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Arte Moderna – Surrealismo por Rosângela Vig

Você também pode ouvir esse artigo na voz da própria Artista Plástica Rosângela Vig:

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Quando olho o céu estrelado, acho-o pequeno.
Ou fui eu que cresci, ou foi o universo que encolheu.
A menos que sejam os dois ao mesmo tempo;
(DALI, 2008, p.18)

A Arte verdadeira abre suas portas quando se desvencilha da lógica e da realidade e se aproxima do campo dos sonhos. Talvez seja essa a forma que a mente encontre de divagar desimpedida por seus caminhos, sem as amarras que o mundo real impõe. Apartada das asperezas da vida, nesse momento, a Estética se aproxima de universos utópicos. Poder trilhar esses lugares é como voejar por imensidões inimagináveis e por elas traçar um incerto destino. E a alma transcende, nesse momento, alçando vôo por espaços que somente pelas mãos da Arte é possível chegar.

A Estética das primeiras décadas do século XX divagou por essa essência, pelas mãos dos Dadaístas e dos Surrealistas. Desvencilhados da lógica, os artífices debruçaram por caminhos nunca antes imaginados, levando ao espectador, a sensação do ilógico e do incoerente. Sob esse conceito, iniciou-se o Dadaísmo, movimento de curta duração em que os artistas retratavam o absurdo. Como uma reação aos massacres da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os dadaístas contrariavam as convenções artísticas ortodoxas, como foi o exemplo da obra a Fonte de Marcel Duchamp 1, sob o conceito de “ready-made”. A idéia era uma Arte sem sentido, numa sociedade sem sentido. Fizeram parte desse estilo os artistas Marcel Duchamp (1887-1968), Francis Picabia (1879-1953) e George Grosz (1893-1959).

O Surrealismo absorveu esse movimento nos anos 20, retratando uma realidade mais próxima do irreal, uma espécie de estado de fantasia, em que seria possível a exploração de novas perspectivas. A publicação do Manifesto do Surrealismo, em 1924, pelo escritor André Breton (1896-1966) marcou o início do movimento cujas bases eram os estudos sobre o inconsciente de Sigmund Freud (1856-1939).

O próprio Freud não era simpatizante do Surrealismo, uma vez que a psicanálise via a interpretação dos sonhos como uma forma de compreensão e cura de seus pacientes; enquanto os surrealistas percebiam o mundo dos sonhos como um fértil campo de imagens artísticas.

E é possível compreender que os eventos do período aguçaram as mentes surrealistas. A Gripe Espanhola (1918), que matou quase 50 milhões de pessoas; a transmissão da primeira imagem de televisão, na Inglaterra em 1925; e o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, estimularam a criatividade e a estética que então se desenvolveu.

Arquitetura

É na Arquitetura que vamos poder admirar o abalo profundo, em sua essência mais consubstancialmente funcionalista, de todo “elemento”, mesmo sendo ele o mais congênito, o mais hereditário do passado. Com o Modern Style, os elementos arquitetônicos do passado, além de serem submetidos à freqüente, à total trituração convulsiva-formal que dará origem a uma nova estilização, serão chamados a reviver, a subsistir correntemente sob seu verdadeiro aspecto originário, de modo que, ao se combinarem uns com os outros (…) eles vão atingir o mais alto grau de depreciação estética, manifestar em suas relações aquela terrível impureza que só tem equivalente e igual na pureza imaculada os entrelaçamentos oníricos.
(DALI, 2008, p. 47)

O olhar do arquiteto é o de um artista. Ele interpreta o incessante desejo que a fantasia tem de se materializar. Sua mente se torna por vezes indisciplinada, mas supera os limites e transcende, quando obedece aos caprichos da imaginação. E a imaginação foi o elemento mais presente no Surrealismo. O estilo abriu os campos para que a Arquitetura ultrapassasse essas fronteiras utópicas desenfreadamente.

