Poucas trajetórias na história recente dos museus brasileiros revelam uma combinação tão rara de rigor intelectual, sensibilidade curatorial e dedicação institucional quanto a de Zuzana Trepková Paternostro. Nascida na Europa Central e formada em História e Teoria da Arte, Zuzana construiu no Brasil — mais precisamente no Museu Nacional de Belas Artes — uma carreira marcada pela pesquisa profunda, pela descoberta silenciosa de obras e pela formação de gerações de pesquisadores.
Ao longo de quase quatro décadas dedicadas ao MNBA, atuou como curadora de Pintura Estrangeira, pesquisando, atribuindo, restaurando e expondo cerca de mil obras, sobretudo da tradição europeia, sempre guiada por um olhar técnico apurado e por uma compreensão histórica que ultrapassa modismos e leituras apressadas. Seu trabalho ajudou a revelar ao público brasileiro a riqueza de um acervo que, muitas vezes, permanece mais conhecido fora do país do que dentro dele.
Recentemente, Zuzana reuniu esse percurso em um livro de circulação restrita, voltado a especialistas, no qual sintetiza décadas de investigação, curadoria e compromisso com o patrimônio cultural. Mais do que um balanço de carreira, a publicação reflete uma postura intelectual em permanente movimento — avessa à estagnação, aberta à revisão crítica e profundamente conectada ao fazer museológico.
Nesta entrevista ao Site Obras de Arte, Zuzana Trepková Paternostro fala sobre deslocamento cultural, formação, pesquisa, os “mistérios” da atribuição artística, o papel do curador diante do mercado e das falsificações, os desafios estruturais dos museus públicos no Brasil e, sobretudo, sobre a arte como elemento essencial da experiência humana. Um testemunho raro de quem fez da arte não apenas uma profissão, mas uma forma de existir.
Trajetória, Identidade e Deslocamento Cultural
A senhora nasceu e se formou na Europa Central, mas construiu sua vida profissional no Brasil. Em que momento percebeu que o Rio de Janeiro havia se tornado, de fato, o seu lugar no mundo?
Não foi o Rio de Janeiro. Mas, sim, o Brasil, como um todo. Esse país sempre ocupou um dos locais centrais da minha curiosidade, desde a adolescência. Coincidentemente, conheci um engenheiro carioca com que me casei e fui com ele viver no Rio. Minha vocação para a aventura, inclusive profissionalmente falando, me levou a essa cidade. Troquei o emprego onde estava fazia cinco anos, na Galeria Nacional de Belas Artes, a principal da minha capital, Bratislava, pelo Museu Nacional de Belas Artes.
Em entrevistas, a senhora comenta que, no início, estranhava o modo aberto e sorridente dos brasileiros. Com o tempo, o que mais aprendeu – humana e culturalmente – vivendo no Brasil por mais de cinco décadas?
Aprendi a ser mais tolerante. E não foi fácil: demandou muito tempo para esfriar as minhas reações um tanto quanto impetuosas. Ainda exerci melhor a criatividade e descobri uma maneira de levar a vida com mais leveza.
Olhando hoje para sua trajetória entre contextos culturais distintos, de que forma sua formação acadêmica e sua experiência profissional no Brasil se complementaram ao longo da carreira?
Foi uma simbiose, uma sintetização muito feliz, porque consegui dominar a minha ansiedade a ponto de aguardar o momento certo para tudo o que pretendia e sonhava fazer. Além de exprimir as minhas ‘verdades’ com a necessária convicção e tranquilidade.
O MNBA e o Trabalho Curatorial
A senhora dedicou 39 anos de sua vida ao Museu Nacional de Belas Artes. O que o MNBA representou para a sua formação como pesquisadora e curadora – e o que acredita ter deixado como contribuição duradoura para a instituição?
Ser aceita pelo Museu Nacional de Belas Artes, e depois conseguir permanecer nele por décadas, foi o que melhor aconteceu na minha vida profissional. Afinal, adentrei uma instituição de porte nacional, mesmo sendo bastante jovem. Ao mesmo tempo, levei minha bagagem cultural, o conhecimento de arte estrangeira, basicamente europeia, que tinha desde a mais tenra idade. Por ser da Europa Central, abracei todas as vertentes e capilaridades da Europa como um todo. Acredito que esse meu livro sintetiza tudo o que trabalhei ao longo de décadas. Sei que contribuí como curadora, em exposições que levavam a arte estrangeira, basicamente europeia, a um maior conhecimento nacional, vinculando a mesma a uma devida compreensão e ao conhecimento, assim como fiz com a arte propriamente brasileira.
