The Doors – Site Obras de Arte https://www.obrasdarte.com Artes Plásticas e Galeria Virtual de Arte Thu, 25 Apr 2019 12:41:46 +0000 pt hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.9.8 https://www.obrasdarte.com/wp-content/uploads/2014/02/cropped-Logo-Obras-de-Arte-140-x-140-32x32.jpg The Doors – Site Obras de Arte https://www.obrasdarte.com 32 32 “A Aura Dionisíaca de Jim Morrison:” por Juliana Vannucchi https://www.obrasdarte.com/a-aura-dionisiaca-de-jim-morrison-por-juliana-vannucchi/ https://www.obrasdarte.com/a-aura-dionisiaca-de-jim-morrison-por-juliana-vannucchi/#comments Thu, 09 Aug 2018 13:47:00 +0000 https://www.obrasdarte.com/?p=47302-pt Juliana Vannucchi é graduada em Comunicação Social, licenciada em Filosofia e Editora-chefe do site Acervo Filosófico.

Juliana Vannucchi é graduada em Comunicação Social, licenciada em Filosofia e Editora-chefe do site Acervo Filosófico.

A dor é uma forma de acordarmos (…) Você sente sua força com a experiência da dor (…) ela é um sentimento – seus sentimentos fazem parte de você (…) (trecho de uma entrevista concedida à Lizze James – 1969).

O The Doors é uma das bandas mais populares da história do Rock And Roll. Foi formado em 1965, no estado da Califórnia (EUA) e tornou-se especialmente marcante pela figura do vocalista e poeta Jim Morrison, cujo comportamento era traçado pelo excesso de ousadias e de certas singularidades, além do grande abuso na ingestão de álcool e de drogas.

Morrison, além de conduzir a voz do The Doors, também possuía afinidades com outras artes além da música. Após intenso período de leitura durante a adolescência, em 1964 ingressou na UCLA e lá estudou cinema e teatro, ao lado de grandes nomes como, por exemplo, Francis Ford Copolla. Durante sua vida, teve dois livros de poesia publicados (ambos em 1969), sendo que o primeiro dividia-se em dois volumes: “The Lords/Notes on Vision” e “The New Creatures”. A primeira obra trata-se basicamente de impressões e reflexões de Morrison acerca de inúmeros aspectos que faziam parte de seu cotidiano, tal como pessoas, lugares ou até mesmo o cinema. Já o segundo, possui linhas construídas com mais emoção e carrega estruturas poéticas mais harmônicas. Posteriormente, os dois títulos foram compilados num único volume chamado “The Lords and The New Creatures” e após o falecimento do músico, outros livros de poesia foram lançados sob organização de seu amigo Frank Lisciandro e dos pais da namorada do músico. O primeiro volume póstumo lançado chamou-se “Wilderness” (1988) e o segundo foi intitulado como “The American Night” (1990), ambos tornaram-se enorme sucesso comercial.

Publicidade: Banner Luiz Carlos de Andrade Lima

Além do interesse pela prática artística, o músico lia muitos autores que o inspiravam. Apreciava obras de grandes nomes da literatura, tal como Franz Kafka, Rimbaud e Charles Baudelaire e William Blake. Aliás, o próprio nome da banda, “The Doors” (em português, “as portas”) que refere-se às “portas da percepção” foi escolhido por Morrison com base em um poema de autoria de Blake, que certa vez, escreveu: “Quando as portas da percepção se abrem, tudo parece ao homem tal como realmente é: infinito”. Outra característica que certamente fez parte da carga de conhecimento de Jim Morrison, foi a Filosofia, área com a qual possuia grande afinidade. Em biografias, comumente conta-se que o músico costumava ler obras de Nietzsche, Camus e Jean-Paul Sartre. Dentre estes filósofos mencionados, Morrisson parecia nutrir um interesse especial por Nietzsche, cujo pensamento foi uma de suas grandes inspirações e, aparentemente, o líder do The Doors tentou praticar em sua vida alguns elementos propostos nas obras do filósofo alemão, conforme veremos abaixo.

Em aspectos gerais, tanto no que diz respeito ao comportamento que teve tanto em seu cotidiano privado, quanto no cenário artístico, as atitudes de Jim foram extravagantes, inquietantes e, de certa forma, intrigantes. O músico colocou a liberdade como um dos pontos essenciais de suas produções artísticas, incentivando o público a também ser livre – ao extremo, fosse lá o que cada um compreendesse como “liberdade”. Não é possível sabermos se o vocalista do The Doors estava ciente (plena ou parcialmente) de que sua selvageria poderia trazer problemas, mas Jim parecia abraçar as consequências de suas extravagâncias com certa serenidade. Abusar de entorpecentes era uma atitude que fazia parte de seu cotidiano porque o artista gostava de experiências novas, de debruçar-se na plenitude de sua vida. Há uma letra (“Unhappy Girl”) que parece demonstrar bem essa maneira como o músico encarava a vida:

(…)

“Menina triste

Rasgue sua rede

Arrebente todas as suas grades

Derreta sua cela hoje mesmo

Você foi condenada a uma prisão

Que você mesma criou

(…)

Não perca a sua chance

De nadar no mistério

Você está morrendo numa prisão

Que você mesma criou”. – Livre tradução.