Pode-se dizer que não houve um Surrealismo na Arquitetura, mas uma variação significante de conceitos voltados mais para satisfação dos desejos do pensamento, do que para o formalismo e para a funcionalidade, deixando clara uma consonância de opiniões entre artistas e arquitetos. Os elementos dos sonhos e os traços do pensamento de Dali foram fundamentais não somente nas obras de Frederick Kiesler (1890-1965) e de Frank Gehry 2 (1929-), mas acabaram por inspirar as produções que vieram posteriormente.

Um dos arquitetos mais conhecidos de nosso tempo, o canadense Frank Gehry percebeu o caráter desses mundos oníricos surrealistas e os traduziu em suas obras. O Museu Guggenheim, em Bilbao, na Espanha é uma de suas conhecidas construções e pode ser considerada por si só uma obra de Arte, por sua exuberância. O museu é um dos mais bonitos do mundo e suas formas ondulantes lembram as pétalas de uma flor de cor prateada se abrindo. Também é do arquiteto a Walt Disney Concert Hall 3, que levou 16 anos para ser concluída. A construção repleta de ondulações se sobressai imponente em meio aos prédios retilíneos da grande metrópole. Suas linhas sinuosas de cor prateada lembram as do museu espanhol.

E foi o próprio Salvador Dali quem pensou e projetou o Teatro-Museu Salvador Dali 4 e a casa onde morou, na cidade natal do artista na Catalunha, Espanha. Localizada no pequeno vilarejo de Cadaqués, banhado pelo Mediterrâneo, a Casa de Salvador Dali 5 foi onde o artista viveu por muitos anos até a morte de sua esposa. Bem iluminada e com vista para o mar, o interior da casa está repleto de pequenos detalhes como esculturas, lustres e objetos decorativos peculiares que parecem se desenhar nas telas do artista. Toda branca, repleta de canteiros e vasos floridos (Fig. 2), a parte externa do imóvel ainda conta com um terraço (Fig. 1) e uma piscina vertical (Figuras 3 e 4). Em meio a elementos surrealistas, Dali acrescentou as famosas esculturas em forma de ovo, também presentes em outras de suas obras, cujo significado é o da fertilidade, da criação e da pureza. Para Dali,

Trata-se aqui, portanto, de fazer uma construção habitável (e também comestível, em minha opinião) com os reflexos das nuvens crepusculares nas águas de um lago, a obra devendo comportar, além disso, o máximo de rigor naturalista e de trompe l’oeil 6. Proclamo que isso é um progresso gigantesco sobre a simples submersão rimbaudiana do Salão no fundo de um lago.
(DALI, 2008, p. 61)

E a imaginação se perde juntamente com a de Dali, ao percorrer seus textos, suas obras e seus admiráveis mundos. É bem possível que muitas das cenas que criou tenham vindo da casa em que viveu, com seus objetos, seus jardins e sua decoração. E não é difícil se encantar com esses lugares e com a ousadia de imagens que persistiam em sua mente constantemente produtiva. Suas obras transcenderam a Pintura e se materializaram na casa onde viveu. Ao mesmo tempo, a casa em que viveu serviu-lhe de inesgotável fonte inspiradora para sua produção.

1 Link para a obra A Fonte de Marcel Duchamp:
www.youtube.com/watch?v=ENoB2b1Nd1Y

2 Link para arquitetura de Frank Gehry:
www.youtube.com/watch?v=dA_KfO0Vdi4

3 Link para Walt Disney Concert Hall:
www.youtube.com/watch?v=ViCYciMxg0s

4 Link para o Teatro-Museu Salvador Dali:
www.youtube.com/watch?v=hQPsGWIScoQ

5 Fotos autorizadas de Barbara Cassou Achtrends Portobello – casa de Salvador Dali:
archtrends.com/blog/arquitetura-surrealista-conheca-casa-de-praia-de-salvador-dali