Seu trabalho esteve profundamente ligado à coleção de pintura estrangeira do MNBA. Na sua visão, essa coleção ainda é pouco conhecida pelo grande público brasileiro?
Com profundo pesar, afirmo que, infelizmente, o alcance do acervo e da capacidade expositora dessa instituição não tem a envergadura ideal. Por diversas razões. Principalmente, por conta dos subsídios necessários para a divulgação que o Brasil e o povo brasileiro merecem. Lamento que o público do Brasil, independentemente da faixa etária e mais em função da classe social, tenha mais possibilidade de conhecer, antes do próprio acervo, obras estrangeiras in loco. É uma questão cultural. Brasileiro vai a Paris e visita o Louvre. Vai a Madrid e entra no Prado. Já no Brasil, prefere ver o Cristo Redentor ou o Bondinho do Pão de Açúcar, em vez de visitar o Museu Nacional de Belas Artes. Cheguei à conclusão de que o Brasil é um país de vocação ambiental. O brasileiro, em geral, gosta de ar livre, e isso é compreensível e louvável, por ele ser tão ligado à natureza. Ainda assim, quando viaja ao exterior, visita com extrema curiosidade os principais recintos fechados.
Ao longo de sua carreira, a senhora supervisionou pesquisas, atribuições, restaurações e exposições de cerca de mil obras. Existe um “olhar” que se desenvolve com o tempo para identificar histórias ocultas nas pinturas?
Existe. E eu tive o privilégio de adquirir esse olhar numa escola politécnica que abracei antes mesmo de me formar em História e como crítica de Obras de Arte. Ela era exclusiva para jovens talentos e sua admissão se dava em toda a Eslováquia. Ali pude conhecer e praticar técnicas como, afresco, esgrafito e fresco secco, entre outros. A esse olhar foi acrescido a minha formação na Escola de Restaurações de Obras de Arte, que cursei na UFRJ junto ao professor Edson Motta, que me permitiu enxergar o que as curadorias atuais não têm sequer tempo de mergulhar com profundidade. Como o conhecimento técnico e análises de suportes e pigmentos, que são absolutamente necessários para se chegar à pesquisa de detalhes que aproximam a obra do seu criador. Dito isso, à medida em que sou especialista de obras de arte do passado, tomei conhecimento de Arte Moderna, mas não me aventuro em Arte Contemporânea. Tenho noção dos meus limites.

Pesquisa, Atribuição e os “Mistérios” da Arte
Em sua entrevista ao Pravda, a senhora compara muitas investigações artísticas a histórias de detetive. O que mais lhe fascinava nesse processo de descobrir autoria, época ou intervenções posteriores em uma obra?
A maior parcela do acervo de pintura estrangeira que pesquisei era Arte Europeia. Uma alta porcentagem dizia respeito a pinturas dos séculos XVIII e XIX. O processo de descobrimento ou a aproximação a alguma autoria ou região, ou mesmo o século pertencente, se inicia a partir do exame da tela, ou seja, o material do suporte. Assim como o conhecimento dos pigmentos utilizados. Dito isso, o que mais me fascinava nesse processo era o desafio de descobrir onde foi feita, por quem e em que época, para depois apresentar ao público.
Poderia contar um pouco mais sobre o caso da cruz processional do século XIII que foi exibida na Itália – e o que essa experiência representou para sua carreira?
