Pierre Puvis de Chavannes, 1863, óleo sobre tela, 108,5 x 148 cm. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção. Fig. 11 – Trabalho, Pierre Puvis de Chavannes, 1863, óleo sobre tela, 108,5 x 148 cm. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção. Fig. 12 – O Filho Pródigo, Pierre Puvis de Chavannes, provavelmente de 1879, óleo sobre linho, 106,5 x 146,7 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 13 – Edvard Munch: Vampiro II, 1895-1902, litografia, 380-387 x 550-560 mm. Munch Museum, Oslo. Photo © Munch Museum. Fig. 14 – Edvard Munch: Separação, 1896, óleo sobre tela, 96,5 x 127 cm. Munch Museum, Oslo. Photo © Munch Museum. Fig. 15 – Pandora, Odilon Redon, 1910-1912, óleo sobre tela, 143,5 x 62,9 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 16 – São Sebastião, Odilon Redon, 1910-1912, óleo sobre tela, 144 x 62,5 cm. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

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Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Para o perfeito flâneur, para o observador apaixonado, é um imenso júbilo fixar residência no numeroso, no ondulante, no movimento, no fugidio e no infinito. Estar fora de casa e, contudo sentir-se em casa onde quer que se encontre ver o mundo, estar no centro do mundo e permanecer oculto ao mundo, eis alguns dos pequenos prazeres desses espíritos independentes, apaixonados, imparciais, que a linguagem não pode definir senão toscamente. O observador é um príncipe que frui por toda parte do fato de estar incógnito. (BAUDELAIRE, 2007, p.21)

Charles Baudelaire (1821-1867) foi crítico da Arte francesa do século XIX, precursor do simbolismo e fundador da tradição moderna em poesia. O teórico era poeta boêmio e sua poesia foi o resultado de um espírito sensível sobre a metrópole. Sua poesia é repleta de elementos do cotidiano sem a subjetividade exagerada, pela qual o escritor tinha aversão. Para ele, o artista é como um flâneur, um observador do mundo. É aquele que passeia pela multidão, que observa o burburinho das ruas e o arrastar dos passos. De percepção aguçada, ele sente a vida pulsando em seu frenesi. Em meio à turba, o artista é apenas um desconhecido solitário, mas seu olhar é intenso, enfeitiçado. Como um caminhante incógnito, tem a energia de uma criança deslumbrada, degusta as imagens, desfruta os momentos no aglomerado.

E nada poderia ter sido mais atraente a esse explorador do que o elegante cenário da capital francesa, entre o final do século XIX e o início do século XX. Desse contexto, fez parte a Exposição Universal de 1889, em Paris, uma homenagem ao centenário da Revolução Francesa. O evento contou com a inauguração da Torre Eiffel, a 31 de março do mesmo ano. Também fizeram parte da exposição mostras do Extremo Oriente, do Oriente Médio, do Norte da África, da África Central e da Polinésia. Foram apresentados templos, mesquitas, casas chinesas e danças javanesas. Projetada por Gustave Eiffel (1832-1923), a Torre Eiffel, ao centro do evento, fazia parte do setor dedicado a Paris.

Fig. 1 – Torre Eiffel, Francis Benavides, 2016. Fig. 2 – Torre Eiffel, Francis Benavides, 2016.

Durante o período da Exposição Universal, entre 6 maio a 31 de outubro, estiveram presentes em torno de 50 milhões de visitantes, entre os quais, várias celebridades da época como escritores; os inventores Nikola Tesla (1856-1943) e Thomas Edison (1847-1931); o príncipe de Gales com sua esposa; e artistas como Edvard Munch (1863-1944), Paul Gauguin (1848-1903), Vincent Van Gogh (1853-1890), Rosa Bonheur (1822-1899) e James McNeill Whistler (1834-1903).

Os anos finais do século XIX ficaram marcados por uma Cultura cosmopolita. A Belle Èpoque, como o período foi chamado, caracterizou-se pelo florescimento da beleza da Arte, da Música e do Teatro. Na capital francesa, os ricos desfrutavam da vida cultural, dos restaurantes, das viagens e da moda, embora esses prazeres não fossem acessíveis a todos e o luxo, muitas vezes, era visto como decadente.

A agitada capital da França do final do século XIX abria o famoso cabaré Moulin Rouge em 1889, ano em que também foi lançada a revista La Revue Blanche, sobre Arte, Literatura e política, que estimulou a Arte de vanguarda. E a França ainda se tornava a pioneira na produção de automóveis, fabricando 30 mil carros, mais da metade da produção mundial, em 1903.

Em sua efervescência, a Paris da época era pura inspiração para o explorador solitário e apaixonado de que nos fala Baudelaire. Ao talento não seria difícil transformar em Arte, tantas imagens da vida em ebulição. Mas diferentemente do que ocorreu em outros períodos, os artistas do Pós Impressionismo não seguiram um único modelo estético. Tendo o legado dos impressionistas como ponto de partida, a Arte agora se ramificava. Foram exploradas cenas do cotidiano; passaram a ser investigadas novas técnicas; a cor passou a ser utilizada com mais ênfase; houve uma emancipação da forma; mas os artistas exploraram, sobretudo, a liberdade. O resultado foi um movimento vanguardista que iniciou em 1885 e permaneceu até 1907, com o surgimento do Cubismo.

Fig. 3 – Torre Eiffel, Conceição Matos, óleo sobre tela, 50 x 40 cm, 2011.

Arquitetura

Quanto mais uma Arte é abstrata e ideal, melhor nos revela o caráter de sua época. Se quisermos compreender uma nação pela sua Arte, estudemos sua Arquitetura e sua Música. (WILDE, 1994, p.55)

As últimas décadas do século XIX deixaram para trás o revivalismo e o ecletismo, as grandes marcas da estética Romântica, na Arquitetura. Embora não se tenha evidenciado o Pós Impressionismo como um estilo arquitetônico, foi percebido um resgate à praticidade, à funcionalidade e à simplicidade.

O uso do ferro nas estruturas das construções foi uma particularidade da época, em decorrência da industrialização que ocorria na Europa. Muitas famílias migravam para os grandes centros industriais, a procura de emprego, levando esses lugares a um grande crescimento. Como havia a necessidade de se abrigar essas pessoas, a solução rápida seria a construção de prédios. Com isso, os terrenos passaram a ter um alto valor, o que de certa forma, acabava por incentivar a verticalização da moradia. O uso do ferro na estrutura possibilitou a edificação de prédios maiores, mais robustos e ousados, com vãos mais espaçosos e de maior rapidez na execução. Soma-se a isso o fato do ferro ser mais resistente ao fogo. E o material ainda foi utilizado na construção de pontes, ferrovias, indústrias e estações. Mas o ferro também podia ser moldado, o que possibilitou o uso desse material como elemento decorativo, na Arquitetura, dando origem à Art Nouveau, que merece um capítulo à parte.

Construída entre 1838 e 1850, em Paris, a Biblioteca Sainte Geneviéve, do arquiteto e engenheiro francês Henri Labrouste (1801-1875), foi o primeiro edifício a utilizar o ferro na estrutura e como elemento decorativo. Em Londres, o Palácio de Cristal, de Joseph Paxton (1803-1865), edificado entre 1850 e 1851, recebeu ferro fundido e vidro em sua estrutura.

A Torre Eiffel (Figuras 1, 2 e 3), construção mais alta da cidade francesa, foi erguida entre 1887 e 1889, em estilo Nouveau e se tornou não somente o símbolo da França, mas também um ícone da Arquitetura moderna, com sua estrutura em treliça, ornamentada com ferro aparente. Durante muitos anos foi considerada a construção mais alta do mundo. Em seu interior há restaurantes, lojas, cinema e ainda é possível ao visitante, desfrutar das vistas panorâmicas da cidade de Paris, ou ainda conhecer o apartamento particular de Gustave Eiffel, localizado no topo da construção.

Fig. 4 – Fatata te Miti (Perto do mar), Paul Gauguin, 1892. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 5 – Te Pape Nave Nave (Águas Deliciosas), Paul Gauguin, 1898. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon.

Escultura

Nenhum grande artista vê as coisas como elas são realmente. E se isso lhe acontecesse, não seria mais um artista. (WILDE, 1994, p.55)

Para Oscar Wilde (1854-1900), escritor e poeta irlandês, a Arte é uma interpretação da vida, não é a vida em si; é o fruto do olhar apurado do artista e de suas impressões. Talvez seja esse o maior atributo do Belo de cada época. E a grande propensão estética do período em questão ficou por conta dessa leitura do artífice, sobre a vida em frenesi. A liberdade estética ampliou esse olhar e deixou que a Escultura fluísse um afinado equilíbrio com o ambiente, a grande tendência do período.

Aristide Maillol 1 (1861-1944) foi o grande destaque nesse campo. Sua preocupação com a forma foi fruto da admiração pela Escultura grega. Influenciado a princípio, pelo Impressionista Rodin (1840-1917), o artista depois, seguiu seu próprio rumo. Fica clara também a inspiração do escultor, em seus contemporâneos Paul Gauguin (1848-1903) e Maurice Denis (1870-1943). Maillol chegou a transitar pela Pintura, passou pela tapeçaria e pela gravura em madeira, mas aos 40 anos dedicou-se totalmente à Escultura. Ambroise Vollard (1866-1939), conhecido marchand da época, foi o responsável pela primeira mostra do escultor, em 1902.

Sem a carga emocional do Impressionismo, as figuras femininas nuas de Maillol são arredondadas, estáveis, com base em modelos vivos; estão ora solitárias, ora em grupos, interagindo, de forma natural. A preocupação do escultor com a forma e com a simetria fica nítida na obra Noite, em exibição no Metropolitan Museum, em Nova York. Na imagem, feita em bronze, percebe-se a busca acentuada pelo figurativo, resquício da Antiguidade clássica. A escultura pode lembrar uma das pinturas femininas de Gauguin, dada a espontaneidade de sua posição. Sentada, com o rosto escondido entre os braços, sobre as pernas dobradas, a mulher se apresenta de forma natural, despretensiosa. Há equilíbrio em suas emoções, uma vez que o escultor fazia questão de um distanciamento do psicológico. A esposa de Maillol foi modelo para essa e para várias de suas obras.

Fig. 6 – O Prado, Alfred Sisley, 1875. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção.

Pintura

Toda criação artística é absolutamente subjetiva. (…) Creio mesmo que, quanto mais uma criação nos parece objetiva, tanto mais ela é na realidade, subjetiva. (WILDE, 1994, p.147)

Essa subjetividade de que nos fala Wilde, está relacionada à forma como o artista vê as coisas que o cercam, seu entusiasmo e suas emoções. Flui pela obra sua interpretação particular de mundo e seu encantamento pela natureza. Para Wilde, uma vez que é subjetiva, a Arte é descomprometida da verdade, distancia-se, pois dela, uma vez que o artista assimila as coisas e atribui a elas seus valores e suas impressões.

Tal raciocínio não deixa de ter uma ligação com o pensamento de Platão 2, sobre o mundo das idéias. Para o filósofo da Antiguidade, existe uma realidade permanente, para cada pessoa; existe uma forma diferente de se compreender as coisas, para cada um. No campo da Arte, ainda que uma obra tenha relação com os códigos da realidade, ela será mera imitação da idéia original do artífice ou da realidade em si. Nela estão impressos o entendimento e a linguagem daquele que a criou.

Tais considerações refletem bem o espírito da Pintura do período. A rejeição ao figurativo, inaugurada com o Impressionismo, estendeu-se por aqui e foi ampliada para formas que começavam a se distanciar da realidade. A incumbência do pintor seria interpretar o mundo, deixar que suas emoções fluíssem de forma livre e descomprometida. E o gênio criador dispunha de vasto campo de estímulos, trazido pela efervescência parisiense e pela diversidade de Culturas da Exposição Universal. Os traços impressionistas se tornaram mais largos, ampliaram na forma, na cor e na luz. A Arte passava por uma grande transformação, que culminaria na estética conduzida ao longo do século XX.

Fig. 8 – Casas na Provença, o Vale Riaux perto de L’Estaque, Paul Cézanne, 1880. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon. Fig. 9 – Farol em Honfleur, Georges Seurat, 1886. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon.

O que se viu no período foi um grupo heterogêneo, de diversificados estilos. Aos artistas, era comum a relevância do lado emocional; a despreocupação com a forma; a aplicação da luz às cenas do cotidiano; o uso da técnica do Fauvismo, ou seja, a intensificação da cor.

E foi no quesito cor que se destacou Paul Gauguin (1848-1903). O artista nasceu na França, mas passou sua infância no Peru, país de origem de sua mãe. Chegou a viver na Dinamarca, mas voltou para a França, onde conheceu o impressionista Camille Pissarro, que muito influenciou sua Arte. Chegou a participar de exposições em 1876, mas somente em 1885, passou a se dedicar totalmente à Pintura. A partir de 1891, até sua morte, Gauguin viveu na Polinésia Francesa (Taiti e Ilhas Marquesas).

Em sua obra há um misto de exotismo, de poesia e de cores, oriundos do cotidiano dos lugares por onde passou os últimos anos de sua vida. Esse gosto pelo incomum fica nítido na figura 4. Na imagem, duas mulheres taitianas estão de costas, saltando para o mar. Na parte inferior da imagem está a roupa de uma delas; a outra está retirando seu pareô. Com gestos lentos e sensuais, elas parecem não se importar com o pescador mais à frente. Das particularidades do estilo do artista está a simplificação da forma e o uso de superfícies planas de cores, com linhas delimitadas em preto, características das gravuras japonesas. O uso das cores intensas e fortes acentua a luz e a exuberância tropical do lugar por onde passou Gauguin. Sua obra deixa clara ruptura com o estilo realista e se volta para sua imaginação e para sua emoção.

O uso das cores puras também foi tendência na obra de Paul Cézanne (1839-1906). O artista teve contato com os impressionistas, com quem chegou a expor, mas estava descontente com seu próprio estilo e entendeu que deveria interpretar o que via e não meramente registrar cenas. A partir de 1880, Cézanne passou a pintar paisagens sobre a montanha provençal de Sainte-Victoire. Na figura 8, é possível perceber que Cézanne manteve os efeitos da luz natural, já utilizados pelos impressionistas e o uso das cores puras. Quanto à forma, os elementos naturais da cena, a casa, as pedras e a vegetação estão representadas por cones e cilindros, principais aspecto de sua pintura, característica que o tornou o precursor da Arte Moderna e uma ponte para o Cubismo.

Fig. 10 – Um Canto no Moulin de La Galette, Henri de Toulouse-Lautrec, 1892. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 11 – Contradança no Moulin Rouge, Henri de Toulouse-Lautrec, 1892. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Georges-Pierre Seurat (1859-1891) tinha preferência por pintar os subúrbios de Paris. Sua personalidade era um contraponto entre a extrema sensibilidade e a precisão matemática. A partir de seus estudos sobre a teoria da cor e a óptica, em 1880, passou a fazer uso científico da cor, criando assim o estilo Divisionista ou Pontilhista. Seurat chegou a participar da última exposição dos impressionistas em 1886 e causou alvoroço com sua obra Tarde de Domingo na Ilha da Grande Jatte. Sua técnica foi seguida depois por Paul Signac (1863-1935) e Théo van Rysselberghe (1862-1926). No Farol em Honfleur (Fig. 9), é a luz natural que ilumina as casas, o barco e o farol. As cores não se misturam; elas são pequenos pontos de diferentes tons que se sobrepõem, provocando um efeito óptico de mistura de cores, no final.

Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) 3 viveu em Paris, frequentou os bordeis, os cafés, os cabarés, entre eles, o Moulin Rouge. Sua estranha aparência, devido às pernas muito curtas e à baixa estatura, tornava sua alma sensível e talvez, por esse motivo, tenha conseguido captar a fragilidade de artistas e de prostitutas como nenhum outro pintor. Suas obras foram um retrato da vida boêmia e o artista chegou a fazer cartazes para os cabarés e para os salões que frequentava. A Contradança no Moulin Rouge (Fig. 11) está repleta de elementos com os quais Lautrec conviveu. Há pessoas dançando e se divertindo em um grande salão iluminado. As cores fortes acentuam a dinâmica e a efervescência do momento. Os contornos simplificados e a falta de sombra deixaram clara a intenção do artista em dar ênfase à expressividade dos personagens, sua despreocupação com a anatomia e com a realidade.

Vincent van Gogh (1853-1890) está entre os artistas mais notáveis do período e dos últimos tempos. Nascido na Holanda, o pintor se mudou para Paris, onde seu irmão Theo era um marchand. Ali foi apresentado a Paul Signac, Èmile Bernard, Paul Gauguin e Lautrec, além dos principais artistas impressionistas. Assim como muitos de sua época, era apaixonado pelas gravuras japonesas. Basicamente autodidata começou a pintar em estilo Pontilhista, mas modificou seu traço, ao longo do tempo. Seu reconhecimento se deu apenas após sua morte. Em vida, teve apenas um quadro vendido. Sua vida ficou muito bem documentada nas cartas que trocava com o irmão Theo, de quem recebia muita ajuda. O pintor sofria de acessos de loucura e de depressão e, após um desentendimento com Gauguin, chegou a cortar sua própria orelha. Retomou a pintura após se internar e a controlar a depressão. Seu traço então evoluiu e as pinceladas curtas se tornaram longas e sinuosas. Em 27 de julho de 1890, atormentado por mais uma crise de depressão, Van Gogh atirou contra o próprio peito. Morreu no dia seguinte, com apenas 37 anos, nos braços de seu irmão.

Fig. 12 – Os Comedores de Batatas, Vincent Van Gogh, 1885. National Gallery of Art, Washington. Rosenwald Coleção. Fig. 13 – Casa de Fazenda na Provença, Vincent Van Gogh, 1888. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção.

Seu estilo é inconfundível, com cores fortes, linhas sinuosas e expressivas o que, para muitos, classifica o artista como pré-expressionista ou expressionista. Essa natureza é o traço mais marcante de um de seus 40 Autorretratos (Fig. 15). As pinceladas ondeantes ao redor da figura do artista, em seu cabelo e em sua roupa sugerem a impressão de movimento e de intensidade. O azul da roupa e do fundo da cena contrasta com a cor muito clara do rosto do artista. É perceptível a palidez e o perfil entristecido em virtude de seus problemas de ordem emocional. Para o artista,

É possível que haja um grande fogo em nossa alma, ainda que ninguém possa se aquecer com ele e os passantes vejam apenas um pouquinho de fumaça. (Vincent Van Gogh in WATTS, 2002, p.41)

A despreocupação com a forma, com a perspectiva e o uso de cores fortes são características presentes também na obra de Henri Rousseau (1844-1910). Seu estilo encantou muitos artistas da época, inclusive Pablo Picasso e o tornou um dos maiores representantes da Arte Naïf 4. Na Floresta tropical de Rousseau (Fig. 17) há contornos em branco e em preto; os vários tons de verde são fortes e não se misturam. A simplicidade da forma reflete a idéia de inocência e de alegria. Provavelmente Rousseau nunca tenha saído da França, mas muitas de suas pinturas são de florestas.

Fig. 14 – Natureza Morta de Laranjas e Limões com Luvas Azuis, Vincent Van Gogh, 1889. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon.

À diversidade da época, ainda somam-se os nomes de Bertrand-Jean Redon, conhecido como Odilon Redon (1840-1916); Henri-Edmond Cross (1856-1910); e Theo van Rysselberghe (1862-1926). Muitos artistas, representados por bons marchands, conseguiam enriquecer com a Arte. Outros avançavam muito em seu estilo, não tinham representação e acabavam por pertencer a uma classe mais pobre que empenhava para se afirmar.

Ao explorador das massas de que nos fala Baudelaire, nada poderia ser mais encantador do que as imagens de uma cidade em frenesi. A Paris do final do século XIX teria elementos suficientes para que o artista, encantado, imaginasse a Arte, segundo seu espírito fecundo. Para Oscar Wilde (1994, p.54),

A Arte desenvolve-se puramente nas próprias linhas, não simboliza nenhuma época, mas, ao contrário, tem nas épocas seus símbolos.

A Arte então se embrenhou por novos caminhos, tomou rumo próprio, desprendida do rigor da forma e se tornou ainda mais encantadora e diversa.

Fig. 15 – Autorretrato, Vincent Van Gogh, 1889. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. John Hay Whitney.

Considerações Finais

A Arte começa com a decoração abstrata, com um trabalho puramente imaginativo e agradável, não se aplicando senão ao irreal, ao não-existente. (WILDE, 1994, p.39)

O desejo de se libertar do academicismo iniciado pelos impressionistas parece ter produzido bons frutos. Os artistas passaram a investigar novos meios de expressão, exploraram a criatividade e mudaram para sempre o painel da Arte. O Pós-impressionismo continuou até as primeiras décadas do século XX, quando as vanguardas tomaram conta do cenário.

De fundamental importância para esse quadro foi o contato com o exotismo das regiões distantes, durante os seis meses da Exposição Universal que inspirou artistas a desenvolverem seu estilo como Gauguin, encantado pela Arte Oriental. A Torre de Gustave Eiffel e a excitação parisiense serviram de inspiração a muitos pintores da época. Muitos artistas acabaram por procurar lugares mais afastados da França para viver, como a Provença, a Bretanha e o Languedoc; ou ainda, como foi o caso de Gauguin, que foi viver na Polinésia Francesa.

Fig. 16 – Campos de Trigo Verdes, Vincent Van Gogh, 1890. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon. Fig. 17 – A Floresta Tropical, Henri Rousseau, 1909. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

A emoção prevaleceu sobre a forma, tornou-se soberana e, sem constrangimento se estabeleceu, levando novos ares à Estética. Ao observador entusiasmado, o flâneur, do início desse texto, bastou o coração pulsante, arrebatado pelas imagens que se ofereciam sensuais. E a Arte pode mesmo ser uma insana e delirante forma de ver as coisas. Para o escritor irlandês, Wilde, a Arte encanta por si só, é agradável ao olhar e por ela também aprendemos a contemplar o Belo da natureza.

“Diz-se que a Arte nos faz amar ainda mais a natureza, nos revela seus segredos (…)” (WILDE, 1994, p.25)

Ao longo dos subúrbios em que, pelas mansardas,
Persianas fazem véu às luxúrias bastardas,
Quando o sol arroja, imponente, seus punhais
Sobre a cidade e o campo, os tetos e os trigais,
Eu me ponho a treinar em minha estranha esgrima,
Farejando por tudo os acasos da rima,
Numa frase a tombar, como sobre as calçadas,
Ou topando as imagens há muito já sonhadas.
(BAUDELAIRE, 2006, p.96)

Notas:

1 Vídeos sobre a obra do escultor Aristide Maillol:
www.youtube.com/watch?v=LxR0j4b1TNE
www.youtube.com/watch?v=WZ-8GAqpsTY
www.youtube.com/watch?v=SHt17_Gyqeg

2 Um pouco mais sobre a teoria do mundo das idéias de Platão pode ser visto no artigo A Arte Incompreendida no link:
www.obrasdarte.com/a-arte-incompreendida-por-rosangela-vig

3 Henri de Toulouse-Lautrec:
www.obrasdarte.com/exposicao-toulouse-lautrec-em-vermelho-por-rosangela-vig

4 Arte Naïf:
www.obrasdarte.com/a-arte-naif-arte-ingenua-por-rosangela-vig

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Referências:

  1. BROOME, Peter; CHESTERS, Graham. An Antology of Modern French Poetry. New York: Cambridge University Press, 2003.
  2. BAUDELAIRE, Charles. Sobre a Modernidade. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2007.
  3. BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. São Paulo: Martin Claret, 2006.
  4. BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.
  5. CHILVERS, Ian; ZACZEK, Iain; WELTON, Jude; BUGLER, Caroline; MACK, Lorrie. História Ilustrada da Arte. São Paulo: Publifolha, 2014.
  6. FARTHING, Stephen. Tudo Sobre a Arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.
  7. GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.
  8. HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
  9. PLATÃO. Crátilo. 2ª. Edição. Lisboa: Livraria Sá Costa, 1994, Tradução Pe. Dias Palmeira.
  10. POE, Edgar Allan. A Filosofia da Composição. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008. Tradução: Léa Viveiros de Castro.
  11. PROENÇA, Graça. Descobrindo a História da Arte. São Paulo: Editora Ática, 2005.
  12. VANNUCCHI, Juliana. A Relevância da Mentira como Componente Artístico em Oscar Wilde. Sorocaba: Acervo Filosófico, 2016. Disponível em: www.acervofilosofico.com/a-relevancia-da-mentira-como-componente-artistico-no-pensamento-de-oscar-wilde último acesso em novembro, 2017.
  13. VERLAINE, Paul. One Hundred and One Poems by Paul Verlaine. Chicago: The University of Chicago Press, 1999. Tradução de Norman R.Shapiro.
  14. VIG, Rosângela Araújo Pires. DA ARTE COMO COMUNICAÇÃO À COMUNICAÇÃO COMO ARTE. Comunicação, Cultura e Mídia, Uniso, Sorocaba: 2010. Disponível em: comunicacaoecultura.uniso.br/prod_discente/2010/pdf/Rosangela_Vig.pdf último acesso em novembro, 2017.
  15. WATTS, Franklin. Vincent van Gogh. São Paulo: Editora Ática, 2002.
  16. WILDE, Oscar. A Decadência da Mentira e outros ensaios. Rio de Janeiro Imago Editora Ltda., 1994.

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As figuras:

Fig. 1 – Torre Eiffel, Francis Benavides, 2016.

Fig. 2 – Torre Eiffel, Francis Benavides, 2016.

Fig. 3 – Torre Eiffel, Conceição Matos, óleo sobre tela, 50 x 40 cm, 2011.

Fig. 4 – Fatata te Miti (Perto do mar), Paul Gauguin, 1892. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Fig. 5 – Te Pape Nave Nave (Águas Deliciosas), Paul Gauguin, 1898. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon.

Fig. 6 – O Prado, Alfred Sisley, 1875. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção.

Fig. 7 – A Batalha do Amor, Paul Cézanne, 1880. National Gallery of Art, Washington. Presente da W. Averell Harriman Foundation em memória de Marie N. Harriman.

Fig. 8 – Casas na Provença, o Vale Riaux perto de L’Estaque, Paul Cézanne, 1880. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon.

Fig. 9 – Farol em Honfleur, Georges Seurat, 1886. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon.

Fig. 10 – Um Canto no Moulin de La Galette, Henri de Toulouse-Lautrec, 1892. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Fig. 11 – Contradança no Moulin Rouge, Henri de Toulouse-Lautrec, 1892. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Fig. 12 – Os Comedores de Batatas, Vincent Van Gogh, 1885. National Gallery of Art, Washington. Rosenwald Coleção.

Fig. 13 – Casa de Fazenda na Provença, Vincent Van Gogh, 1888. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção.

Fig. 14 – Natureza Morta de Laranjas e Limões com Luvas Azuis, Vincent Van Gogh, 1889. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon.

Fig. 15 – Autorretrato, Vincent Van Gogh, 1889. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. John Hay Whitney.

Fig. 16 – Campos de Trigo Verdes, Vincent Van Gogh, 1890. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon.

Fig. 17 – A Floresta Tropical, Henri Rousseau, 1909. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Fig. 1 – Torre Eiffel, Francis Benavides, 2016. Fig. 2 – Torre Eiffel, Francis Benavides, 2016. Fig. 3 – Torre Eiffel, Conceição Matos, óleo sobre tela, 50 x 40 cm, 2011. Fig. 4 – Fatata te Miti (Perto do mar), Paul Gauguin, 1892. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 5 – Te Pape Nave Nave (Águas Deliciosas), Paul Gauguin, 1898. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon. Fig. 6 – O Prado, Alfred Sisley, 1875. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção. Fig. 8 – Casas na Provença, o Vale Riaux perto de L’Estaque, Paul Cézanne, 1880. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon. Fig. 9 – Farol em Honfleur, Georges Seurat, 1886. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon. Fig. 10 – Um Canto no Moulin de La Galette, Henri de Toulouse-Lautrec, 1892. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 11 – Contradança no Moulin Rouge, Henri de Toulouse-Lautrec, 1892. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 12 – Os Comedores de Batatas, Vincent Van Gogh, 1885. National Gallery of Art, Washington. Rosenwald Coleção. Fig. 13 – Casa de Fazenda na Provença, Vincent Van Gogh, 1888. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção. Fig. 14 – Natureza Morta de Laranjas e Limões com Luvas Azuis, Vincent Van Gogh, 1889. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon. Fig. 15 – Autorretrato, Vincent Van Gogh, 1889. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. John Hay Whitney. Fig. 16 – Campos de Trigo Verdes, Vincent Van Gogh, 1890. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon. Fig. 17 – A Floresta Tropical, Henri Rousseau, 1909. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

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Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Nada se parece tanto com o que chamamos de inspiração quanto a alegria com que a criança absorve a forma e a cor. Ousaria ir mais longe: afirmo que a inspiração tem alguma relação com a congestão e que todo pensamento sublime é acompanhado de um estremecimento nervoso, mais ou menos intenso, que repercute até no cerebelo. O homem de gênio tem nervos sólidos, na criança eles são fracos. Naquele, a razão ganhou um lugar considerável; nesta, a sensibilidade ocupa quase todo seu ser. (BAUDELAIRE, 2007, p.19)

A sensibilidade de que nos fala Baudelaire diz respeito ao entusiasmo, próprio do coração do artista, em seu transcender de emoções. É como se a natureza fizesse questão de ostentar suas cores e suas formas, induzindo o artífice à sedução. Arrebatado, ele se empolga e se perde diante de tudo o que vê, feito uma criança extasiada a descobrir o mundo. A imagem que se apresenta atravessa o sutil campo do imaginário e se torna real por suas mãos, em sua poética maneira de demonstrar o que vê. É por essas linhas que a Arte fala e que, pelos tempos, tem se demonstrado fecunda.

Fig. 1 – Bazille e Camille, Estudo de Café da Manhã no campo, Claude Monet, 1865. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção. Fig. 2 – Mulher com guarda-sol, Madame Monet e seu filho, Claude Monet, 1875. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon.