6 A expressão trompe l’oeil vem do francês e significa enganar o olhar. A técnica é muito utilizada principalmente na Pintura, para promover efeitos ilusórios de três dimensões, por meio da perspectiva, da luz e da sombra. Link para o site do Museu do Trompe L’Oeil:
www.museedutrompeloeil.com

Escultura

O mínimo que se pode pedir a uma escultura é que ela não se mexa.
(DALI, 2008, p. 47)

São formidáveis os caminhos que percorre a alma embriagada pela tênue linha dos sonhos. O corpo todo deixa se perder entorpecido pelo poder hipnótico que o arrebata e a mente se desprende do mundo real. A alma alça vôo para dimensões inexploradas e por elas devaneia desprendida. A Estética surrealista permitiu à alma essa jornada que também passou pelo campo da Escultura.

O milionário inglês Edward James (1907-1984) parece ter caminhado por esses mundos e os deixou impressos em seu jardim, em meio às montanhas do México, na cidade de Xilita, estado de San Luis Potosí. Poeta, escultor, patrocinador e colecionador da Arte surrealista, o próprio magnata vendeu as obras de sua coleção para edificar uma imensa obra de concreto. Sua versão do Jardim do Éden teve início em 1949 e seguiu até sua morte em 1984, com grande parte das obras inacabadas.

Aberto para o turismo desde 1991, Las Pozas 7, 8 é como um portal para universos surreais com pilastras que se erguem equilibradas em meio à mata, como se competissem com as árvores em tamanho. Por vezes flores desabrocham de suas pontas, no alto; por vezes arcos góticos emergem entre as pilastras, cruzando e dividindo espaços com escadarias espiraladas, rampas, pontes, degraus e estreitas passagens que sobem e que descem em sinuosas linhas, levando a indefinidos lugares que somente nos mundos oníricos são possíveis. Como se abrisse um portal para o Éden, o imenso jardim de esculturas reserva ainda percursos pelo solo, com cascatas, cachoeiras e piscinas naturais em seus quase 40 hectares.

Em Las Pozas a Arquitetura, o Paisagismo e a Escultura conversam e muitas vezes se confundem. Brotando do chão e das paredes do imenso paredão verde, parece que as fontes, as flores e os animais de concreto sempre estiveram ali e estão em constante movimento. E não é difícil imaginar que ao acenar sua varinha, uma fada um dia pode ter volvido sua mágica para que surgissem uma a uma, escadarias, pontes, rampas e passagens. Em 2007, a Fundação Pedro y Elena Hernández, juntamente com uma empresa de materiais de construção e o governo do estado de San Luis Potosí criaram a fundação Xilita, que cuida e preserva o local.

Alguns artistas talvez tenham suscitado estupefação e assombro, como é o caso de Man Ray (1890-1976), com seu Autorretrato (Fig. 7). A escultura de bronze, dentro de uma caixa, protegida por vidro, é o rosto do próprio artista, de óculos, com os olhos fechados, envolto em jornais. A outra obra do artista (Fig. 8) consiste em uma mola com a parte superior e a inferior mais largas. O centro mais estreito tem uma bola branca que parece se esforçar por descer pelo vão, ou pode ser que ela tenha ficado presa nos anéis da mola. Também em bronze, o Ídolo do Pescador (Fig. 9) parece protegê-lo em seu trabalho, como um amuleto da sorte. A figura, composta de formas geométricas, assemelha-se a uma figura humana em pé.

Ainda cabe citar os nomes de importantes escultores, como Alberto Giacometti (1901-1966), Hans Arp (1887-1966), Hans Bellmer (1902-1975) e Max Ernst (1891-1976). E não é difícil analisar as obras da Arquitetura surrealista sob o ponto de vista de descomunais esculturas por suas peculiares e ousadas formas. É como se as áreas se confundissem e mesclassem suas propriedades, como é o caso das construções de Frank Gehry. O Surrealismo não preservou os mundos imaginários, não os encobriu, mas ao contrário, deslindou-os e os deixou à mostra, de maneira ousada, atingindo a perfeição dos oníricos mundos dos artistas.