Na letra, vemos a exposição daquilo que Jim pretendia por intermédio sua arte: incentivar a liberdade, demolindo paradigmas. Grades estas, das celas que muitas pessoas criamos (ou nas quais nos inserimos) e que nós próprios podemos romper. O ser humano é livre para escolher, para tomar caminhos diversos e o faz. Porém, muitas vezes o faz sob influências externas, não de maneira pura e honesta, não como gostaria. É nesse momento em que surgem as celas que o aprisionam.

The Great Red Dragon and the Beast from the Sea, 1805. William Blake. National Gallery of Art, Washington. Coleção Rosenwald.

Obscenidades nos palcos, provocações à plateia, desafiar as autoridades e, a qualquer momento, proferir o que se encontrava em sua mente, foram alguns dos atos que Jim concretizou, mas que, como qualquer ação gera reação. Jim Morrison, certa vez, auto-entitulou-se como o “rei orgástico”, codinome cabível considerando que em muitos de seus shows, o músico empregava um comportamento traçado por uma sensualidade sem pudores. Aliás, foi justamente o excesso de apologias sexuais que praticamente comprometeu sua carreira, pois em uma das várias apresentações da banda, as consequências deste tipo de extrapolamento foram sérias. Conforme citado pelo jornal The Miami News (1969): “Agora seus dias estão contados, e o caminho para prendê-lo está totalmente aberto” (…) simulou ato de masturbação e abriu a braguilha num degradante espetáculo em que prevaleceram a linguagem chula e palavras de baixo calão (…). As consequências sociais geradas por este fato foram imensas. Jim Morrison foi manchete dos mais importantes meios de comunicação da época. Poucos dias após este show, o capitão da Divisão de Segurança da Polícia de Miami fez um pedido de prisão para o músico. Somado a isso, no mesmo período, Mike Levesque, um jovem católico, com apoio do presidente Nixon, deu início a um movimento chamado “Cruzada Pela Decência”, cujo um dos alvos era o vocalista do The Doors. Morrison defendia-se. Acreditava que sua música consistia numa experiência essencialmente catártica e que as apologias sexuais eram um dos inúmeros componentes desta finalidade musical: “A música é muito erótica. Uma de suas funções consiste em purgação catártica das emoções. Chamar nossa música de orgástica é o mesmo que dizer que somos capazes de levar as pessoas a um tipo de orgasmo emocional, por meio das letras e do som“. (Entrevista à Danny Sugerman). Lembremos que Morrison havia estudado teatro e cinema e, aparentemente, estas áreas refletiam o seu comportamento em cima dos palcos. A performance era fundamental para o músico. Ela precisava ser caprichada e qualquer elemento poderia fazer parte deste processo: “O sexo é apenas uma parte de minha performance. Existem milhares de outros fatores. É decerto importante, mas não creio que seja a coisa principal. Evidentemente é uma das bases naturais da música. Não pode ser separado“. (Entrevista à Mike Grant, Rave, 1968).

Os hábitos de Jim, muito provavelmente, em partes, possuíam sua inspiração no pensamento de um dos maiores filósofos que já existiu, e que ele muito apreciava: Friedrich Nietzsche. Para o pensador alemão, a arte se traduz em um antagonista no qual há o aspecto apolíneo, em oposição ao dionisíaco. O filósofo os define como sendo as duas formas do mundo estético: “O homem dotado de um espírito filosófico tem mesmo o pressentimento de que, por trás dessa realidade em que existimos e vivemos se oculta uma segunda bem diferente e que, por conseguinte, a primeira também não passa de uma aparência (…)” (NIETZSCHE, p. 46, 2013). Esse outro plano era o que Morrison almejava atingir por intermédio da sua arte hipnótica: o plano do novo, do desconhecido, do irregular, da desmedida, do oculto. Eis as “portas da percepção”- conforme o próprio Morrison certa vez declarou: “Há o conhecido, há o desconhecido e entre ambos há uma porta”. Pensando ainda dentro do conceito estético de Nietzsche, notamos que se encontra o combate entre a força da razão (apolínea) e a força do delírio (dionisíaca), sendo que esta última representa a afirmação da vida, aceitação dos instintos, e que molda o perfil do indivíduo que abraça a existência em sua plenitude, amando com tudo o que ela oferece, sejam coisas boas ou ruins. Essa última força seria o modo de vida que Morrison representava através de seu comportamento extravagante e delirante, e por meio de suas letras e melodias, que visavam levar os ouvintes para além de si mesmos, embriagá-los, libertá-los dos limites morais e conduzi-los para um estado de vida no qual não há pudores.