E se o tempo tem trazido bons frutos, foi na modernidade que Arte abriu suas portas para o espírito criativo. O final do século XIX foi testemunho de muitas dessas inovações e dessas novas feições que então despontavam e passariam a fazer parte da estética que se manteve até meados do século XX.

Nesse período, o mundo presenciava o surgimento das máquinas e da produção em larga escala 1. A invenção do cinematógrafo, no final do século XIX, pelos irmãos Lumiére, possibilitaria que as imagens pudessem ser vistas em movimento, dando origem à Sétima Arte 2, o cinema. As novas tecnologias permitiriam ainda que o ser humano voasse, no início do século XX. E não há dúvidas de que a invenção da Fotografia, pelo francês Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833), em 1826, foi de grande valia para que a Pintura Moderna ampliasse em significado e em formas. Enquanto a realidade seria a incumbência da fotografia, a Arte poderia se aproximar do mundo das ideias, de forma autônoma.

Fig. 3 – O Jardim do Artista em Vétheuil, Claude Monet, 1880. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção. Fig. 4 – Catedral de Rouen, Fachada Oeste sob a Luz do Sol, Claude Monet, 1894. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 5 – As Casas do Parlamento, Pôr do Sol, Claude Monet, 1903. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 6 – Palazzo da Mula, Veneza, Claude Monet, 1908. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Pintura

Tudo se parece maravilhoso nesse momento e a luz é deslumbrante. (MONET in HOLMES, 2001, p.100)

Na estética, Paris foi o berço das tendências inovadoras do século XX. Ali, um grupo de artistas, no final dos anos 1860, ávidos por se desvencilharem do realismo, juntaram-se para compartilhar ideias. Entre os participantes desses encontros, destacavam-se os nomes de Frédéric Bazille (1841-1870), Paul Cézanne (1839-1906), Edgar Degas (1834-1917), Edouard Manet (1832-1883), Claude Monet 3 (1840-1926), Camille Pissarro (1830-1903), Auguste Renoir (1841-1919), Alfred Sisley (1839-1899) e a pintora Berthe Morisot (1841-1895) (BUGLER, 2014, P.276). Juntavam-se a eles, escritores, críticos e outros intelectuais da época. Das reuniões desse grupo, surgia não somente o anseio por exibir as obras fora dos salões e das mostras oficiais, mas emergia também a vontade de se libertar do academicismo. Os cenários deveriam ser os da vida diária, o que revela a influência do Realismo e do Naturalismo, dos anos 1840, de Gustave Courbet (1819-1877). Os cenários deveriam ser urbanos, captados num primeiro olhar, em determinados momentos do dia, sob efeito da luminosidade solar, por meio de manchas, sem a mistura de cores, como se a luz fosse captada em seu momento de permear a natureza, as pessoas e os objetos. Os artistas foram para fora de seus ateliês, fizeram de cenários urbanos e campestres, seu local de trabalho. De sua proposta revolucionária e liberal, florescia um estilo pictórico único que valorizava a luz natural, proporcionando ao olhar, a sensação final de impressão de luminosidade.

Fig. 7 – A Passarela Japonesa, Claude Monet, 1899. National Gallery of Art, Washington. Presente de Victoria Nebeker Coberly, em memória de seu filho John W. Mudd, e Walter H. e Leonore Annenberg. Fig. 8 – A Aula de Dança, Edgar Degas, 1873. National Gallery of Art, Washington. Corcoran Coleção (William A. Clark Coleção). Fig. 9 – Antes do Balé, Edgar Degas, 1890-1892. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção.

E é iluminada pela luz natural que Madame Monet passeia com seu filho, em meio à vegetação baixa (Fig. 2). Ambos se protegem do sol. O menino com um chapéu, sua mãe com a sombrinha, que ameaça voar com a brisa. A intensa claridade deixa óbvio o calor, amenizado talvez, pelo vento que parece agitar a vegetação, o vestido e os cabelos da primeira mulher de Monet. A luz vem por trás do horizonte e dos personagens da cena, projetando as sombras para a frente deles. A falta de nitidez dos contornos reforça a ideia de movimento e de impressão de luz sobre toda a imagem. Essa impressão é acentuada pelo uso de cores puras que podem passar despercebidas, a um primeiro olhar, mas são elas que possibilitam o resultado final de mistura ao observador, objetivo maior dos impressionistas. No jogo da perspectiva, os protagonistas parecem estar numa pequena colina e o observador parece se localizar abaixo deles.

O mesmo efeito de perspectiva também está na Catedral de Rouen (Fig. 4), cuja sensação de grandiosidade se acentua com a posição do observador, abaixo dela. Monet pintou a mesma construção em diversos horários do dia, em várias épocas do ano, enfatizando os diferentes efeitos que a incidência de luz promovia.

Fig. 10 – A Irmã da artista, Edma, sentada em um Parque, Berthe Morisot, 1864. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção.

Um final de tarde é o protagonista na figura 5. As Casas do Parlamento estão pouco iluminadas e quase nada se vê de seus detalhes, já escurecidos, em virtude do sol, que já se põe atrás da torre mais alta. O cinza da construção contrasta com o céu, que irradia as mais belas cores de um final de tarde. É possível perceber a escala tonal indo do mais escuro para o mais claro, tingindo a tela de azul, lilás, rosa, vermelho, laranja, amarelo e branco. As cores ainda espelham-se pelas águas do rio Tâmisa com as mesmas nuances. É possível notar cada pincelada e, apesar de ser um final de tarde, a tela resplandece em luz.

Diferentemente dos outros impressionistas, Edgar Degas preferia os ambientes internos. Seus temas eram principalmente as bailarinas, os espetáculos, a ópera e os concertos. Suas obras podem ser vistas como o flagrante de um momento em que as pessoas não se dão conta de que estão sendo fotografadas. Apesar dos ambientes serem, muitas vezes, internos, suas obras são repletas de luz, de movimento e de leveza. Em suas composições, é a luz artificial que ilumina e que promove o efeito sobre os corpos e os rostos, no instante de um movimento ou de uma expressão. Em sua Aula de Dança (Fig. 8), é possível perceber que o desenho é mais valorizado e os detalhes da cena ficam mais evidentes. Os vestidos e seus laços coloridos esvoaçantes não são completamente delineados, uma vez que o tecido é translúcido e está em pleno movimento. A luz que clareia a sala é tênue, mas não escurece por completo o ambiente. É possível ouvir os sons dos passos nas escadas e no chão de madeira.

Fig. 11 – Jovens Camponesas Descansando nos Campos perto de Pontoise, Camille Pissarro, 1882. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon. Fig. 12 – A Estrada de Ferro, Edouard Manet, 1873. National Gallery of Art, Washington. Presente de Horace Havemeyer em memória de sua mãe, Louisine W. Havemeyer. Fig. 13 – Primeira Nevasca em Veneux-Nadon, Alfred Sisley, 1878. National Gallery of Art, Washington. Doado por Lolo Sarnoff em memória de seu avô, Louis Koch.

A última exposição dos impressionistas se deu em 1886, na França, quando o grupo se dispersou e o estilo foi abandonado. Dois artistas que fizeram parte da mostra, Georges Seurat (1859-1891) e Paul Signac (1863-1935) aprofundaram-se em pesquisas sobre as técnicas dos impressionistas e as modificaram para a justaposição de cores. Florescia então o Pontilhismo, como uma evolução do Impressionismo. E o movimento ainda influenciou parte da obra de Van Gogh, embora o artista tenha passado por vários estilos, em sua pintura e seja considerado Pós-Impressionista.

Escultura

Os efeitos momentâneos de luz e de tonalidade, causados pelas pinceladas com cores intensas e a falta de nitidez das imagens foram as principais marcas da Pintura Impressionista e serviram de inspiração para Auguste Rodin (1840-1917).

Fig. 14 – Mulher com uma Criança, Auguste Rodin, 1885. National Gallery of Art, Washington. Presente da Sra. John W. Simpson.

O escultor chegou a ser considerado realista, simbolista e expressionista, mas seu estilo também transitou pelo Impressionismo. O artista acreditava que as imperfeições e a sensação de rugosidade da escultura poderiam proporcionar a impressão de que a imagem estaria brotando ou nascendo, a partir de uma pedra. Além disso, a luminosidade sobre a superfície imperfeita proporcionaria a sensação de dinamismo, de força e de emoção. O escultor, muitas vezes, deixava grande parte da escultura, em meio à pedra bruta, como se a imagem estivesse tentando se desvencilhar de uma rocha.

A obra “O Homem de Nariz Quebrado” chegou a ser considerada inacabada pela crítica da época. Assim como os impressionistas do período, o escultor buscava se desprender da realidade. Tal noção fica nítida na obra Mulher com uma Criança (Fig. 14), que parece estar em formação, saindo das entranhas de uma rocha bruta. Os protagonistas da cena estão em meio à pedra, e parecem brincar. A superfície não é lisa, tem a aspereza da pedra. O efeito da luz sobre as reentrâncias é o que fomenta a impressão de dinamismo. A imagem final se compõe pelo olhar de quem a vê.

Fig. 15 – O Pensador, Auguste Rodin, modelo 1880, fundido em 1901. National Gallery of Art, Washington. Presente da Sra. John W. Simpson.

Sua principal obra, O Pensador, representa Dante, diante dos portões do Inferno. Embora a escultura original tenha sido feita em 1880, o artista permitiu que se fizessem mais 20 cópias. Influenciado pelo Renascimento, o escultor referiu-se ao interior e à alma, do homem que pensa, que reflete, indo assim, para além do mundo físico. Feita em bronze, a escultura apresenta proporção e detalhes do corpo humano. É possível perceber ossos, músculos, feições e movimento, mas a superfície apresenta saliências, o que pressupõe não somente a ideia de pedra bruta, como a impressão de movimento e de ligação da escultura com a própria pedra de onde ela emerge.

Desprendido da realidade, Rodin chegou a deixar evidentes as marcas de seus dedos, em meio às reentrâncias de suas esculturas buscando captar apenas a essência, das imagens. Muitas vezes o escultor deixava grande parte da pedra em sua forma bruta, captando apenas parte das figuras e personagens, levando o olhar a uma busca pela imagem completa. Para ele, a falta de acabamento poderia fomentar a imaginação.

Fig. 16 – O Beijo, Auguste Rodin, modelo 1880-1887, fundido entre 1896-1902. National Gallery of Art, Washington. Presente da Sra. John W. Simpson.

Considerações Finais

Agora eu não posso relaxar; as cores me perseguem como uma preocupação constante, até mesmo em meu sonho. (MONET in HOLMES, 2001, p.145)

Classificados muitas vezes, pela crítica, como rebeldes, os impressionistas ousaram modificar os conceitos da Pintura e da Escultura figurativas, deixando as impressões do que viam. A luz passou a ser tratada como parte da obra, por seus efeitos sobre as pessoas e sobre as coisas.

Ao se aplicar à Literatura, o estilo impressionista se atreveu descrever os estados de alma, as emoções e as impressões sensoriais, valorizando os aspectos psicológicos. Na França, Marcel Proust (1871-1922) publicava entre 1913 e 1927, sua obra Em Busca do Tempo Perdido. Em Portugal, Florbela Espanca (1894-1930) revelava extrema sensibilidade, expunha sofrimentos e erotismo; trazia à tona estados de alma, muitas vezes mórbidos, repletos de figuras de linguagem. O dramatismo de seus textos, quase imagísticos, chegaram a classificar a escritora portuguesa com um estilo único, que transitou por correntes impressionistas, simbolistas, românticas, e modernas.

Não há dúvida de que as novas tecnologias, entre as quais a fotografia, acabaram por modificar os conceitos que até então havia sobre a Arte. Aos artistas, coube explorar esses meios e transformar a Arte em Arte, passando por seu imaginário e por seu entusiasmo diante da liberdade que se oferecia então. A inspiração sentiu-se livre para extrapolar e o artista transcendeu.

Minh’alma, de sonhar-te anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo meu amor a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

Tudo no mundo é frágil, tudo passa…
Quando me dizem isso toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
Ah podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!
(ESPANCA, 2007, p.17)

1 A Revolução Industrial se deu entre 1760 e 1840, com as máquinas a vapor. A segunda fase, entre 1860 e 1900, engloba as novas tecnologias com o uso motor a explosão e da energia elétrica; com o uso de combustíveis e de materiais, entre os quais, o aço. A alguns estudiosos, os séculos XX e XXI são testemunhos da terceira fase da Revolução Industrial, da qual fazem parte, os computadores, celulares e engenharia genética.

2 O termo Sétima Arte foi dado pelo crítico de cinema italiano Ricciotto Canudo (1877-1923), em 1911, em um Manifesto das Sete Artes e Estética da Sétima Arte. Para o intelectual, as Artes se dividem em Arquitetura, Escultura, Pintura, Música, Dança, Poesia e Cinema.

3 Filme de 1915 em que Monet está pintando as Ninféias:
www.youtube.com/watch?v=Mt17zgixo78

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Referências:

  1. BAUDELAIRE, Charles. Sobre a Modernidade. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2007.
  2. BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.
  3. CHILVERS, Ian; ZACZEK, Iain; WELTON, Jude; BUGLER, Caroline; MACK, Lorrie. História Ilustrada da Arte. São Paulo: Publifolha, 2014.
  4. ESPANCA, Florbela. Antologia de Poemas para a Juventude. São Paulo: Editora Peirópolis, 2007. (Organização de Denyse Cantuária)
  5. FARTHING, Stephen. Tudo Sobre a Arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.
  6. GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.
  7. HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
  8. HOLMES, Caroline. Monet at the Giverny. Reino Unido: Weidenfeld & Nicolson, 2001.
  9. POE, Edgar Allan. A Filosofia da Composição. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008. Tradução: Léa Viveiros de Castro.
  10. PROENÇA, Graça. Descobrindo a História da Arte. São Paulo: Editora Ática, 2005.
  11. VIG, Rosângela Araújo Pires. DA ARTE COMO COMUNICAÇÃO À COMUNICAÇÃO COMO ARTE. Comunicação, Cultura e Mídia, Uniso, Sorocaba: 2010. Disponível em:
    comunicacaoecultura.uniso.br/prod_discente/2010/pdf/Rosangela_Vig.pdf

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As figuras:

Fig. 1 – Bazille e Camille, Estudo de Café da Manhã no campo, Claude Monet, 1865. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção.

Fig. 2 – Mulher com guarda-sol, Madame Monet e seu filho, Claude Monet, 1875. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon.

Fig. 3 – O Jardim do Artista em Vétheuil, Claude Monet, 1880. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção.

Fig. 4 – Catedral de Rouen, Fachada Oeste sob a Luz do Sol, Claude Monet, 1894. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Fig. 5 – As Casas do Parlamento, Pôr do Sol, Claude Monet, 1903. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Fig. 6 – Palazzo da Mula, Veneza, Claude Monet, 1908. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Fig. 7 – A Passarela Japonesa, Claude Monet, 1899. National Gallery of Art, Washington. Presente de Victoria Nebeker Coberly, em memória de seu filho John W. Mudd, e Walter H. e Leonore Annenberg.