O surreal é apenas a realidade que não foi desconectada de seu mistério.
(René Magritte in MACK, 2014, p. 341)

7 Link para Las Pozas, no México:
www.youtube.com/watch?v=L6V2MFfqiZ0

8 Link para Las Pozas, no México:
www.youtube.com/watch?v=BLcsOeiadls

Pintura

O pintor não é alguém inspirado, mas sim alguém capaz de inspirar os outros.
(DALI in KLINGSÖHR-LEROY, 2007, p.25)

A fantasia é um capricho dos sonhos, o artista vai até ela e atiça a centelha, abrindo as portas para inebriantes mundos. Chegar a esses universos que somente a imaginação é capaz de engendrar é o desígnio maior da Arte surrealista. O papel do espectador é o de adentrar esse portal, afrouxando os nós da realidade, deixando-se levar em livre fruição. A Pintura se embrenhou por esses caminhos da utopia de maneira extraordinária.

O Surrealismo passeou pela obra do artista belga Magritte (1898-1967), com um teor profundo, sugerindo não somente cenas ilógicas, mas apresentando um conteúdo reflexivo. Na figura 10, há duas cadeiras com diferentes concepções. A que está na parte superior é feita em madeira escura, tem as pernas e o encosto levemente arqueados; a que está na parte inferior, foi esculpida em pedra e tem formas simplificadas e retas. Ao redor, no solo, é possível perceber que há restos da pedra utilizada para o fabrico da cadeira maior. A de cima é moderna e a de baixo pode ter sido entalhada na Antiguidade, dada a simplicidade de sua forma. Entretanto a função de ambas é a de servir como um local para se sentar.

Também é do artista a imagem em que um navio parece em apuros em meio a uma tempestade, em alto mar, à noite (Fig. 11). Ao mesmo tempo, protegido por um muro, o homem de costas, bem vestido parece apreciar a cena, sem atitude. O pão e a taça pintados em suas costas sugerem que embora seu olhar seja para o barco, sua preocupação maior pode ser com relação ao alimento.

E talvez não houvesse artista com tamanha e inesgotável fonte de inspiração como Salvador Dali 9,10,11 (1904-1989). Seus mundos incertos, moles, fluidos e alucinadamente fantásticos parecem delírios em plena lucidez. Em meio a uma caótica cena (Fig. 12), sai de dentro de um canhão um cavalo em desespero, e um avião derretendo. A pessoa que tocava o violino está se dissolvendo junto com seu instrumento. O que restou de seu corpo ficou pendurado nos galhos de uma árvore ressequida e seu rosto no chão tem a boca comida por formigas. Uma aranha passa próximo das formigas e um anjo chora na parte inferior esquerda da imagem. Retratando os horrores de um conflito, a obra foi a primeira feita pelo artista durante o tempo em que viveu com sua esposa Gala, nos Estados Unidos, entre 1940 e 1948, fugindo da guerra, na Europa.

A genialidade do artista ainda imprimiu duas imagens em uma única cena (Fig. 13). O busto do filósofo Voltaire (1694-1778) desaparecido pode ser percebido em meio ao mercado de escravos, delineado pelas aberturas das paredes e pelo corpo das pessoas presentes. Os rostos dos mercadores correspondem aos olhos da sumida estátua; das roupas surgem o pescoço e colo; e o suporte de velas é a parte inferior da escultura.

Repleta de movimento, de cores fortes, contrastantes e de formas sinuosas, as imagens de Joan Miró 12 (1893-1983) são mundos fantásticos e bucólicos. Em seu Campo Lavrado 13 os animais de uma fazenda estão por toda parte e fogem da concepção de realidade. Há boi, cavalo, vaca com bezerro, pássaros, cachorro, gato, coelho e até mesmo um caracol. É possível reconhecer a plantação iluminada pelo sol, a árvore com uma orelha, sua sombra no solo e a casinha no centro da cena. Os elementos não apresentam traços reais como os das cenas de Dali. São criaturas metaforicamente poéticas e correspondem a um mundo imaginado pelo artista.