Dionísio é a figura que simboliza o delírio. Dionísio figura mitológica que representa a embriaguez. Filho de Zeus e da princesa Semele e o símbolo do caos, do insano, é o inesperado. É aquilo que se opõe ao racional, ao linear, ao conceitual, ao equilibrado. Através dos efeitos da embriaguez, objetos do inconsciente se manifestam e podem se expressar. É a intuição pura, a potência do êxtase que se contrapõe ao intelecto e ao equilíbrio do apolíneo. Jim Morrison, através de seus hábitos comportamentais, brindava o extase e talvez vivesse mais frequentemente no plano incosciente do que no consciente. Jim era essencialmente dionisíaco: agia com liberdade, entregava-se, sem pudores aos seus sentimentos, guiava-se pela emoção. Morrison vivia abraçado com seu lado mais insano. E esse comportamento dionisíaco, para ele, tinha um sentido, pois o vocalista acreditava que seu papel como vocalista de uma banda de Rock era muito grandioso e estava além de simplesmente cantar. Em uma entrevista, fez a seguinte declaração: “Penso na atividade do artista ou do xamã como um canal de escape. As pessoas projetam sobre ele suas fantasias e elas se tornam reais“. (Lizze James, 1969). Morrison, justamente buscava o êxtase obtido através do ritmo das músicas de sua banda.

Certa vez, num artigo intitulado “Apatia Pelo Demônio”, Mike Gershman indagou: “Mas o que está por trás deste demônio que supostamente corrompeu a juventude de Miami?”. Ele próprio respondeu nas linhas seguintes deste mesmo texto: “Ele (Jim Morrison) pega as pessoas numa dimensão mítica – como xamã, símbolo sexual, poeta e filósofo”. (Revista Rock, 1968). Ele paga as pessoas, enfim, através de sua potente aura dionisíaca.

Referências:

  1. MARSICANO, Alberto. Jim Morrison: por ele mesmo. São Paulo: Martin Claret, 2005.
  2. NIETZSCHE, Friedrich. O Nascimento da Tragédia. São Paulo: Editora Escala, 2013.
  3. SUGERMAN, Danny; HOPKINS, Jerry. Jim Morrison: Ninguém Sai Vivo Daqui. São Paulo: Novo Século, 2013.

.

.

JULIANA VANNUCCHI
Sorocaba – São Paulo
Facebook Perfil | Facebook Fan Page
Website Acervo Filosófico
E-mail: ju.vannucchi@hotmail.com

]]>
https://www.obrasdarte.com/a-aura-dionisiaca-de-jim-morrison-por-juliana-vannucchi/feed/ 1
“As Fendas Místicas das obras de William Blake” por Juliana Vannucchi https://www.obrasdarte.com/as-fendas-misticas-das-obras-de-william-blake-por-juliana-vannucchi/ https://www.obrasdarte.com/as-fendas-misticas-das-obras-de-william-blake-por-juliana-vannucchi/#comments Mon, 26 Mar 2018 20:22:03 +0000 http://www.obrasdarte.com/?p=41156-pt Juliana Vannucchi é graduada em Comunicação Social, licenciada em Filosofia e Editora-chefe do site Acervo Filosófico.

Juliana Vannucchi é graduada em Comunicação Social, licenciada em Filosofia e Editora-chefe do site Acervo Filosófico.

Foi por intermédio de Jim Morrison, vocalista do The Doors, que conheci William Blake, notável artista inglês do século XIX. Eu li duas biografias sobre o líder do Doors e em ambas, ainda que de maneira distinta, Blake, encontrava-se presente como uma das grandes influências do músico, afinal, foi justamente uma passagem textual escrita pelo artista e utilizada por Aldous Huxley que inspirou Morrison a nomear sua banda como “The Doors” (“As Portas”, em Português). Eis o referido trecho: “Quando as portas da percepção se abrem, as coisas parecem ao homem como realmente são: infinitas“.