Fig. 8 – A Aula de Dança, Edgar Degas, 1873. National Gallery of Art, Washington. Corcoran Coleção (William A. Clark Coleção).

Fig. 9 – Antes do Balé, Edgar Degas, 1890-1892. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção.

Fig. 10 – A Irmã da artista, Edma, sentada em um Parque, Berthe Morisot, 1864. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção.

Fig. 11 – Jovens Camponesas Descansando nos Campos perto de Pontoise, Camille Pissarro, 1882. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon.

Fig. 12 – A Estrada de Ferro, Edouard Manet, 1873. National Gallery of Art, Washington. Presente de Horace Havemeyer em memória de sua mãe, Louisine W. Havemeyer.

Fig. 13 – Primeira Nevasca em Veneux-Nadon, Alfred Sisley, 1878. National Gallery of Art, Washington. Doado por Lolo Sarnoff em memória de seu avô, Louis Koch.

Fig. 14 – Mulher com uma Criança, Auguste Rodin, 1885. National Gallery of Art, Washington. Presente da Sra. John W. Simpson.

Fig. 15 – O Pensador, Auguste Rodin, modelo 1880, fundido em 1901. National Gallery of Art, Washington. Presente da Sra. John W. Simpson.

Fig. 16 – O Beijo, Auguste Rodin, modelo 1880-1887, fundido entre 1896-1902. National Gallery of Art, Washington. Presente da Sra. John W. Simpson.

Fig. 1 – Bazille e Camille, Estudo de Café da Manhã no campo, Claude Monet, 1865. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção. Fig. 2 – Mulher com guarda-sol, Madame Monet e seu filho, Claude Monet, 1875. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon. Fig. 3 – O Jardim do Artista em Vétheuil, Claude Monet, 1880. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção. Fig. 4 – Catedral de Rouen, Fachada Oeste sob a Luz do Sol, Claude Monet, 1894. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 5 – As Casas do Parlamento, Pôr do Sol, Claude Monet, 1903. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 6 – Palazzo da Mula, Veneza, Claude Monet, 1908. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 7 – A Passarela Japonesa, Claude Monet, 1899. National Gallery of Art, Washington. Presente de Victoria Nebeker Coberly, em memória de seu filho John W. Mudd, e Walter H. e Leonore Annenberg. Fig. 8 – A Aula de Dança, Edgar Degas, 1873. National Gallery of Art, Washington. Corcoran Coleção (William A. Clark Coleção). Fig. 9 – Antes do Balé, Edgar Degas, 1890-1892. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção. Fig. 10 – A Irmã da artista, Edma, sentada em um Parque, Berthe Morisot, 1864. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção. Fig. 11 – Jovens Camponesas Descansando nos Campos perto de Pontoise, Camille Pissarro, 1882. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon. Fig. 12 – A Estrada de Ferro, Edouard Manet, 1873. National Gallery of Art, Washington. Presente de Horace Havemeyer em memória de sua mãe, Louisine W. Havemeyer. Fig. 13 – Primeira Nevasca em Veneux-Nadon, Alfred Sisley, 1878. National Gallery of Art, Washington. Doado por Lolo Sarnoff em memória de seu avô, Louis Koch. Fig. 14 – Mulher com uma Criança, Auguste Rodin, 1885. National Gallery of Art, Washington. Presente da Sra. John W. Simpson. Fig. 15 – O Pensador, Auguste Rodin, modelo 1880, fundido em 1901. National Gallery of Art, Washington. Presente da Sra. John W. Simpson. Fig. 16 – O Beijo, Auguste Rodin, modelo 1880-1887, fundido entre 1896-1902. National Gallery of Art, Washington. Presente da Sra. John W. Simpson.

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Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

A Arte do Romantismo brasileiro está muito bem representada em Santa Catarina, pelo Museu Victor Meirelles. Inaugurado em 1952, no mês de novembro, o local pertenceu ao artista, que foi o grande ícone da Pintura do século XIX. Localizado no Centro da cidade de Florianópolis, ela abriga principalmente obras de Victor Meirelles, mas também pode ser vistos trabalhos de artistas da contemporaneidade, com exposições temporárias no museu.

O local, onde nasceu Meirelles, é um casarão típico do século XVIII, que chegou a ser ameaçado de demolição, mas em 1946, a compra do imóvel pela União, autorizada pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra, levou ao tombamento, em 1950. O prédio então foi reformado, mantendo suas características originais e 21 obras do pintor, representativas de suas fases, foram doadas pelo Museu Nacional de Belas Artes, aumentando assim, o acervo. Vieram a enriquecer ainda mais a coleção, outras obras do artista, doadas por outras instituições e por colecionadores particulares.

O Museu chegou a ser fechado para nova reforma e reaberto em 1994, com estrutura moderna e espaço para exposições temporárias de outros artistas. Foi criado um largo cultural, um projeto urbanístico ao redor do edifício e o museu se transformou num centro cultural, com projetos educativos em várias áreas de atuação, como a Música, o Teatro, a Dança e o Cinema, além de contar com uma biblioteca e uma revista cultural.

Englobando as várias fases da carreira de Victor Meirelles, o museu apresenta os estudos, que fizeram parte de sua fase inicial, pinturas da fase em que o artista esteve na Europa, como bolsista e suas obras mais conhecidas, como A Primeira Missa no Brasil, Passagem de Humaitá, a Batalha de Guararapes e a Degolação de São João.

É possível navegar pelo site do Museu e conhecer um pouco mais a respeito do artista, suas obras e a instituição em si, com seus eventos, suas atividades e suas oficinas que promovem a Cultura e estimulam o conhecimento a respeito de um Brasil antigo.

O museu fica na Rua Rafael Bandeira, 41, em Florianópolis.

Museu Victor Meirelles, fachada. Foto: Museu Victor Meirelles. Museu Victor Meirelles, fachada. Foto: Museu Victor Meirelles. Museu Victor Meirelles, fachada. Foto: Museu Victor Meirelles.

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Romantismo no Brasil por Rosângela Vig https://www.obrasdarte.com/romantismo-no-brasil-por-rosangela-vig/ https://www.obrasdarte.com/romantismo-no-brasil-por-rosangela-vig/#comments Fri, 21 Jul 2017 17:56:08 +0000 http://www.obrasdarte.com/?p=36506-pt Você também pode ouvir esse artigo na voz da própria Artista Plástica Rosângela Vig:

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá;
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas tem mais flores,
Nossos bosques tem mais vida,
Nossa vida, mais amores,
Em cismar, sozinho à noite,
Mais prazer encontro eu lá,
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá.
Em cismar, – sozinho, à noite –
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá,
Sem que desfrute os primores,
Que não encontro por cá;
Sem que ainda aviste as palmeiras,
Onde canta o sabiá.
(DIAS, 1980, p.12)

A famosa Canção do Exílio deixou à mostra o sentimento de saudade e de profundo amor à pátria que sentia o poeta maranhense Gonçalves Dias (1811-1882), durante o tempo em que esteve em Portugal. O ano em que ele escreveu foi 1846. Nessa época, o Romantismo moldava a Literatura brasileira. E a forte tendência ao nacionalismo foi o traço mais marcante desse estilo, como se viu na poesia. O movimento, que teve início no século XVIII, em território europeu, deixou traços ímpares nas manifestações estéticas brasileiras. Na Arte, foi o principal estilo durante a segunda metade do século XIX, trouxe um pouco das feições neoclássicas e o ecletismo na forma.

Fig. 1 – Igreja da Sé em São Paulo. Foto de Rosângela Vig. Fig. 2 – Igreja da Sé em São Paulo. Foto de Rosângela Vig. Fig. 3 – Confeitaria Rocco. Foto de Benjamim Mattos.

Por aqui, a época coincidiu com o Segundo Reinado, a partir de 1840, quando Dom Pedro II subiu ao trono. Pode-se dizer que o período veio acompanhado de crescimento na economia, de incentivo à Cultura e ao conhecimento. Entre as tantas transformações que ocorriam no Brasil, viu-se também a ascensão da cultura cafeeira e seu declínio; o início da industrialização; e as questões políticas e sociais que culminaram na crise do império. Seguiu-se a queda da monarquia em 1889, quando Marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República e a Família Imperial foi enviada ao exílio. A escravidão se manteve durante o Segundo Reinado e, em 1888 foi abolida, dando espaço para a mão de obra imigrante. E a época ainda foi testemunha da Guerra dos Farrapos, da Guerra do Paraguai e da Revolução Praieira.

Quanto às feições, a Arte romântica Brasileira, não trazia os castelos medievais, nem os cavaleiros ou as donzelas. Vindo da Europa, o estilo adaptou-se à nossa realidade e se carregou de um nacionalismo ufanista e patriótico que levou à valorização de nossa natureza, de nosso povo e de nossos heróis.

Arquitetura

O ecletismo europeu também transitou por aqui e o que se viu foi um ressurgir de estilos, até o início do século XX. Houve uma tendência à decoração abundante, ao conforto e ao luxo. O rigor do Neoclássico foi se atualizando, aos poucos, dando sinais de que a modernidade avançava a passos largos.

Fig. 4 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura com o Atlante Jovem, do lado esquerdo e Atlante Velho, do lado direito da imagem. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 5 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura com o Atlante Jovem, do lado direito e Atlante Velho, do lado esquerdo da imagem. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 6 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura Atlante Velho. Foto de Benjamim Mattos.

Com a modernidade chegavam os novos materiais, entre os quais o ferro fundido, que passou a fazer parte da estrutura e dos ornamentos das construções, entre 1880 e 1910. Muitas dessas estruturas eram importadas de países da Europa, principalmente da Bélgica e da França.

O Teatro José de Alencar está entre as obras que fizeram parte desse ecletismo. Construído no início do século XX, sua estrutura e sua fachada tem peças em ferro que vieram da Escócia. A sala de apresentações, no interior deixa claro o estilo Nouveau, que então nascia no Brasil.

O Palácio da Liberdade 1 em Belo Horizonte é outro exemplo da versatilidade da época. Construído entre 1895 e 1897, sua vista frontal apresenta traços neoclássicos; e a decoração interna varia entre os estilos Luís XV, o mourisco e a Art Nouveau. O projeto de jardinagem tem como protagonista a palmeira imperial; há esculturas em mármore branco; e a beleza se completa com o coreto, de 1904, típico das edificações da época, ornamentado com ferro fundido.

Em São Paulo, fica nítido o estilo neogótico na Igreja da Sé (Figuras 1 e 2). Sua construção teve início em 1913 e terminou somente quarenta anos depois. Na cúpula central, predominou o modelo da Renascença. Próximo dali, está o Teatro Municipal de São Paulo, construído entre 1903 e 1911, projetado pelo Escritório Técnico do arquiteto Ramos de Azevedo (1851-1928). O local, que foi berço da Semana de Arte Moderna de 1922 e já recebeu importantes artistas, tem estilo diversificado e eclético, embora predomine a Art Déco.

No Rio de Janeiro, fazem parte da diversidade de estilos, outras conhecidas construções já do início do século XX, como o Teatro Municipal do Rio de Janeiro (1905-1909) e o prédio central da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Fig. 7 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura Atlante Velho. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 8 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura Atlante Velho. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 9 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura Atlante Jovem. Foto de Benjamim Mattos.

Escultura

Lerás porém algum dia
Meus versos d’alma arrancados,
De amargo pranto banhados,
Com sangue escritos; – e então,
Confio que te comovas,
Que a minha dor te apiede
Que chores, não de saudade,
Nem de amor, nem de compaixão.
(GONÇALVES DIAS apud MASSAUD, 2000, p.126)

Assim como na Arquitetura, o ecletismo foi a marca que esse período deixou no campo da Escultura aqui, associado ao historicismo. Às tendências neoclássicas, juntaram-se elementos da Grécia e da Roma antigas, do Barroco e da Art Nouveau, que despontava por aqui. A estatuária trazia novas técnicas e novos matérias, como o cimento, o ferro e o aço, que tornavam mais rápida e fácil a criação das obras.

Fazendo uma referência à Mitologia, a fachada da Confeitaria Rocco (Fig. 3), em Porto Alegre, apresenta o Atlantes (Figuras 4 e 5) de Guiseppe Gaudenzi (1875-1966), de 1912. E Frederico Pellarin 2 foi o escultor da imagem que se apresenta no frontão da confeitaria (Fig. 10), retratando as Artes. A imagem feminina está sobre uma lira, acompanhada de duas crianças e representa a música. O grupo todo simboliza a Luz. Ainda em Porto Alegre, segue o estilo do período, a imagem de Santo Expedito, em mármore, na Catedral Metropolitana da cidade.

Nessa época, era comum à burguesia com posses adornar túmulos com esculturas de alto nível. Surgia então a Arte tumular, cujo grande exemplo é o Cemitério da Consolação, em São Paulo, com esculturas de grandes nomes, entre os quais, Victor Brecheret (1894-1955), Galileo Emendabili (1898-1974) e Luigi Brizzolara (1868-1937), Rodolfo Bernardelli (1852-1931), Bruno Giorgi (1905-1993). Muitas das esculturas estão em estado de abandono e há figuras ilustres enterradas nesse cemitério, entre as quais, a artista Tarsila do Amaral (1886-1973), o arquiteto Ramos de Azevedo, os escritores Monteiro Lobato (1882-1948) e Mário de Andrade (1893-1945), além de membros da tradicional família Matarazzo. Pelo Projeto Tumular, é possível fazer visitas guiadas ao local.

Fig. 10 – Confeitaria Rocco, detalhe do frontão da fachada escultura representando a Luz, com uma imagem de mulher sobre a lira. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 11 – Confeitaria Rocco, detalhe do frontão da fachada escultura representando a Luz, com uma imagem de mulher sobre a lira. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 12 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 13 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada. Foto de Benjamim Mattos.

Pintura

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus …
Ó mar! Porque não apagas
Com a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?
Astros! Noite! Tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
(ALVES, 1980, p.79)

Ficaram como remanescentes da Independência do Brasil (1822), o sentimento nacionalista e a valorização das questões políticas e sociais. As inquietações, o descontentamento do povo e a perda de prestígio da Monarquia eram claros e, para que essa imagem não se propagasse, seria interessante a Dom Pedro II, que as pinturas retratassem um Brasil tranquilo e unido. Viu-se então nesse período, a pintura com registros da vida palaciana, da Família Real e do Imperador. Mas foi também pelas mãos dos pintores, que o Brasil da época ficou registrado em imagens. A versão brasileira do Romantismo, foi sobretudo um memorial histórico e descritivo das paisagens, do dia a dia e do modo de viver do Brasil do século XIX. Talvez, nesse sentido, a Pintura se afastasse, um pouco da temática da Literatura.

A tendência a enfatizar a cor e os contrastes entre o claro e o escuro ficaram evidentes nas obras de Victor Meirelles (1832-1893). Pintada em Roma, pelo artista brasileiro, A Degolação de São João Batista de 1855 (Fig. 14) traz resquícios do tenebrismo 3 iniciado no Barroco, mas que perdurou até o Romantismo. Com o mesmo tema da obra de Caravaggio de 1607, a do artista brasileiro apresenta uma cena mais contida, aos moldes do academicismo. Na obra, a narrativa bíblica em que Salomé recebe a cabeça de São João Batista, sobre a bandeja.