Também são oníricos os mundos das obras de Giorgio de Chirico 14 (1888-1978), contrariando a idéia de espaços urbanos, como se juntasse o Clássico e o Medieval, o que de certa forma expunha uma nova perspectiva no campo da Arquitetura. Para o pintor surrealista chileno Roberto Matta (1911-2002), “a Pintura tem sempre um pé na Arquitetura, um pé nos sonhos” (in KLINGSÖHR-LEROY, 2007, p.72). E é possível que a mente do espectador se encante e se transporte para esses mundos inventados pela Arte.

Passou ainda pelo Surrealismo o próprio Pablo Picasso 15 (1881-1973), o maior expoente do Cubismo. Para o artista, “se houvesse apenas uma única verdade, não seria possível pintar cem pinturas do mesmo tema.” (PICASSO in KLINGSÖHR-LEROY, 2007, p.86). Paul Klee 16 (1879-1940), cuja obra se sobressaiu nos campos do Expressionismo e do Cubismo, também divagou nos traços surrealistas.

E à alma é permitido um devaneio nos surreais mundos de André Masson (1896-1987), Max Ernst (1891-1976), Paul Delvaux (1897-1994), Wifredo Lam (1902-1982), e Yves Tanguy (1900-1955); e também nas Pinturas das grandes mulheres surrealistas, Alice Rahon (1904-1987), Leonora Carrington (1917-2011), Marjorie Cameron (1922-1995), Meret Oppenheim (1913-1985), Remedios Varo (1908-1963) e a inesquecível Frida Kahlo 17 (1907-1954).

Pode ser que o espírito livre tenha guiado a mente criativa por esses imaginados universos. Para a surrealista suíça, Meret Oppenheim (in KLINGSÖHR-LEROY, 2007, p.80), “a liberdade não é oferecida, tem que ser adquirida”. O artífice é o espírito curioso e arrebatado por esses mundos inventados. Livre, ele se encanta e voeja por essas paragens.

Antigamente os pintores costumavam ser loucos e os compradores de pinturas espertos. Agora os pintores são espertos e os compradores são loucos.
(CHIRICO in KLINGSÖHR-LEROY, 2007, p.34)

9 Link para vídeo de Dali sem áudio, com legendas em português:
www.youtube.com/watch?v=dUamdXDFP8k

10 Link para o Museu Magritte:
www.fine-arts-museum.be/fr/la-collection/artist/magritte-rene-1?string=magritte

11 Vídeo de obras de Dali – 60 segundos em inglês:
www.youtube.com/watch?v=cdcTY5GhHuk

12 Link para artigo sobre exposição de Joan Miró no Brasil:
www.obrasdarte.com/joan-miro-a-forca-da-materia-instituto-tomie-ohtake

13 Link para a obra Campo Lavrado de Joan Miró:
www.guggenheim.org/artwork/2934

14 Link para obras de Giorgio de Chirico:
https://www.youtube.com/watch?v=y33fwSjKX6g

15 Link para o Cubismo:
www.obrasdarte.com/arte-moderna-cubismo-por-rosangela-vig

16 Link para artigo da exposição de Paul Klee:
www.obrasdarte.com/exposicao-paul-klee-por-rosangela-vig

17 Link para o artigo sobre Frida Kahlo:
www.obrasdarte.com/exposicao-frida-kahlo-conexao-entre-as-mulheres-surrealistas-no-mexico-por-rosangela-vig

Considerações Finais

Não sou eu que sou o palhaço, mas sim essa sociedade monstruosamente cínica e tão inconscientemente ingênua, que joga o jogo da seriedade para melhor esconder sua loucura.
(DALI in KLINGSÖHR-LEROY, 2007, p.36)

Age o artista sobre as ferramentas que lhe são oferecidas, a tela alva, a pedra bruta, a matéria crua. Seus espaços vão se criando e se tornando reais na forma que a Arte encontra. Seguindo somente uma regra, a o coração ordenou, passeou a mão do esteta pela Arquitetura, pela Escultura e pela Pintura. E esses três campos parecem ter caminhado lado a lado no Surrealismo, como nunca, confundindo-se muitas vezes entre eles.