Desde esse contato inicial que tive com o nome de William Blake, meu interesse por suas obras sempre foi crescente. O primeiro aspecto de seu legado artístico que me cativou foram suas telas, que são repletas de simbologias diversificadas e moldadas por uma aura profundamente mística. Admiro em suas pinturas as constantes aparições de figuras celestiais que tendem a despertar curiosidade e vislumbre no espírito daqueles que as contemplam. Além do meu apreço por seus quadros e desenhos, recentemente, buscando aproximar-me de suas produções textuais, aventurei-me na leitura de um livro intitulado “O Casamento do Céu e do Inferno & Outros Escritos”. Na edição que adquiri, há vários poemas e frases do artista, e todos eles transbordam enigmas através de suas palavras, sugerindo certos significados, embora estes pareçam estar sempre cuidadosamente velados e construídos para serem lidos e percebidos apenas intuitivamente. Dessa forma, a maneira como Blake escrevia é bastante singular e suponho que muitas pessoas tendam a desistir facilmente da leitura pela dificuldade de interpretá-la de forma clara e direta. Mas eis este justamente um dos pontos que considero mais atraentes e valiosos na totalidade das obras de nosso artista: o desafio que ele propõe; o mistério que ele deixou para ser desvendado.

Fig. 1 – Job and His Daughters, 1825. William Blake. Britânico, 1757 - 1827. National Gallery of Art, Washington. Presente de W.G. Russell Allen. "A contemplação de uma obra de arte é um instante mágico e único no qual o espectador se desliga do mundo físico que o cerca habitualmente."

Acredito que até este ponto, o leitor percebeu que destaquei acima dois aspectos comuns que se fazem presentes tanto nas pinturas quanto nas poesias do artista inglês, a saber, a forte presença da religiosidade e a atmosfera mística, sendo que ambos são bastante simbólicos e sugestivos. Parece-me que não é possível que haja estudos ou aprofundamentos de análises de suas produções, sem que haja também conscientização (ainda que básica) dos dois pontos que citei acima. Blake, ao longo de sua vida, teve contato com obras clássicas de Ocultismo e desde a infância, dizia ter visões de entidades espirituais. Essas informações podem cooperar para que penetremos em suas criações artísticas e tentemos desvendar os mistérios que as mesmas legam, e também nos indicam que Blake nutria grande atenção à intuição humana, mostrando, inclusive, certo afastamento da razão que imperava durante o período histórico em que viveu. Contudo, é importante citar que o conhecimento de tais fatos não significa, necessariamente, a compreensão plena (ou mesmo parcial) de suas produções, pois já me deparei com estudiosos que sabiam de tais detalhes e cujas interpretações sobre as poesias e telas de Blake eram divergentes. Dessa forma, torna-se dificultoso encontrar e/ou postular um sentido objetivo para as produções do artista inglês. Aliás, pergunto-me se é realmente possível desvendar o que uma obra de arte carrega como mensagem (se é que há mensagem – seja ela proposital ou mera obra do acaso).

Fig. 2 – The Vision of God, 1825. William Blake. Britânico, 1757 - 1827. National Gallery of Art, Washington. Presente de W.G. Russell Allen. "Quando as portas da percepção se abrem, as coisas parecem ao homem como realmente são: infinitas". – William Blake.

Talvez, tentar desvendar uma produção artística seja algo demasiadamente arriscado, especialmente se tratando de William Blake, uma vez que a interpretação envolve a racionalidade, a conceitualização e a reflexão e a arte, por sua vez, não é uma linguagem racional. Assim sendo, penso que a contemplação livre e espontânea que se dá através dos sentidos é o caminho mais nobre e verdadeiro que existe na relação entre o ser humano e a obra de arte. Esse instante mágico e único no qual o espectador se desliga do mundo físico que o cerca enquanto contempla uma obra, pode ser a chave para abrir as portas da percepção, referidas por Blake. Por tais motivos, por hora, esta é minha interpretação e proposta reflexiva: a arte é a chave que desvenda o que existe por trás das portas da percepção, e quando nos permitimos adentrá-las, nos afastamos do mundo material e de suas leis, e reconhecemos o infinito, que sugeri intermináveis possibilidades e que está além do espaço e do tempo.

Portanto, ao invés de tentarmos examinar racionalmente as figuras e palavras de William Blake, tentando postular significados conceituais e encadeamentos a elas, talvez devêssemos simplesmente intuí-las através de nossa percepção, para que assim, nos conectemos com as portas que nos guiam para suas profundezas herméticas.

.

.

JULIANA VANNUCCHI
Sorocaba – São Paulo
Facebook Perfil | Facebook Fan Page
Website Acervo Filosófico
E-mail: ju.vannucchi@hotmail.com

]]>
https://www.obrasdarte.com/as-fendas-misticas-das-obras-de-william-blake-por-juliana-vannucchi/feed/ 1