Fig. 14 – A Degolação de São João Batista, Victor Meirelles, 1855. Museu Victor Meirelles. Fig. 15 – Estudo para Passagem de Humaitá, Victor Meirelles, 1855. Museu Victor Meirelles.

São de Victor Meirelles, as duas obras Estudo para Passagem de Humaitá (Fig. 15) e Esboço para Passagem de Humaitá (Fig. 16), encomendadas pelo então Ministro Affonso Celso, com a intenção de abrandar as críticas que a Marinha vinha recebendo. Ambas retratam a atuação da marinha na Guerra do Paraguai, na operação militar que teve como objetivo ultrapassar a Fortaleza de Humaitá, passando pelo rio Paraguai. No Estudo para Passagem de Humaitá (Fig. 15), há pessoas vivas, em meio aos corpos, próximos a um navio com pessoas fardadas e muita fumaça, sugerindo um combate. À obra, cabem interpretações sobre o verdadeiro sentido de heroísmo e da guerra em si, talvez ali, colocados propositalmente com esse intuito, pelo artista. Na outra pintura, Esboço para Passagem de Humaitá (Fig. 16), há o típico traço do Romantismo, lembrando as paisagens de Turner, nítido no uso acentuado da cor, em manchas, nas linhas sinuosas, na ideia de grandiosidade e de exaltação da natureza.

A Batalha dos Guararapes (Fig. 18), que findou com as Invasões Holandesas no Brasil, em 1649, foi brilhantemente retratada por Victor Meirelles, em 1879. O artista trabalhou seis anos na obra, chegando a fazer viagens a Pernambuco, para conhecer o local. O heroísmo, como o tema da obra e está nítido, num primeiro plano, nos combatentes, em plena luta, em dramáticos movimentos, em meio aos corpos de pessoas e de cavalos caídos. Passiva, a natureza assiste tudo, ao fundo, em meio à poeira do momento do combate. A mancha de cor, a falta de nitidez, as linhas sinuosas aqui, foram aspectos relevantes para avultar o movimento.

Há que se falar em artistas como Jean-Baptiste Debret (1768-1848), cuja carreira percorreu também o Neoclássico; Pedro Américo (1843-1905), com estilos que oscilaram entre o Neoclássico, o Romantismo e o Realismo; Almeida Júnior (1850-1899), que retratou o caipira paulista em grande parte de suas obras; Rugendas (1802-1858), que se especializou em desenho, chegando a viajar pelo Brasil, para retratar os povos e os costumes. E os traços do Romantismo se prolongaram até 1880, na Pintura, quando o Realismo começava a despontar.

Fig. 16 – Esboço para Passagem de Humaitá, Victor Meirelles, 1868-72. Museu Victor Meirelles. Fig. 17 – O Naufrágio da Medusa, Victor Meirelles, 1857. Museu Victor Meirelles.

Considerações finais

O curso dos acontecimentos deu ao gênio da época, uma direção que ameaça afastá-lo mais e mais da Arte do ideal. Esta tem de abandonar a realidade e elevar-se, com decorosa ousadia, para além da privação, pois a Arte é filha da liberdade e quer ser legislada pela necessidade do espírito, não pela privação da matéria. (SCHILLER, 2002, p.21)

O Filósofo alemão, do século XVIII acreditava na educação como uma forma de equilíbrio da sociedade. O caminho para isso estava na Arte e na Estética. Pelo Belo, o espírito é conduzido à liberdade, e por consequência, ao estado ético, porque traz à tona emoções, valores e princípios. E é de tal liberdade, somada a intrínsecos valores éticos, que nos fala a estética do Romantismo.

Talvez seja essa a melhor forma de explicar o sentimento que envolveu o artista do período, tanto na Literatura, como nas manifestações estéticas. Mais que seguir um estilo, o Romantismo daqui adquiriu personalidade e valorizou nossas belezas, nosso povo, nossa religiosidade e deixou impresso, um Brasil que já não existe mais. A natureza exuberante contribuiu com as mais lindas imagens do país, que se eternizaram pelas mãos de nossos pintores.

A beleza da Poesia que inicia esse texto, fica por conta da assonância, da aliteração, das sensações provocadas pela exata combinação de palavras. Na Arte, o Belo é o resultado das cores e das formas, em perfeito arranjo, tão harmônicas quanto as notas de uma canção. O Belo circula pelo campo das sensações, é fonte de infindável deleite e conduz o coração ao êxtase.

Fig. 18 – Vista Parcial da Cidade de Nossa Senhora do Desterro, Victor Meirelles, 1847. Museu Victor Meirelles. Fig. 19 – Batalha dos Guararapes, Victor Meirelles, 1879. Museu Victor Meirelles.

1 Vídeo e tour virtual do Palácio da Liberdade:
www.circuitoculturalliberdade.com.br/plus/modulos/listas/

2 Não foram encontrados registros do ano de nascimento e de morte do escultor Frederico Pellarin.

3 A palavra tenebrismo é derivada de treva, do latim, e se refere ao grande contraste entre o claro e o escuro, técnica utilizada pelos artistas do Barroco, que permaneceu durante o Rococó e o Romantismo. É necessário, para tanto, que o artista tenha profundos conhecimento de perspectiva, de luz e de sombra. Essa técnica proporciona a sensação final de monumentalidade, uma vez que o movimento dos corpos é intensificado pela iluminação direta, em contraste com as áreas escurecidas.

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Referências:

  1. ALVES, Castro. Nossos Clássicos. Rio de Janeiro: Editora Agir, 1980.
  2. ÁZEVEDO, Álvares de. Nossos Clássicos. Rio de Janeiro: Editora Agir, 1977.
  3. BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.
  4. CHILVERS, Ian; ZACZEK, Iain; WELTON, Jude; BUGLER, Caroline; MACK, Lorrie. História Ilustrada da Arte. Publifolha, S.Paulo, 2014.
  5. DIAS, Gonçalves. Nossos Clássicos. Rio de Janeiro: Editora Agir, 1980.
  6. EAGLETON, Terry. A Ideia de Cultura. São Paulo: Editora UNESP, 2005.
  7. FARTHING, Stephen. Tudo Sobre a Arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.
  8. GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.
  9. HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. Martins Fontes, São Paulo, 2003.
  10. MASSAUD, Moisés. A Literatura Brasileira através dos Textos. São Paulo Ed.Cultrix, 2000.
  11. SCHILLER, Friedrich Von. A Educação Estética do Homem, São Paulo: Ed. Iluminuras, 2002.

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As figuras:

Fig. 1 – Igreja da Sé em São Paulo. Foto de Rosângela Vig.

Fig. 2 – Igreja da Sé em São Paulo. Foto de Rosângela Vig.

Fig. 3 – Confeitaria Rocco. Foto de Benjamim Mattos.

Fig. 4 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura com o Atlante Jovem, do lado esquerdo e Atlante Velho, do lado direito da imagem. Foto de Benjamim Mattos.

Fig. 5 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura com o Atlante Jovem, do lado direito e Atlante Velho, do lado esquerdo da imagem. Foto de Benjamim Mattos.

Fig. 6 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura Atlante Velho. Foto de Benjamim Mattos.

Fig. 7 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura Atlante Velho. Foto de Benjamim Mattos.

Fig. 8 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura Atlante Velho. Foto de Benjamim Mattos.

Fig. 9 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura Atlante Jovem. Foto de Benjamim Mattos.

Fig. 10 – Confeitaria Rocco, detalhe do frontão da fachada escultura representando a Luz, com uma imagem de mulher sobre a lira. Foto de Benjamim Mattos.

Fig. 11 – Confeitaria Rocco, detalhe do frontão da fachada escultura representando a Luz, com uma imagem de mulher sobre a lira. Foto de Benjamim Mattos.

Fig. 12 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada. Foto de Benjamim Mattos.

Fig. 13 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada. Foto de Benjamim Mattos.

Fig. 14 – A Degolação de São João Batista, Victor Meirelles, 1855. Museu Victor Meirelles.

Fig. 15 – Estudo para Passagem de Humaitá, Victor Meirelles, 1855. Museu Victor Meirelles.

Fig. 16 – Esboço para Passagem de Humaitá, Victor Meirelles, 1868-72. Museu Victor Meirelles.

Fig. 17 – O Naufrágio da Medusa, Victor Meirelles, 1857. Museu Victor Meirelles.

Fig. 18 – Vista Parcial da Cidade de Nossa Senhora do Desterro, Victor Meirelles, 1847. Museu Victor Meirelles.

Fig. 19 – Batalha dos Guararapes, Victor Meirelles, 1879. Museu Victor Meirelles.

Fig. 1 – Igreja da Sé em São Paulo. Foto de Rosângela Vig. Fig. 2 – Igreja da Sé em São Paulo. Foto de Rosângela Vig. Fig. 3 – Confeitaria Rocco. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 4 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura com o Atlante Jovem, do lado esquerdo e Atlante Velho, do lado direito da imagem. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 5 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura com o Atlante Jovem, do lado direito e Atlante Velho, do lado esquerdo da imagem. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 6 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura Atlante Velho. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 7 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura Atlante Velho. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 8 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura Atlante Velho. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 9 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada escultura Atlante Jovem. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 10 – Confeitaria Rocco, detalhe do frontão da fachada escultura representando a Luz, com uma imagem de mulher sobre a lira. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 11 – Confeitaria Rocco, detalhe do frontão da fachada escultura representando a Luz, com uma imagem de mulher sobre a lira. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 12 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 13 – Confeitaria Rocco, detalhe da fachada. Foto de Benjamim Mattos. Fig. 14 – A Degolação de São João Batista, Victor Meirelles, 1855. Museu Victor Meirelles. Fig. 15 – Estudo para Passagem de Humaitá, Victor Meirelles, 1855. Museu Victor Meirelles. Fig. 16 – Esboço para Passagem de Humaitá, Victor Meirelles, 1868-72. Museu Victor Meirelles. Fig. 17 – O Naufrágio da Medusa, Victor Meirelles, 1857. Museu Victor Meirelles. Fig. 18 – Vista Parcial da Cidade de Nossa Senhora do Desterro, Victor Meirelles, 1847. Museu Victor Meirelles. Fig. 19 – Batalha dos Guararapes, Victor Meirelles, 1879. Museu Victor Meirelles.

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Romantismo por Rosângela Vig https://www.obrasdarte.com/romantismo-por-rosangela-vig/ https://www.obrasdarte.com/romantismo-por-rosangela-vig/#comments Tue, 16 May 2017 22:52:21 +0000 http://www.obrasdarte.com/?p=35352-pt Você também pode ouvir esse artigo na voz da própria Artista Plástica Rosângela Vig:

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Que espírito culpado, em seu bosque trevoso,
Não ouviu, daquele hino, o apelo clamoroso?
Dois só; caíram, pois o céu não dá perdão
A quem só ouve o bater do próprio coração.
A angélica donzela e o seráfico amado…
Mas onde estava o amor, o cego amor
Sempre fiel ao Dever austero? (Esforço vão
É buscá-lo na célica amplidão).
Sem guia, o amor caiu desnorteado,
Por entre “prantos de perfeita dor”.
(POE, 1999, p.42)

Al Aaraaf é o mais longo poema de Edgar Allan Poe (1809-1849). Nesse pequeno trecho é possível compreender porque o escritor se tornou o maior representante do Romantismo, nos Estados Unidos, e sua obra, mundialmente reconhecida. Seu estilo foi único, seu escrever deixou à mostra o drama, o mistério e a emoção. Seu romantismo descomedido foi, muitas vezes, pessimista, sombrio e fazia referências à vida após a morte. A um espírito imaginativo o escritor ainda reuniu, nesse poema, elementos mitológicos e fatos históricos.

Fig. 1 – Igreja de Saint Patrick, Nova York, Estados Unidos, Miguel Vig Filho.

Fig. 1 – Igreja de Saint Patrick, Nova York, Estados Unidos, Miguel Vig Filho.

A Revolução Industrial e a Revolução Francesa, no final do século XVIII, modificaram o panorama da Europa, do século XIX. Na Arte, foram vários os movimentos que surgiram, fomentados por essas transformações, entre eles, o Romantismo, que acabou por adquirir forças e transitar pela Política, pela Filosofia, pela Música, pela Literatura e pelas Artes. No feitio, ficaram à mostra os traços da sensibilidade, dos exageros, do subjetivismo, das paixões desenfreadas e do virtuosismo. A Arte estreitava seus laços com a Poesia e com a Literatura, por meio das histórias medievais e heroicas; e os ideais nacionalistas passaram a ser valorizados.

Fig. 2 – Igreja de Saint Patrick, Nova York, Estados Unidos, Miguel Vig Filho.

Fig. 2 – Igreja de Saint Patrick, Nova York, Estados Unidos, Miguel Vig Filho.

Para alguns estudiosos, há uma ligação entre o Neoclássico e o Romantismo, uma vez que, de diferentes formas, é comum a ambos, a busca por um ideal. Quanto à forma, o estilo romântico contrariava o racionalismo e se opunha ao equilíbrio e ao conservadorismo do Neoclássico. Abria-se, com isso, espaço para a exteriorização das emoções do indivíduo, promovendo a valorização do espírito criativo e da imaginação. Coube ao artista, permitir que a liberdade se apoderasse de seu espírito e que o levasse a um criar independente.

Fig. 3 – Igreja de Saint Patrick, Nova York, Estados Unidos, Miguel Vig Filho.

Fig. 3 – Igreja de Saint Patrick, Nova York, Estados Unidos, Miguel Vig Filho.

Aquilo que eu dizia há pouco da pintura pode, por certo, aplicar se à poesia. Trata-se apenas de sentir o que é primoroso e ousar exprimi-lo, e isto é, para ser exato, dizer muito em poucas palavras. (GOETHE, 2009, p.30)

A Arquitetura

Esse amor, essa fidelidade, essa paixão não é, pois uma ficção do poeta! Ela vive, ela existe, e em seu estado mais puro, entre a classe de homens que denominamos incultos e nos parecem tão brutos às vezes. (GOETHE, 2009, p.121)

A autonomia deu asas à imaginação dos arquitetos e século XIX foi marcado pelo revivalismo estético. O ecletismo e a liberdade deixaram os artistas livres para perambularem por outros tempos, trazendo de volta a precisão grega e romana que se viu no Neoclássico. No Romantismo, os ideais, o nacionalismo e os exageros foram associados à Idade Média, retomando-se com isso, os estilos Românico e Gótico. Aos arquitetos, coube divagar pelos caminhos do sonho e da fantasia, principais atributos românticos.

Fig. 4 – Interior da Igreja de Saint Patrick, Nova York, Estados Unidos, Miguel Vig Filho.

Fig. 4 – Interior da Igreja de Saint Patrick, Nova York, Estados Unidos, Miguel Vig Filho.