As pinturas de Dali se materializaram em sua casa, em seu Teatro-Museu; as esculturas de Las Pozas, muitas vezes estão incrustadas em escadarias e em pilastras; os universos de Giorgio de Chirico podem se inserir na planta de um arquiteto excepcional. A realidade clássica foi aqui retomada e modificada para uma super realidade do encantamento. O conjunto ainda se completou quando as obras se embutiram do conceito dadaísta, no campo das colagens e com a ressignificação dos objetos do dia a dia.

Se para André Breton o surreal é como um Estado de fantasia, fica para o olhar mais que isso, é uma forma de usufruir dessas imagens juntamente com seu criador e por elas fruir. Para Freud,

A Arte é o único domínio em que o poder soberano das idéias se tem conservado até os nossos dias. É só na Arte que os homens atormentados pelo desejo podem obter como que uma satisfação; e, graças à ilusão artística, esse jogo produz os mesmos efeitos afetivos que produziria se se tratasse de algo real. Com razão se fala da magia da Arte e se compara o artista como um mago.
(FREUD, 2005, p.84)

Embora Freud não tenha sido um apreciador do Surrealismo, é válido mencionar sua forma de pensar sobre a Arte. Por meio dela é possível percorrer esses mundos, transcender e ser arrebatado da realidade implacável. E talvez os artistas da estética surreal tenham conseguido como ninguém nortear o pensamento de seu espectador e os conduzir a outras cercanias, onde não há limites nem fronteiras.

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Referências:

  1. BANDEIRA, Manuel. Bandeira de Bolso, Uma Antologia Poética. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2008.
  2. BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.
  3. BYSTRINA, Ivan. Tópicos de Semiótica da Cultura, Aulas de Yvan Bystrina. PUC – SP,CISC (Centro Interdisciplinar de Pesquisas em Semiótica da Cultura e da Mídia). São Paulo: PRE-PRINT. Tradução Norval Baitello Júnior e Sônia B.Castino, 1995.
  4. CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. 2a. edIção. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. Tradução Nilson Moulin.
  5. CHILVERS, Ian; ZACZEK, Iain; WELTON, Jude; BUGLER, Caroline; MACK, Lorrie. História Ilustrada da Arte. São Paulo: Publifolha, 2014.
  6. COLEÇÃO FOLHA. Grandes Mestres da Pintura – Salvador Dalí. Folha de São Paulo. Tradução de Martin Ernesto Russo. Barueri: Editorial Sol, 2007.
  7. DALI, Salvador. Libelo contra a Arte Moderna. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2008.
  8. EAGLETON, Terry. A Idéia de Cultura. São Paulo: Editora UNESP, 2005.
  9. FARTHING, Stephen. Tudo Sobre a Arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.
  10. GASSET, José Ortega y. A desumanização da arte. 5 a. Edição. São Paulo: Ed.Cortez, 2005.
  11. FREUD, Sigmund. Pensamento Vivo. São Paulo: Editora Martin Claret, 2005.
  12. GLANCEY, Jonathan. A História da Arquitetura. São Paulo: Edições Loyola, 2012.
  13. GOLDING, John. Conceitos da Arte Moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1991.
  14. GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.
  15. HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
  16. KANDINSKY, Wassily. Olhar sobre o Passado. São Paulo: Livraria Martins Fontes Editora Ltda. 1991.
  17. KANT, Immanuel. O Belo e o Sublime. Pôrto: Livraria Educação Nacional Ltda. 1942.
  18. KLINGSÖHR-LEROY, Cathrin. Surrealismo. Colônia (Alemanha): Taschen Gmbh, 2007. Distribuído por Paisagem Distribuidora de Livros Ltda. Tradução de João Bernardo Paiva Boléo.
  19. MEIRELES, Cecília. Espectros. São Paulo: Editora Global, 2013.
  20. PROENÇA, Graça. Descobrindo a História da Arte. São Paulo: Editora Ática, 2005.

