Compreender os contextos históricos e as correntes intelectuais amplia a interpretação das obras e revela as transformações estéticas ao longo dos séculos
A história da arte nunca nasceu isolada de seu tempo.
Cada tela pintada, cada escultura talhada e cada movimento artístico carregam, em sua essência, as perguntas que filósofos e artistas de cada época faziam sobre o mundo, o ser humano e a beleza.
Entender arte sem entender filosofia é como ler apenas metade de uma história: falta o pensamento que deu origem à forma.
Na filosofia, os estudos da arte se relacionam, inicialmente, com a poética e, só depois, vão ganhando noções do belo e da argumentação estética.
No conceito geral, a produção da arte é fruto de observações internas do homem, e só por meio dessa reflexão a arte é colocada para fora, o que a aproxima ainda mais da filosofia.
O filósofo Friedrich Nietzsche, em sua obra “A vontade de poder”, cita a motivação que um artista tem para realizar suas obras: “Ela (a arte) é a grande possibilitadora da vida, a grande sedutora para a vida, o grande estimulante da vida”.
Já para Schopenhauer, a arte tem como intenção a expressão da ideia. Ou seja, ela consiste em uma tentativa de colocar para fora, por meio de uma criação artística, as realidades ideais de cada pessoa.
Esses e outros pensadores da arte e do pensamento filosófico, ao longo dos anos, ajudaram a moldar as diferentes formas de fazer arte e de entender aquilo que é belo, feio, aceitável ou digno de exclusão na arte.
Foi assim no Renascimento, quando o resgate das ideias clássicas transformou a maneira de representar o corpo e a razão.
Foi assim no Dadaísmo, no Surrealismo e segue sendo assim na arte contemporânea, em que ainda ecoam debates que começaram séculos atrás em rodas de discussão filosófica.
Da Grécia ao Renascimento: o resgate da razão e do belo
Durante os dez séculos em que durou a Idade Média na Europa (do século V ao século XV), o desenvolvimento cultural e científico passava exclusivamente pelo aval da Igreja Católica, sendo necessário seguir a ideia central de Deus como criador e tomador de decisões.
Entretanto, com os avanços das explorações ao redor do mundo e o contato com civilizações asiáticas, africanas e com os povos de origem árabe, os europeus viram uma possibilidade de desenvolver seus instrumentos de navegação, o que causou os avanços dos estudos voltados à matemática.
É nesse contexto que surge o Renascimento, um movimento ligado à ciência e à cultura que tomou a Europa no século XV.
Com ele, a censura da Igreja começou a cair, e novos pensamentos ligados à arte se uniram ao conceito de equilíbrio e proporção da matemática (como a proporção áurea, por exemplo).
Até esse momento, a arte medieval tinha como ideia principal a religiosidade e conceitos ligados totalmente à fé e a Deus como centro de tudo.
Na arte, era comum encontrar elementos mais simbólicos, com figuras alongadas e sem preocupação com a anatomia real do corpo humano.
Após esse período, o Renascimento surge como um resgate da arte e dos pensamentos gregos, recuperando o humanismo.
Ou seja, a proposta foi colocar em prática aquilo que os filósofos pensavam na época: a ideia do ser humano como elemento central da criação.
Os principais nomes desse movimento artístico foram: — Leonardo da Vinci; — Michelangelo; — Rafael Sanzio; — Donatello; — Botticelli.
Assim como na Grécia, a principal característica desses artistas é usar a razão para investigar a natureza e produzir uma arte cada vez mais ligada ao retorno às formas clássicas.
A filosofia nos movimentos modernos
Com o passar dos anos, a evolução da arte seguiu sofrendo influência da filosofia. Com a chegada do Modernismo, o pensamento ligado à razão foi ganhando novos horizontes.
Freud e Nietzsche, por exemplo, quebram a barreira do racional ao abalar a confiança de que o mundo segue uma racionalidade.
Nietzsche, ao afirmar que “Deus está morto!”, e Freud, ao citar, em diversas obras, que a arte é feita, na maioria das vezes, pelo inconsciente e por desejos reprimidos, trazem a ideia de que os artistas modernos não precisam mais “imitar” o que é real, representando movimentos mais livres e instintivos.
Entre os principais, destacam-se o Futurismo, o Expressionismo, o Dadaísmo e o Surrealismo, movimentos ligados à ideia de que a arte pode ser feita por meio de percepções do inconsciente, de expressões subjetivas, da evolução das máquinas ou com foco no absurdo.
Atualmente, a filosofia segue influenciando a estética artística, principalmente no que diz respeito às críticas sociais e às reflexões relacionadas às dúvidas sobre o futuro da sociedade.
Na performance, por exemplo, muitas vezes o público é convidado a participar ativamente de instalações, quebrando a distância entre quem cria e quem observa e permitindo elevar o pensamento crítico.
Já na arte digital, ainda que muito recente, conceitos filosóficos ligados ao pós-humanismo, como discussões sobre ética, justiça, comunicação e outras questões relacionadas à formação dos indivíduos, ganham espaço quando o assunto é tecnologia e uso de ferramentas de Inteligência Artificial.
O papel do conhecimento humanístico no entendimento da arte
Durante a evolução da arte, ficou claro que o pensamento humano foi responsável por compreender, moldar e influenciar os movimentos artísticos ao longo dos anos.
É por isso que, para entender obras e artistas, é preciso ter conhecimento histórico e filosófico, além de relacionar a arte de cada época ao propósito de quem a criou.
Para quem deseja se aprofundar nessa interseção entre o pensamento crítico e a cultura, buscar uma formação acadêmica, como uma graduação em filosofia semipresencial, é um excelente caminho para compreender com clareza as transformações estéticas da sociedade.
Esse caminho acadêmico ajudará a compreender a relação entre beleza, arte, valores da sociedade, visão de mundo e até questões relacionadas ao desenvolvimento humano, como empatia, imaginação e a cultura de cada época e movimento artístico.
Sem esse repertório, a arte tende a perder seu sentido e passa a ser apenas um objeto decorativo.

Texto elaborado pela equipe da Conversion.