Na França, os livros de Victor Hugo 1 (1802-1885), O Corcunda de Notre Dame e Os Miseráveis, podem ter servido de inspiração para as construções da época. A ambientação das obras do escritor levou o arquiteto François Christian Gau (1790-1853) à construção da Basílica de Santa Clotilde, em Paris, finalizada depois, por Théodore Ballu (1817-1885). A igreja, erguida entre 1846 e 1857, foi uma das primeiras edificações neogóticas, característica que fica nítida na forma dos arcos, das portas, e das janelas; nas altas torres de quase 70 metros de altura, que proporcionam uma sensação final de verticalidade. No interior, os vitrais e o órgão construído pelo famoso organista francês da época, Cavaillé-Coll (1811-1889) parecem conduzir a outros tempos.

Fig. 5 – Águia com asas e bico abertos, Antoine-Louis Barye, data do modelo desconhecida, fundida após 1862, em bronze. National Gallery of Art, Washington. Presente de Elizabeth L. Klee.

Fig. 5 – Águia com asas e bico abertos, Antoine-Louis Barye, data do modelo desconhecida, fundida após 1862, em bronze. National Gallery of Art, Washington. Presente de Elizabeth L. Klee.

Entre as várias construções neogóticas da Alemanha, a primeira foi a Igreja Friedrichswerder, de Karl Friedrich Schikel (1781-1841), construída entre 1824 e 1830, em Berlim. É também em Berlim, o distrito Neogótico, do arquiteto Friedrich Waesemann (1813-1879). O estilo ainda está presente na Catedral de Colônia, na cidade alemã, de mesmo nome, cuja construção teve início em 1248 e terminou somente em 1880.

Fig. 6 – Dromedário da Algéria, Antoine-Louis Barye, data do modelo desconhecida, fundida provavelmente após 1862, bronze. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon.

Fig. 6 – Dromedário da Algéria, Antoine-Louis Barye, data do modelo desconhecida, fundida provavelmente após 1862, bronze. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon.

Uma das mais importantes igrejas de Nova York, a Catedral de Saint Patrick (Fig. 1), de James Renwick Jr. (1818-1895) também é neogótica e se destaca em meio à grande cidade, rodeada de prédios modernos. Construída entre 1858 e 1878, a edificação pode acomodar três mil pessoas e ocupa uma quadra inteira da cidade. A sensação verticalidade e de ascensão para Deus fica por conta das imensas torres, que passam dos 100 metros de altura; ou ainda do telhado na forma de cruz. Remetem à religiosidade, os meios arcos ogivais (Figuras 3 e 4), que lembram as mãos em prece e fazem uma referência ao estilo que veio da Idade Média, e se completa a beleza nos vitrais, no piso e nas esculturas.

Fig. 7 – Garota com uma Concha, Jean Baptiste Carpeaux, esculpida entre 1863 e 1867, em mármore. National Gallery of Art, Washington. Samuel H. Kress Coleção.

Fig. 7 – Garota com uma Concha, Jean Baptiste Carpeaux, esculpida entre 1863 e 1867, em mármore. National Gallery of Art, Washington. Samuel H. Kress Coleção.

Mas a liberdade e o ecletismo da Arquitetura se associou ao movimento, juntou-se às formas orgânicas e ao exótico. O Neogótico ainda está presente na Inglaterra, no Castelo de Westminster (1840-1888); na Baviera, Alemanha, o Castelo Neuschwanstein (1870-1892) é Neorromânico; na França, a Ópera de Paris, de Charles Garnier (1825-1898) é Neobarroca; em Portugal, o Palácio Nacional da Pena, herdou os estilos neogótico, neoislâmico e neorrenascentista.

Fig. 8 – Árabes brigando nas Montanhas, Eugène Delacroix, 1863. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Fund.

Fig. 8 – Árabes brigando nas Montanhas, Eugène Delacroix, 1863. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Fund.

A Revolução Industrial estimulou o uso de novas tecnologias e de novos materiais, como o ferro e o vidro. Nas construções dessa época, o uso da estrutura de metal, demonstrou a versatilidade desse material e antecipou a Art Nouveau. Mas talvez, o traço maior do período, tenha sido a espontaneidade que permitiu aos arquitetos navegarem livremente pela criatividade, abrindo espaço para o moderno.

Fig. 9 – Guerreiro nu com lança, Théodore Gericault, 1816. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Fig. 9 – Guerreiro nu com lança, Théodore Gericault, 1816. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

A Escultura

O curso dos acontecimentos deu ao gênio da época, uma direção que ameaça afastá-lo mais e mais da Arte do ideal. Esta tem de abandonar a realidade e elevar-se, com decorosa ousadia, para além da privação, pois a Arte é filha da liberdade e quer ser legislada pela necessidade do espírito, não pela privação da matéria. (SCHILLER, 2002, p.21)

O Romantismo exagerou em expressividade e em dramatismo. A fantasia, o heroísmo e a Literatura andaram de mãos dadas, e resultado não poderia ser mais belo. No entalhe, as esculturas transbordaram em emoção, repletas de expressividade e a sensação foi a de que as imagens se materializaram. Na forma, as esculturas exacerbaram em movimento; e os temas passearam pela fantasia, exaltaram o herói, a natureza e a imaginação do artífice. Os materiais foram o bronze, o mármore e a madeira.

Fig. 10 – Paisagem de Primavera no Norte, Caspar David Friedrich, 1825. National Gallery of Art, Washington. Patrons' Permanent Fund.

Fig. 10 – Paisagem de Primavera no Norte, Caspar David Friedrich, 1825. National Gallery of Art, Washington. Patrons’ Permanent Fund.

Entre os principais escultores franceses estão Antoine-Louis Barye (1796-1875), seguido de Jean-Baptiste Carpeaux (1827-1875) e de François Rude (1784-1855), que teve participação no alto relevo do Arco do Triunfo de Paris, com a obra A Partida dos Voluntários.

Fig. 11 – A Balsa de Rotterdam, Joseph Mallord William Turner, 1833. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção.

Fig. 11 – A Balsa de Rotterdam, Joseph Mallord William Turner, 1833. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção.

Na figura 5, Barye deixou nítida a grande característica de sua obra, que foi a representação de animais, embora seu trabalho tenha também passado pela anatomia. A águia com asas abertas, parece estar pronta para alçar voo ou para um ataque. Em sua outra obra um cavalo atacado por um tigre faz inútil tentativa de se levantar. Ele se contorce de dor, ao perceber a morte iminente. O ênfase na expressão dispensa detalhes, como foi o pensamento do escultor do período.

Fig. 12 – Veneza: A Alfândega e San Giorgio Maggiore, Joseph Mallord William Turner, 1834. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção.

Fig. 12 – Veneza: A Alfândega e San Giorgio Maggiore, Joseph Mallord William Turner, 1834. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção.

Já a Garota com a Concha, na figura 7, de Carpeaux, apresenta uma expressão alegre e jovial, exibe-se com graça e leveza. Completa-se a inocência da cena, um sorriso da menina, que parece se divertir com a brincadeira, mesclando seus cachos às ondulações da concha que segura na cabeça. Entre as famosas obras de Carpeaux, estão Hugolino e seus filhos, exposta no Metropolitan, Nova York; e a Dança, no Museu de Orsay, Paris. Com poucas posses, o escultor chegou ter vários empregos e a pagar cursos para se aperfeiçoar. Sua liberdade e a possibilidade de explorar sua criatividade entretanto, vieram somente com o reconhecimento de seu trabalho.

Fig. 13 – Marinheiros carregando carvão à luz da lua, Joseph Mallord William Turner, 1835. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção.

Fig. 13 – Marinheiros carregando carvão à luz da lua, Joseph Mallord William Turner, 1835. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção.

A Pintura

O que me consome o coração é essa força dominadora que se oculta sob a totalidade da natureza e que nada produz que não destrua o que a rodeia e, por fim, a si mesmo… E assim vagueio atormentado por aí. Céu, terra e suas forças ativas em volta de mim! Nada vejo senão um monstro que engole eternamente e eternamente volta a mastigar e a engolir. (GOETHE, 2009, p.82)

A Literatura romântica exaltou a paixão, o amor platônico e a natureza, rejeitou a moderação e se deixou levar pelos exageros. Na Pintura, esse descomedimento ficou por conta dos espaços que passaram a ser grandiosos, abertos, próximos da natureza e do exótico. Os sentimentos passaram a ser evidenciados e valorizados. O lirismo das cenas bucólicas eram uma rejeição ao conservadorismo. Ficou a nítida sensação de espiritualidade, de cor, de anseio pelo infinito (BAUDELAIRE in BLUGLER, 2014, p.235). O Romantismo se tornou distante do Neoclássico.

Fig. 14 – O Rapto da Proserpina, Joseph Mallord William Turner, 1839. National Gallery of Art, Washington. Presente de Mrs. Watson B. Dickerman.

Fig. 14 – O Rapto da Proserpina, Joseph Mallord William Turner, 1839. National Gallery of Art, Washington. Presente de Mrs. Watson B. Dickerman.

Antecipando a Arte Moderna, a cor passou a ser usada com maior intensidade, por meio de manchas, com linhas sinuosas, sugerindo o drama e o dinamismo, sem preocupação com a exatidão das formas. Mas o Romantismo ainda perambulou pelos diversos países, com diferentes feições. Na França, Eugène Delacroix (1798-1863) e Théodore Géricault (1791-1824) enfatizaram a cor e o heroísmo. A religiosidade e a precisão foram as marcas do estilo, na Alemanha, com Caspar David Friedrich (1774-1840). Na Inglaterra, William Turner (1775-1851) acentuou a mancha de cor e William Blake (1757-1827) exagerou na excentricidade. E as imagens sombrias de Francisco de Goya (1746-1828) foram as grandes representações românticas na Espanha. A Arte se tornava sublime.

Fig. 15 – A Alfândega e Santa Maria da Saúde, Veneza, Joseph Mallord William Turner, 1843. National Gallery of Art, Washington. Dado em memória do governador Alvan T. Fuller by The Fuller Foundation, Inc.

Fig. 15 – A Alfândega e Santa Maria da Saúde, Veneza, Joseph Mallord William Turner, 1843. National Gallery of Art, Washington. Dado em memória do governador Alvan T. Fuller by The Fuller Foundation, Inc.

Pintada um pouco antes da morte de Delacroix, a obra Árabes lutando nas Montanhas (Fig. 8), deixou a clara dramatização de uma luta. Num primeiro plano da cena, um cavalo se contorce, no chão; o cavaleiro e a carga estão caídos, evidenciando um combate. Num segundo plano, há pessoas correndo, com armas e sobre cavalos. No terceiro plano, o solo rochoso conduz a um castelo, ao fundo da cena. A imagem se completa com o uso impecável da cor, no azul do céu, no vermelho e no branco das roupas dos personagens, contrastando com os tons pasteis do solo e da montanha.

Fig. 16 – A Última Ceia, William Blake, 1799. National Gallery of Art, Washington. Rosenwald Coleção.

Fig. 16 – A Última Ceia, William Blake, 1799. National Gallery of Art, Washington. Rosenwald Coleção.

Considerado o precursor do Impressionismo, Turner representou muito bem o Romantismo. Sua forma de trabalhar com a cor, em manchas, lembra imagens embaçadas, nuvens em movimento, anunciação de tempestades e, acima de tudo, a pequenez humana diante da grandiosidade da natureza. Na figura 11, o mar e o céu parecem conspirar contra os barcos em movimento. A desordem das nuvens e a agitação da água são prenúncios das forças descomunais da natureza. São arrebatadores, na Veneza de Turner (Fig. 12) a justeza do azul do céu e seu reflexo no mar. É onde está espírito da obra; é o que conduz o olhar para dentro da cena e convida a perceber até mesmo o calor que o sol irradia, em sua tentativa de se expor, em meio às ralas nuvens. A cena dos marinheiros carregando carvão (Fig. 13) é embaçada e o protagonista é a lua. Sua luz é gradativa, absorve, aos poucos, a paisagem, convergindo o olhar para o centro. O mar é apenas um espelho da claridade, dos barcos e da vida. Foi impecável o uso das técnicas de perspectiva e de ponto de fuga. A inexatidão das imagens, a intensidade da cor, as linhas sinuosas e os efeitos da luz natural, são os traços inconfundíveis de Turner, que mais tarde foram explorados pelos impressionistas.

Fig. 17 – Don Antonio Noriega, Francisco de Goya, 1801. National Gallery of Art, Washington. Samuel H. Kress Coleção.

Fig. 17 – Don Antonio Noriega, Francisco de Goya, 1801. National Gallery of Art, Washington. Samuel H. Kress Coleção.

E talvez tenham vindo de Goya as imagens mais chocantes do Romantismo. A liberdade estética deixou clara a indignação do artista, diante das injustiças e da opressão, quando a Espanha foi invadida pelas tropas de Napoleão, que mandou fuzilar os rebeldes, em 1808. Sua revolta contra os opressores o levou a produzir a obra Três de Maio de 1808 2 (Fig. 20), cujo tema inspirou Picasso, em Guernica, de 1937. Na obra de Goya, ficou impresso o horror e o medo dos civis, encurralados, em meio à escuridão da noite, ao lado de corpos empilhados. Intensificam o caráter expressivo da obra, o sangue jorrando no chão e o homem desarmado, ao centro, de braços abertos, aterrorizado. Por meio da dramaticidade, o artista deixou claro seu estado de espírito e sua aversão à tirania. Goya trabalhou com os efeitos de luz, com a intensidade cromática, e com a cor em manchas; mas sobretudo valorizou e exaltou as emoções, principal caráter do Romantismo.

Não vejo linhas ou detalhes, não há razão para
meu pincel ver mais que eu.
(GOYA in BUGLER, 2014, p.245)

Considerações Finais

Por que é que as coisas tem de ser assim, e o que faz a felicidade do homem se transformar também na fonte de sua desgraça.
A plena e cálida sensibilidade de meu coração para com a natureza viva, em que me inundava de tantos deleites, a ponto de fazer com que o mundo a meu redor se tornasse um paraíso, transformou-se agora, para mim, num insuportável carrasco, num gênio torturador, que me persegue por toda a parte. (GOETHE, 2009, pp.79, 80)

Fig. 18 – Jovem usando mantilha e basquina, Francisco de Goya, 1800-1805. National Gallery of Art, Washington. Presente de Mrs. P.H.B. Frelinghuysen.

Fig. 18 – Jovem usando mantilha e basquina, Francisco de Goya, 1800-1805. National Gallery of Art, Washington. Presente de Mrs. P.H.B. Frelinghuysen.

É da liberdade que fala a Arte do século XIX, mas sobretudo do idealismo e dos valores éticos, porque trouxe à tona emoções, valores e princípios. Para Schiller (1759-1805), a liberdade estética seria capaz de promover um aprimoramento da ética e da moral. O escritor alemão acreditava que,

No estado físico o homem apenas sofre o poder da natureza; liberta-se deste poder no estado estético; e o domina no estado moral. Que é o homem antes de a beleza suscitar-lhe o prazer livre e a forma serena abrandar-lhe a vida selvagem? Eternamente uniforme em seus fins, alternando eternamente em seus juízos, egoísta sem ser ele mesmo, desobrigado sem ser livre, escravo sem servir uma regra. (SCHILLER, 2002, p.119)

E Schiller estava certo. Para ele, a educação seria uma forma de equilíbrio da sociedade e o caminho estava na Arte e na Estética. Isso porque a contemplação de uma obra nos coloca em contato com os sentimentos do bem e nos suaviza o estado selvagem. Pelo Belo, o espírito é conduzido à liberdade, e por consequência, ao estado ético.