Quando o jornalista e empresário Assis Chateaubriand convidou Pietro Maria Bardi (1900-1999) para vir da Itália lhe ajudar a formar o Museu de Arte de São Paulo, o Masp, em 1946, primeiramente Bardi aportou no Rio de Janeiro. Para homenagear a sua chegada, o Museu Nacional de Belas Artes organizou uma exposição de obras de conteúdo religioso. Nessa ocasião, Bardi presenteou a instituição ao doar um fragmento que trouxera ao museu. Era o fragmento que é um braço de uma cruz processional que, na época, foi atribuída a um dos membros de artistas da família Pisano, de Pisa, na Itália. A título de antiguidade, era um fragmento de pintura anterior à descoberta da pintura óleo e feito em técnica de têmpera, uma das técnicas medievais aplicada ao suporte de madeira . Quando eu já trabalhava no Museu, levei esse fragmento a uma grande exposição em Pisa, o que me proporcionou participar de uma conferência onde assisti a um verdadeiro duelo de conhecimento entre dois especialistas, dentre os quais um austríaco, ambos competindo para determinar o autor da obra. Coube ao italiano Lorenzo Carletti (1969) confirmar que ela data do século XIII, portanto, é a peça mais antiga do Museu Nacional de Belas Artes. Carletti definiu o seu autor como alguém que não era de Pisa. Era, sim, um mestre, mas que não assinava as obras. Ele fazia cruzes em sua oficina, como de praxe na Idade Média, na cidade de Calci, na região da Toscana, a poucos quilômetros da vizinha Pisa. Sua identificação e a localidade foram desveladas a partir de um ornamento repetido em todas as obras produzidas em sua ‘bottega’. Mesmo sem assinar, aquela obra tem imensa importância artística e mais ainda histórica, obviamente. A título de curiosidade: esse fragmento é apenas um dos braços da cruz enquanto a sua totalidade encontra se no museu episcopal em Avignon na França. Representa um prestígio a solicitação italiana estudar expor a obra brasileira deixando a restante da obra ‘francesa’ geograficamente tão mais acessível, de lado.
Como a senhora enxerga o papel do curador e do historiador da arte na proteção do patrimônio cultural diante do mercado, das falsificações e das leituras equivocadas?
A meu ver, ele precisa ter formação acadêmica. Porque toda a sua intuição, toda a experiência secular, se soma a isso. É dessa forma que ele aprende a disciplina e a devida utilização das ferramentas e dos métodos. Se apenas se fixar na citação de sociólogos ou filósofos, vai deixar a desejar. Para o mais correto diagnóstico, no que diz respeito a identificar obras, é necessário um alinhamento entre o conhecimento técnico e a prática. O estar junto, o olhar de perto, é tão ou mais valioso do que a teoria. Sem esse cuidado, de repente você se vê diante de uma cópia bem feita, mas não algo original.


O Livro e o Legado Intelectual
Seu livro “Promovendo o Museu Nacional de Belas Artes por mais de Cinco Décadas” não é um livro voltado ao grande público, mas a especialistas. Ainda assim, que tipo de leitor a senhora espera que se aproxime dessa obra?
Por ser uma edição limitadíssima, esse livro é destinado a futuros museólogos e historiadores que irão trabalhar em instituições de arte. É para especialistas. Para, digamos, as futuras ‘Zuzanas’ que estão por vir.
Ao reunir décadas de trabalho em um único volume, houve alguma descoberta ou reflexão nova sobre a própria trajetória?
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Isso é um processo permanente. Cada vez mais, os instrumentos de pesquisa e a análise de pigmentos nos apresentam novos caminhos. Ninguém, na minha área, pode se dar ao luxo de estagnar. Muitas vezes, é preciso retornar a uma atribuição que já foi feita, pois as chamadas descobertas estão sempre sujeitas a novas interpretações.
A senhora considera esse livro um ponto de fechamento de ciclo ou mais um elo dentro de um percurso intelectual que continua?
Particularmente, gostaria de seguir trabalhando nessa área. Tenho um genuíno interesse pela Arte; ela é vital para a minha existência. Pode até ser muito mais importante para mim do que para os outros, mas nutro sempre novos desafios. Quem se aposenta, atrofia corpo e mente. Me sinto sã o suficiente para prosseguir ampliando o meu legado.



Arte, Formação e Novas Gerações
Ao longo de sua carreira, a senhora orientou gerações de pesquisadores. O que mudou – e o que permanece essencial – na formação de historiadores da arte hoje?
Eles têm o básico, o primordial para iniciar a carreira. É preciso gostar da sua missão, que muitas vezes se confunde com o seu propósito de vida. Vejo os historiadores atuais com bons olhos e lhes desejo sucesso. Mas, atualmente, há muita informação visual, o que eu chamo até de ‘poluição visual’, e isso pode os confundir ou lhes tirar o foco. Torço para que se detenham a uma seleção de informações que são impossíveis de serem deixadas de lado. E que essa parte guie as suas pesquisas. É preciso foco. Eles têm que ter um dinamismo, partindo sempre do micro para o macro.
Que conselho daria a jovens pesquisadores e curadores que desejam trabalhar com acervos históricos e museus públicos no Brasil?