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As figuras:

Fig. 1 – Casa da praia de Salvador Dali. Foto: Bárbara Cassou, em Archtrends Portobello.

Fig. 2 – Casa da praia de Salvador Dali. Foto: Bárbara Cassou, em Archtrends Portobello.

Fig. 3 – Casa da praia de Salvador Dali. Foto: Bárbara Cassou, em Archtrends Portobello.

Fig. 4 – Casa da praia de Salvador Dali. Foto: Bárbara Cassou, em Archtrends Portobello.

Fig. 5 – Casa da praia de Salvador Dali. Foto: Bárbara Cassou, em Archtrends Portobello.

Fig. 6 – Casa da praia de Salvador Dali. Foto: Bárbara Cassou, em Archtrends Portobello.

Fig. 7 – Man Ray, Autorretrato, 1933, técnica mista: bronze, vidro, madeira e jornal, 5.6 x 21.1 x 13.7 cm, Smithsonian American Art Museum, Presente de Juliet Man Ray, 1983.105.2 .

Fig. 8 – Man Ray, Uma outra mola, 1961, técnica mista: mola de metal, bola de marfim, e caixa de cigarros de madeira, 29.5 x 20.2 x 16.8 cm, Smithsonian American Art Museum, presente de Juliet Man Ray, 1983.105.6 .

Fig. 9 – Man Ray, O Ídolo do Pescador, esculpido em 1973, bronze, 41.4 x 12.0 x 12.0 cm, Smithsonian American Art Museum, Presente de Juliet Man Ray, 1983.105.7 .

Fig. 10 – René Magritte, “Quem não consegue se lembrar do passado está condenado a repeti-lo” – George Santayana, A Vida da Razão; 1905, Da série: Grandes Ideias do Homem Ocidental. 1962; guache e lápis sobre papel em cartolina. 34.0 x 24.2 cm, Smithsonian American Art Museum, Presente de Container Corporation of America, 1984.124.194 .

Fig. 11 – René Magritte, “Embora todos os ventos da doutrina tenham sido soltos para brincar na terra, assim que a berdade esteja no campo, fazemos ingloriamente, para duvidar de sua força. Que ela e a falsidade lutem; quem já conheceu a verdade e se sentiu pior em um encontro livre e aberto?” – John Milton Areopagítica, 1644; Da série: Grandes Ideias do Homem Ocidental, 1962; 1958, guache sobre papel em cartolina, 23.4 x 19.0 cm, Smithsonian American Art Museum, Presente de Container Corporation of America, 1984.124.195 .

Fig. 12 – Salvador Dali, As longas pernas do pai na Esperança da Noite, 1940, óleo sobre tela, 40,64 cm x 50,8 cm, The Dalí Museum, Presente de A. Reynolds & Eleanor Morse. Copyright: Worldwide rights ©Salvador Dalí. Fundación Gala-Salvador Dalí (Artists Rights Society), 2017 / In the USA ©Salvador Dalí Museum, Inc. St. Petersburg, FL 2017.

Fig. 13 – Salvador Dali, O Desaparecimento do Busto de Voltaire, 1941, óleo sobre tela, 45,8 cm x 53,34 cm, The Dalí Museum, Presente de A. Reynolds & Eleanor Morse. Copyright: Worldwide rights ©Salvador Dalí. Fundación Gala-Salvador Dalí (Artists Rights Society), 2017 / In the USA ©Salvador Dalí Museum, Inc. St. Petersburg, FL 2017.

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