Fig. 19 – Senhora Sabasa Garcia, Francisco de Goya, 1806-1811. National Gallery of Art, Washington. Andrew W. Mellon Coleção.

Fig. 19 – Senhora Sabasa Garcia, Francisco de Goya, 1806-1811. National Gallery of Art, Washington. Andrew W. Mellon Coleção.

O Romantismo ainda deixou suas marcas na Literatura e, em 1774, Goethe (1749-1832) abalou a sociedade alemã, com os Sofrimentos do Jovem Werther. O amor platônico, a paixão devastadora e a tristeza profunda de Werther podem ter inspirado os suicídios que ocorreram na Alemanha, na época. Na Inglaterra, Lord Byron (1788-1824) produzia o poema Don Juan (1818-1823); e Horace Walpole (1717-1797) iniciava o romance gótico com O Castelo de Otranto (1764). Na França, A Bela e o Monstro, a versão mais antiga para A Bela e a Fera foi em 1756, por Jeanne-Marie LePrince de Beaumont (171-1780) que adaptou o tradicional conto de fadas de Gabrielle-Suzanne Barbot (1695-1755). Ainda na França, Victor Hugo (1802-1885) lançava, em 1831, O Corcunda de Notre-Dame e em 1862, Os Miseráveis, que teve sete mil exemplares vendidos em 24 horas. Nos Estados Unidos, Edgar Allan Poe se tornava um dos maiores representantes do Romantismo sombrio, por meio da melancolia e da irracionalidade.

Mas em meio a tanta riqueza desse período, o principal legado foi o espírito livre e apaixonado pela verdade e pelo bom. A Arte do século XIX se tornava um meio de expor ideais, de deixar estampadas as questões éticas e morais. Tais condições deixaram traços que mudariam para sempre o sentido da Estética e que acabariam por culminar na Arte Moderna, no século XX.

Fig. 20 – Os Fuzilamentos de 3 de maio, Francisco de Goya, 1814. Museo del Prado.

Fig. 20 – Os Fuzilamentos de 3 de maio, Francisco de Goya, 1814. Museo del Prado.

E é de Edgar Allan Poe o poema que termina esse texto.

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais.
“Uma visita”, eu me disse, “está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais.”

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu queria a madrugada, toda a noite aos livros dada
Para esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais –
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
“É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
É só isto, e nada mais”.
(POE, 2008, p.45)

É certo em todo caso, que nesse mundo não há coisa mais necessária ao homem do que o amor. (GOETHE, 2009, p.78)

1 Victor Hugo foi escritor e atuou na política. Suas obras mais famosas, O Corcunda de Notre Dame (1831) e Os Miseráveis (1862).

2 Vídeo sobre a obra Os Fuzilamentos de 3 de maio, Francisco de Goya, do Museu do Prado: www.museodelprado.es/coleccion/obra-de-arte/el-3-de-mayo-en-madrid-o-los-fusilamientos/5e177409-2993-4240-97fb-847a02c6496c

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Referências:

  1. BAUDELAIRE, Charles. Sobre a Modernidade. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1997.
  2. BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.
  3. CHILVERS, Ian; ZACZEK, Iain; WELTON, Jude; BUGLER, Caroline; MACK, Lorrie. História Ilustrada da Arte. São Paulo: Publifolha, 2014.
  4. COSTA, Cláudio Manuel da. Poemas Escolhidos. Rio de Janeiro: Editora Saraiva, 2014.
  5. EAGLETON, Terry. A Idéia de Cultura. São Paulo: Editora UNESP, 2005.
  6. FARTHING, Stephen. Tudo Sobre a Arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.
  7. GOETHE, Johann Wolfgang. Os Sofrimentos do Jovem Werther. Porto Alegre: Ed. L & PM. 2009.
  8. GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.
  9. HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. Martins Fontes, São Paulo, 2003.
  10. MASSAUD, Moisés. A Literatura Brasileira através dos Textos. São Paulo Ed.Cultrix, 2000.
  11. PESSOA, Fernando. Mensagem – Obra Poética I. Porto Alegre: Ed. L & PM. 2006.
  12. POE, Edgar Allan. A Filosofia da Composição. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008. Tradução: Léa Viveiros de Castro.
  13. POE, Edgar Allan. Poemas e Ensaios. São Paulo: Editora Globo, 1999.
  14. POE, Edgar Allan. The Complete Poetry. New York: Penguin Group, 2008.
  15. SCHILLER, Friedrich Von. A Educação Estética do Homem. São Paulo: Ed. Iluminuras, 2002.
  16. SCHILLER, Friedrich Von. Fragmentos das Preleções sobre Estética. Belo Horizonte: Ed. UFMG – Departamento de Filosofia, 2004.
  17. VIG, Rosângela Araújo Pires. DA ARTE COMO COMUNICAÇÃO À COMUNICAÇÃO COMO ARTE. Comunicação, Cultura e Mídia, Uniso, Sorocaba: 2010. Disponível em:
    comunicacaoecultura.uniso.br/prod_discente/2010/pdf/Rosangela_Vig.pdf

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As figuras:

Fig. 1 – Igreja de Saint Patrick, Nova York, Estados Unidos, Miguel Vig Filho.

Fig. 2 – Igreja de Saint Patrick, Nova York, Estados Unidos, Miguel Vig Filho.

Fig. 3 – Igreja de Saint Patrick, Nova York, Estados Unidos, Miguel Vig Filho.

Fig. 4 – Interior da Igreja de Saint Patrick, Nova York, Estados Unidos, Miguel Vig Filho.

Fig. 5 – Águia com asas e bico abertos, Antoine-Louis Barye, data do modelo desconhecida, fundida após 1862, em bronze. National Gallery of Art, Washington. Presente de Elizabeth L. Klee.

Fig. 6 – Dromedário da Algéria, Antoine-Louis Barye, data do modelo desconhecida, fundida provavelmente após 1862, bronze. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon.

Fig. 7 – Garota com uma Concha, Jean Baptiste Carpeaux, esculpida entre 1863 e 1867, em mármore. National Gallery of Art, Washington. Samuel H. Kress Coleção.

Fig. 8 – Árabes brigando nas Montanhas, Eugène Delacroix, 1863. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Fund.

Fig. 9 – Guerreiro nu com lança, Théodore Gericault, 1816. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção.

Fig. 10 – Paisagem de Primavera no Norte, Caspar David Friedrich, 1825. National Gallery of Art, Washington. Patrons’ Permanent Fund.

Fig. 11 – A Balsa de Rotterdam, Joseph Mallord William Turner, 1833. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção.

Fig. 12 – Veneza: A Alfândega e San Giorgio Maggiore, Joseph Mallord William Turner, 1834. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção.

Fig. 13 – Marinheiros carregando carvão à luz da lua, Joseph Mallord William Turner, 1835. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção.

Fig. 14 – O Rapto da Proserpina, Joseph Mallord William Turner, 1839. National Gallery of Art, Washington. Presente de Mrs. Watson B. Dickerman.

Fig. 15 – A Alfândega e Santa Maria da Saúde, Veneza, Joseph Mallord William Turner, 1843. National Gallery of Art, Washington. Dado em memória do governador Alvan T. Fuller by The Fuller Foundation, Inc.

Fig. 16 – A Última Ceia, William Blake, 1799. National Gallery of Art, Washington. Rosenwald Coleção.

Fig. 17 – Don Antonio Noriega, Francisco de Goya, 1801. National Gallery of Art, Washington. Samuel H. Kress Coleção.

Fig. 18 – Jovem usando mantilha e basquina, Francisco de Goya, 1800-1805. National Gallery of Art, Washington. Presente de Mrs. P.H.B. Frelinghuysen.

Fig. 19 – Senhora Sabasa Garcia, Francisco de Goya, 1806-1811. National Gallery of Art, Washington. Andrew W. Mellon Coleção.

Fig. 20 – Os Fuzilamentos de 3 de maio, Francisco de Goya, 1814. Museo del Prado.

Fig. 1 – Igreja de Saint Patrick, Nova York, Estados Unidos, Miguel Vig Filho. Fig. 2 – Igreja de Saint Patrick, Nova York, Estados Unidos, Miguel Vig Filho. Fig. 3 – Igreja de Saint Patrick, Nova York, Estados Unidos, Miguel Vig Filho. Fig. 4 – Interior da Igreja de Saint Patrick, Nova York, Estados Unidos, Miguel Vig Filho. Fig. 5 – Águia com asas e bico abertos, Antoine-Louis Barye, data do modelo desconhecida, fundida após 1862, em bronze. National Gallery of Art, Washington. Presente de Elizabeth L. Klee. Fig. 6 – Dromedário da Algéria, Antoine-Louis Barye, data do modelo desconhecida, fundida provavelmente após 1862, bronze. National Gallery of Art, Washington. Coleção de Mr. and Mrs. Paul Mellon. Fig. 7 – Garota com uma Concha, Jean Baptiste Carpeaux, esculpida entre 1863 e 1867, em mármore. National Gallery of Art, Washington. Samuel H. Kress Coleção. Fig. 8 – Árabes brigando nas Montanhas, Eugène Delacroix, 1863. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Fund. Fig. 9 – Guerreiro nu com lança, Théodore Gericault, 1816. National Gallery of Art, Washington. Chester Dale Coleção. Fig. 10 – Paisagem de Primavera no Norte, Caspar David Friedrich, 1825. National Gallery of Art, Washington. Patrons’ Permanent Fund. Fig. 11 – A Balsa de Rotterdam, Joseph Mallord William Turner, 1833. National Gallery of Art, Washington. Ailsa Mellon Bruce Coleção. Fig. 12 – Veneza: A Alfândega e San Giorgio Maggiore, Joseph Mallord William Turner, 1834. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção. Fig. 13 – Marinheiros carregando carvão à luz da lua, Joseph Mallord William Turner, 1835. National Gallery of Art, Washington. Widener Coleção. Fig. 14 – O Rapto da Proserpina, Joseph Mallord William Turner, 1839. National Gallery of Art, Washington. Presente de Mrs. Watson B. Dickerman. Fig. 15 – A Alfândega e Santa Maria da Saúde, Veneza, Joseph Mallord William Turner, 1843. National Gallery of Art, Washington. Dado em memória do governador Alvan T. Fuller by The Fuller Foundation, Inc. Fig. 16 – A Última Ceia, William Blake, 1799. National Gallery of Art, Washington. Rosenwald Coleção. Fig. 17 – Don Antonio Noriega, Francisco de Goya, 1801. National Gallery of Art, Washington. Samuel H. Kress Coleção. Fig. 18 – Jovem usando mantilha e basquina, Francisco de Goya, 1800-1805. National Gallery of Art, Washington. Presente de Mrs. P.H.B. Frelinghuysen. Fig. 19 – Senhora Sabasa Garcia, Francisco de Goya, 1806-1811. National Gallery of Art, Washington. Andrew W. Mellon Coleção. Fig. 20 – Os Fuzilamentos de 3 de maio, Francisco de Goya, 1814. Museo del Prado.

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A Arte Neoclássica no Brasil por Rosângela Vig https://www.obrasdarte.com/a-arte-neoclassica-no-brasil-por-rosangela-vig/ https://www.obrasdarte.com/a-arte-neoclassica-no-brasil-por-rosangela-vig/#comments Mon, 03 Apr 2017 18:47:08 +0000 http://www.obrasdarte.com/?p=34431-pt Você também pode ouvir esse artigo na voz da própria Artista Plástica Rosângela Vig:

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

De teu canto a graça pura,
E a ternura não consigo;
Pois comigo a doce lira
Mal respira os sons do amor.
Quando as cordas lhe mudaste,
Ó feliz Anacreonte 1,
Da Meônia 2 viva fonte
Esgotaste o claro humor.
O ruído lisonjeiro
Dessas águas não escuto,
Onde geme dado a Pluto 3
O grosseiro habitador.

(ALVARENGA, Silva in MASSAUD, 2000, pp. 96,97)

Os elementos clássicos que seduziram a Arte do século XIX, na Europa, encantaram também o Brasil. Na poesia de Silva Alvarenga (1749-1814), do Arcadismo, o interesse pela Antiguidade fica claro na referência que faz, o poeta, a termos do período. Sua poesia abria caminho para o Romantismo no Brasil, mas ficava claro o formato árcade de seu texto, pela simplicidade, pela naturalidade e pela rejeição ao rebuscamento do Barroco. Enquanto o Arcadismo despontava na Poesia, a Arte brasileira se metamorfoseava para o Neoclássico, estilo que permaneceu até por volta de 1870.

Fig. 1 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat.

Fig. 1 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat.

Muitas mudanças ocorreram no Brasil, em 1808 e, uma delas foi chegada da Família Real. O Rio de Janeiro, onde a corte então se instalara, passou a ser o novo centro cultural e político do país. No campo artístico, as inovações da Europa chegaram junto com a Missão Artística Francesa, em 1816, encarregada e contratada para fundar e dirigir a Escola Real de Artes e Ofícios, no Rio de Janeiro. O grupo, composto por artistas, arquitetos, músicos, mecânicos, ferreiros e carpinteiros, era liderado pelo escritor Joachim Lebreton (1760-1819) e, entre os componentes, estavam o arquiteto Grandjean de Montigny (1776-1850); o paisagista Nicolas Antoine Taunay (1755-1830) e seu irmão, o escultor Auguste-Marie Taunay (1768-1824); o gravador de medalhas Charles-Simon Pradier (1783-1847); e o pintor Jean-Baptiste Debret (1768-1848). O grupo entretanto, encontrou obstáculos, como a resistência da tradição barroca, já enraizada no país; a escassez de recursos financeiros e de materiais; e as intrigas políticas.

Fig. 2 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat.

Fig. 2 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat.

Muitos dos ofícios que, no Brasil, antes eram passados de pessoa para pessoa, como a Arquitetura, a Escultura, a Pintura e o Desenho, passaram a ser estudados oficialmente na Escola de Artes, que ficou mais tarde, conhecida como a Academia Imperial de Belas Artes. O local é, atualmente, a Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Fig. 3 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat.

Fig. 3 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat.

Arquitetura

Este é o rio, a montanha é esta,
Estes são os troncos, estes os rochedos;
São estes ainda os mesmos arvoredos;
Esta é a mesma rústica floresta.
(COSTA, Cláudio Manuel da in MASSAUD, 2000, pp. 96,97)

Influenciada pelos modelos europeus, a Arte brasileira substituía, aos poucos, os exageros do Barroco, moldava-se para o academicismo e para a imitação dos clássicos. Não poderia ser diferente na Arquitetura. As igrejas passaram a ter um modelo mais comportado, menos rebuscado, voltado para a simplicidade da forma e para a racionalidade.

Fig. 4 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat.