Não tenho como dar conselhos, porque eu mesma necessito de conselhos e opiniões. Não sou e nem nunca serei completa: estou sempre em formação. Apenas tenho a impressão de que precisamos acoplar o antropocentrismo à ambientação, à natureza. Estamos desbravando a nossa dimensão de terra e natureza, e isso faz parte do ser humano. É indissolúvel o homem do seu ambiente. No mais, para quem sonha trabalhar com acervos históricos em museus públicos, especialmente no Brasil, eles devem ter muita paciência, porque as burocracias, os entraves, são enormes. Dentre todas as faces da Cultura, como Literatura e Música, para se citar apenas duas, as Artes Plásticas são as mais difíceis, no sentido de investimento. Por ser a menos popular, a menos difundida e a mais restrita a um público seleto. O museu é um dos elementos da cultura mais caros para se manter: requer pesquisa, reserva técnica, montagem, segurança, controle de ar condicionado, prevenção de incêndios e um espaço físico controlado. Fosse pouco, dá menos receita do que um festival de música. Artes plásticas e museus custam mais caro do que qualquer outro investimento em Cultura.
A senhora acredita que o Brasil valoriza adequadamente seus museus e profissionais da área de patrimônio cultural?
Na medida em que eles não alcançam a resposta adequada e não fazem parte das principais prioridades dos governos, não são valorizados da forma correta justamente por não gerarem resultados e ainda ter um público restrito. Dentro desse cenário, acho até adequada a valorização que têm. Porém, poderia ser feito um plano de carreira, o que vem tramitando no Congresso, afinal, a pós graduação dos servidores não é contemplada na atual carreira da cultura, o que já acontece há décadas na área de Ciência e Tecnologia, só para citar um exemplo. No fundo, nem existe faculdade para isso. Ao passo que arquitetos têm pós-graduação e tudo o mais. Historiador de arte inexiste em termos de enquadramento de carreira. Quando cheguei, não existia nem faculdade para historiador de Arte. Hoje tem, há quase trinta anos. Espero que isso mude também.


Olhar Pessoal e Reflexão Final
Existe alguma obra, artista ou período artístico que ainda desperte em você a mesma curiosidade do início da carreira?
Para mim, todas as obras são dignas de apreciação e maior atenção, mas dentre as pesquisas que continuo fazendo pelo mundo, encontrei um artista que foi retratista da família Imperial no Brasil, um dos mais bem-sucedidos de sua época, mesmo tendo passado apenas quatro anos por aqui. Ele é da República Tcheca e foi convidado a conhecer o país por meio de Araújo Porto Alegre (1806-1879), um historiador e crítico de arte. Ambos se conheceram em Lisboa. Posso dizer que ele foi o mais produtivo dos retratistas que tivemos. Tem obras no Rio, em Florianópolis, em Portugal. Foi retratista da aristocracia europeia e passou pelas cortes de Nápoles, assim como na Alemanha e na Áustria. Como aventureiro, veio por conta própria ao Brasil e aplicou por aqui a sua especialidade, o retratismo, mas fez também paisagens, como uma tela da cidade litorânea de Cabo Frio. Essa pintura está hoje na Alemanha. Seu nome é Ferdinand Krumholz (1810-1878). Não obstante retratista, o que me interessa nele são as suas paisagens, feitas por vontade própria e não por encomenda, como os retratos, seu sustento principal. Pintor viajante, após partir do Brasil, ele aportou na Índia. Soube da existência dessas obras em Bombai e quase saí de Shangai para a Índia em busca delas, quando soube que uma estava em exibição na Galeria de Arte da Moravia (Brno), na República Tcheca.
Depois de uma vida dedicada à arte, à pesquisa e à curadoria, o que a senhora considera ser o verdadeiro papel da arte na vida das pessoas?
A Arte é o que nos distingue do mundo animal. Somos os únicos seres vivos que precisam de fantasia, criação, realização, além do que é restrito para a sobrevivência. A capacidade subjetiva e interpretativa do homem é o que o difere e personifica o seu desejo, a sua veneração.
Para finalizar: se pudesse deixar uma mensagem às futuras gerações que irão cuidar dos museus e do patrimônio cultural, qual seria?
É preciso paciência e humildade. Soma-se a isso um ímpeto pelo fazer e nenhum temor em enfrentar desafios. Também é necessário saber dar um passo para trás para avançar três à frente. E, embora amor seja uma palavra desgastada nos dias de hoje, além do dinheiro em si, é preciso que respeite e reconheça o que é Arte.
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