Fig. 4 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat.

Por aqui, o Neoclássico deixou marcas no Rio de Janeiro, onde a família Real se instalou e em vários estados. E a Arquitetura do período se apresentou de dois modos. De um lado houve um Neoclássico oficial, aos moldes internacionais, com um nível complexo de influência, feito com material importado, para a corte, para os meios oficiais e para as classes mais altas. Surgiam os palácios. De outro lado, uma versão provinciana do estilo, com uma influência europeia mais superficial e de caráter imitativo dos grandes centros. No feitio, como os recursos daqui eram ainda escassos para a complexidade do padrão trazido da Europa, era necessário que os materiais fossem trazidos de fora. Quanto às inovações, as áreas externas passaram a ser valorizadas; foram feitos aqui, os primeiros jardins planejados; e a palmeira imperial passou a ser utilizada como elemento do paisagismo. A decoração dos espaços internos foi valorizada, com os revestimentos, a pintura com cores suaves, os tons pastéis e a utilização de refinados objetos. E a beleza do Neoclássico serviu de inspiração para edificações em vários estados do Brasil.

Fig. 5 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat.

Fig. 5 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat.

No Rio de Janeiro, entre as construções desse estilo, estão o Palácio Imperial, a Casa da Marquesa de Santos, o Palácio do Itamaraty, o Palácio do Catete, o Museu Nacional Brasileiro, além de casas em fazendas enriquecidas pelo café, cujos interiores se aproximavam muito dos padrões da corte.

Fig. 6 – Teatro de Santa Isabel, Recife, Pernambuco. Foto: César.

Fig. 6 – Teatro de Santa Isabel, Recife, Pernambuco. Foto: César.

O Palácio Imperial, também conhecido por Museu Imperial 4, foi a antiga residência de verão de Dom Pedro I. Sua construção, iniciada em 1845, terminou somente em 1862 e contou com a participação de importantes arquitetos da Academia Imperial de Belas Artes e com um lindo projeto paisagístico. No interior do imóvel, os pisos em madeira foram importados de várias províncias do império e há pisos em mármore Carrara, oriundos da Bélgica. Na forma, a clareza e a simplicidade neoclássicas estão presentes na fachada simétrica, com frontão triangular, que lembra as construções clássicas e renascentistas italianas. Nas paredes externas, o suave tom de rosa contrasta com a linhas brancas das janelas. As inferiores com detalhes em forma de arco; as superiores com detalhes retilíneos.

Fig. 7 – Palácio da Justiça, Recife, Pernambuco. Foto: César.

Fig. 7 – Palácio da Justiça, Recife, Pernambuco. Foto: César.

Na Bahia, um dos maiores ícones da fé cristã, a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim (Fig. 1), também seguiu os padrões da Arquitetura do período, em sua construção e em seu interior. Entre a beleza de sua azulejaria e dos afrescos, a construção conserva ainda em sua fachada, resquícios do Rococó.

Inaugurado em 1850, o Teatro de Santa Isabel (Fig. 6), em Recife, já recebeu várias celebridades e é um dos mais belos do país. Vários recursos tecnológicos foram implementados em suas reformas, mas se mantiveram as características originais que o tornaram um dos maiores representantes do Neoclássico, em Pernambuco. Atestam o estilo, o frontão triangular da fachada; os arcos e as colunas da entrada, alinhados com as janelas da parte superior; e as linhas e detalhes das paredes externas. Para seu feitio, foram importados mármore italiano, ferro francês e pedras portuguesas. E Recife guarda ainda como representantes do Neoclássico, o Palácio da Justiça (Fig. 7) além de outros prédios públicos e casarões.

Fig. 8 – Palácio da Justiça, Recife, Pernambuco. Foto: César.

Fig. 8 – Palácio da Justiça, Recife, Pernambuco. Foto: César.

Escultura

Onde, Enigma adorado,
Onde guias perplexo,
Confuso e pensativo
Da minha ideia o vacilante curso?
Que sombras, que portentos
Encobres a meus olhos,
Ó ignorado arcano,
Que lá dessa distância
Inspiras de teu raio esforço ativo?
(COSTA, 2014, p.135)

No Brasil Imperial, a vinda da Missão Francesa possibilitou que se oficializasse o ensino da Arte. O ofício de escultor, antes passado de pessoa para pessoa, passava a ter agora, uma metodologia acadêmica. Entre os professores indicados estavam Auguste-Marie Taunay e Marc Ferrez (1788-1850), posteriormente substituídos por Francisco Elídio Pânfiro (1823-1852) e Francisco Manuel Chaves Pinheiro (1822-1884).

Fig. 9 – Palácio da Justiça, Recife, Pernambuco, esculturas. Foto: César.

Fig. 9 – Palácio da Justiça, Recife, Pernambuco, esculturas. Foto: César.

O feitio neoclássico fica à mostra na obra de Chaves Pinheiro 5, o escultor que mais produziu na segunda metade do século. O artista estudou na Academia Imperial de Belas Artes, foi aluno de Marc Ferrez e muitas de suas esculturas podem ser vistas em museus, igrejas e praças públicas. Seu esmero com a forma; sua predileção pelo estudo de figuras humanas e pelo figurativo, ficam claros em sua obra mais importante, a Escultura Equestre de Dom Pedro II (Fig. 10). Com 2,80 metros de altura e 3 metros de comprimento, o modelo, feito em gesso, não chegou a ser fundido em bronze, uma vez que Dom Pedro II, preocupado com sua boa imagem no país, recusou a homenagem em prol da construção de escolas. Na escultura, Dom Pedro se apresenta sobre um cavalo, em vestes militares, decoradas e com chapéu. Sua mão esquerda segura as rédeas do cavalo e a direita, estendida, saúda o povo pela vitória conseguida, na Rendição da Uruguaiana.

Entre as características neoclássicas, a obra faz uma alusão aos acontecimentos da época, de um Brasil ainda Imperial. A figura de Dom Pedro, solene, sobre seu cavalo, é imponente, austera e transparece o poder do imperador. A regularidade da forma, a harmonia da proporção e a correspondência com a realidade são os mesmos dos clássicos da Antiguidade, aqui retomados com uma ressignificação, atualizados para o modelo Neoclássico.

No Centro Histórico de Salvador, na Bahia, o Chafariz do Terreiro de Jesus faz uma alusão à Mitologia. A Escultura, de 1861, foi feita de ferro fundido e tem uma base circular, em mármore. Contornam a parte inferior da imagem, duas mulheres e dois homens seminus representando os quatro rios mais importantes da Bahia, o São Francisco, o Jequitinhonha, o Pardo e o Paraguaçu. Mais ao alto, na outra bacia do chafariz, ainda como resquícios do Rococó, foram esculpidas conchas, guirlandas e delfins. Mais acima, há quatro meninas com as mãos entrelaçadas; há uma bacia adornada com plantas e por último está a grandiosa imagem da Deusa Ceres, representativa da Abundância.

Fig. 10 – Escultura Equestre de Dom Pedro II, Francisco Manoel Chaves Pinheiro, 1866. Foto: Museu Histórico Nacional.

Fig. 10 – Escultura Equestre de Dom Pedro II, Francisco Manoel Chaves Pinheiro, 1866. Foto: Museu Histórico Nacional.

Pintura

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –
Os beijos merecidos da Verdade 6.
(PESSOA, 2006, p.68)

Do sonho nasce a obra, nos recônditos da alma distante, embriagada pelo que há em torno de si. Esse pensamento norteia a Arte e deve ter conduzido o pensamento de muitos artistas no Brasil do século XIX, porque a Pintura brasileira, de então, foi uma viagem pictórica nesse país onde a corte portuguesa estava se instalando. E o artista francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) foi um dos grandes realizadores desse acervo, na forma de Arte. Em seu livro, Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, o artista traçou e coloriu as imagens que via, do cotidiano, da sociedade da época, dos índios, dos escravos, dos animais e das lindas paisagens brasileiras. O próprio Debret foi instruído por seu primo e professor Jacques-Louis David (1748-1825), consagrado artista francês, do Neoclássico. O academicismo, orientou seu trabalho e de outros artistas que aqui se instalaram, no período, deixando para os séculos posteriores imagens que narraram uma época. Além de Debret, a Missão Francesa trouxe Nicolas-Antoine Taunay (1755-1830) e o alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858). Assim como a Escultura e a Arquitetura, a Pintura também passava a ser ensinada de forma oficial, aos moldes do Neoclássico europeu.

Quanto a Debret, suas obras fotografaram o Brasil de meados do século XIX, em seu cotidiano. Transitaram elas entre o Neoclássico e o Romantismo, na abordagem e por se oporem ao rigor Neoclássico, destacando e valorizando os temas nacionais. Embora instruído aos moldes acadêmicos, Debret trabalhou de forma livre, sem se preocupar em ser um espelho do que retratava.

Entre os artistas brasileiros que frequentaram a Academia Imperial de Belas Artes, estão Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879), que foi aluno de Debret; Victor Meirelles de Lima (1832-1903), que entrou na academia com apenas quatorze anos; e Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843-1905).

Orientado nas tradições acadêmicas, Victor Meirelles (1832-1903) transitou pelo Neoclassicismo, do qual herdou o equilíbrio, a padronização e o rigor da forma; a clareza e a exatidão anatômicas; e a preferência por temas históricos, como em sua conhecida obra, A Primeira Missa no Brasil, de 1860. Aventurando-se também pelo Romantismo, o artista acrescentou o sentimentalismo a seu estilo; carregou sua obra de uma identidade única e nacional, tratando de temas como o indianismo, em Moema.

O academicismo fica evidente em seu Estudo para Casamento da Princesa Isabel (Fig. 11), uma das obras encomendadas pela Família Imperial. A preocupação do artista com o feitio está presente na imagem, pelo uso da proporção, da simetria, dos contrastes entre claro e escuro, da riqueza de detalhes e do tema solene. As pessoas estão reunidas para o importante evento da nobreza, em um salão ricamente decorado. Há cortinas vermelhas, muito altas, com pregas e delicado desenho nas bordas. As paredes e o piso tem delicados desenhos e as lindas vestes dos convidados são aos moldes do período, destacando-se entre eles, o imperador e a nobreza.

Fig. 11 – Estudo para “Casamento da Princesa Isabel”, Victor Meirelles de Lima, 1864. Foto: Museu Victor Meirelles.

Fig. 11 – Estudo para “Casamento da Princesa Isabel”, Victor Meirelles de Lima, 1864. Foto: Museu Victor Meirelles.

Considerações finais

Os artistas da Missão Francesa foram além dos desígnios a eles atribuídos, de sistematizar o ensino das Artes. Inspirados pela exuberância de nossas paisagens naturais e por um Brasil em formação, permitiram que o espírito criativo agisse de forma livre. Incorporaram aos modelos europeus, o nosso próprio, disseminando com isso, mais que a Arte, mas a Cultura e a História do país.

A pedra bruta, a tela alva e as lindas construções foram os testemunhos desse gênio criativo. E o resultado não poderia ser outro senão a personalização de um período e de um estilo, que acabou por ser moldado à nossa realidade.

Com os resquícios do Barroco, do Rococó e adiantando-se ao Romantismo, o Neoclássico brasileiro se fez evidente, presenciou a Cultura em transformação e deixou um pouco de seu entalhe em cada pedacinho do Brasil. O Belo, aqui, se transformou num registro histórico e do modo de viver da época e dos costumes.

Recria sempre com valor
O pouco ou o muito que te resta.
Prossegue. Em resposta ao néscio
Brotará sempre uma flor escassa
Das pedras e da lama que procuram te alcançar.
Essa é a tua luta.
Tua vida é apagada. Acende o fogo nas geleiras que te cercam.
(CORALINA, 2004, p.244)

1 Anacreonte (563 a.C. – 478 a.C) foi um poeta lírico grego da Antiguidade. Sua poesia foi muito apreciada pelos gregos e imitada não somente na Antiguidade, mas até mesmo na época bizantina.

2 Meônia era o nome original do Reino da Lídia e chegou a ser uma província romana. O local, ficava onde hoje se situa a Turquia e era conhecido durante o final da Antiguidade e a Idade Média.

3 Na Mitologia grega, Pluto era o deus da riqueza e associado à generosidade.

4 Museu Imperial Petrópolis:
www.museuimperial.gov.br

5 Acervo da UNESP:
www.acervodigital.unesp.br/handle/unesp/66511

6 A Verdade a que se refere o poeta é um novo horizonte, um novo oceano, após passada a tormenta.

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Referências:

BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.

CHILVERS, Ian; ZACZEK, Iain; WELTON, Jude; BUGLER, Caroline; MACK, Lorrie. História Ilustrada da Arte. São Paulo: Publifolha, 2014.

CORALINA, Cora. Melhores Poemas. São Paulo: Global Editora, 2004.

COSTA, Cláudio Manuel da. Poemas Escolhidos. Rio de Janeiro: Editora Saraiva, 2014.

GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.

HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. Martins Fontes, São Paulo, 2003.

MASSAUD, Moisés. A Literatura Brasileira através dos Textos. São Paulo Ed.Cultrix, 2000.

PESSOA, Fernando. Mensagem – Obra Poética I. Porto Alegre: Ed. L & PM. 2006.

POE, Edgar Allan. A Filosofia da Composição. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008. Tradução: Léa Viveiros de Castro.

SCHILLER, Friedrich Von. A Educação Estética do Homem. São Paulo: Ed. Iluminuras, 2002.

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As figuras:

Fig. 1 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat.

Fig. 2 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat.

Fig. 3 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat.

Fig. 4 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat.

Fig. 5 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat.

Fig. 6 – Teatro de Santa Isabel, Recife, Pernambuco. Foto: César.

Fig. 7 – Palácio da Justiça, Recife, Pernambuco. Foto: César.

Fig. 8 – Palácio da Justiça, Recife, Pernambuco. Foto: César.

Fig. 9 – Palácio da Justiça, Recife, Pernambuco, esculturas. Foto: César.

Fig. 10 – Escultura Equestre de Dom Pedro II, Francisco Manoel Chaves Pinheiro, 1866. Foto: Museu Histórico Nacional.

Fig. 11 – Estudo para “Casamento da Princesa Isabel”, Victor Meirelles de Lima, 1864. Foto: Museu Victor Meirelles.

Fig. 1 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat. Fig. 2 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat. Fig. 3 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat. Fig. 4 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat. Fig. 5 – Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, Salvador, Bahia, interior em estilo neoclássico. Foto: Rhea Sylvia Noblat. Fig. 6 – Teatro de Santa Isabel, Recife, Pernambuco. Foto: César. Fig. 7 – Palácio da Justiça, Recife, Pernambuco. Foto: César. Fig. 8 – Palácio da Justiça, Recife, Pernambuco. Foto: César. Fig. 9 – Palácio da Justiça, Recife, Pernambuco, esculturas. Foto: César. Fig. 10 – Escultura Equestre de Dom Pedro II, Francisco Manoel Chaves Pinheiro, 1866. Foto: Museu Histórico Nacional. Fig. 11 – Estudo para “Casamento da Princesa Isabel”, Victor Meirelles de Lima, 1864. Foto: Museu Victor Meirelles.

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