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“Maria Conga - Luísa Mahin”, 2021, pintura, 140cm x 86 cm. obra de Luanda, que integr.a a exposição. Foto: Luanda.
“Maria Conga - Luísa Mahin”, 2021, pintura, 140cm x 86 cm. obra de Luanda, que integr.a a exposição. Foto: Luanda.

Luanda inaugura a exposição ‘Cachimba’ no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira – MUHCAB, no Rio

Artista plástica gaúcha radicada na Capital carioca surpreende em individual que exibe séries inéditas, na qual incorpora arte, história e religiosidade de matriz africana

A exposição CACHIMBA, da artista Luanda, nasceu da necessidade de expandir o campo do letramento afro para uma fusão de ideias da história com a religiosidade de matriz africana, que culminará na valorização da cultura e história afro-brasileira, como um todo, por meio da união dos sagrados Pretos Velhos às personalidades negras históricas do Brasil durante a diáspora africana no Atlântico Sul. A mostra remete à ressignificações das ancestralidades e reflexões sobre a intolerância religiosa e será inaugurada no dia 09 de julho, quinta-feira, na Sala Mercedes Batista do Museu da História e da Cultura Afro-brasileira, o MUHCAB (confira detalhes no “Serviço”).





As obras foram criadas após o término da defesa da tese de doutorado em artes, “Kalunga mu kizua — O mar em tempo”, em setembro de 2021, na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EBA-UFRJ). A artista vem trabalhando sobre o tema — arte e terreiro — há cinco anos, desde que entrou na Umbanda, em 2017, como rodante (quando o/a filho/a de santo entra em transe mediúnico), após muitos convites. Seu processo de criação artística, desde que chegou para viver no Rio de Janeiro, há sete anos, foi se transmutando e sendo paulatinamente permeado pelo sagrado de matriz africana. O trabalho foi incluindo elementos do Terreiro como flores, ervas, velas, cânticos, roupas brancas, louças, esteiras, entre outros objetos, enquanto na vivência em sua Comunidade de Terreiro a artista começava a girar (incorporar) com os entes da terra e os Orixás.

Quando se deu conta, todo seu trabalho estava em plena transformação; foi o momento em que cunhou o termo “Ateliê Terreiro” porque sua prática artística ficou voltada para a Cultura de Terreiro. Entre todas as entidades de Umbanda, foi com as Pretas e Pretos Velhos que a artista iniciou um diálogo significativo sobre “artes da makumba” que perdura até hoje. É Maria Conga, Pai Cipriano, Vovó Ana, Maria do Rosário e Pai Benedito, com suas falas precisas, fortes e guerreiras, que alimentam uma importante inspiração para a artista pensar sobre as encruzilhadas no Atlântico, os Calundus e todo o movimento de resistência cultural africana que ocorreu por todo tempo de colonização do Brasil.

Nesta exposição, Luanda aproxima as Pretas e Pretos Velhos de personagens históricos da resistência afro-brasileira nas lutas contra o racismo: o advogado Luiz Gama (1830-1882), por exemplo é retratado como Pai Cipriano. Ao repetir esse procedimento em cada um dos retratos, Luanda marca importante posição política, ao propor a convergência entre entidades sagradas e personagens históricos, trazendo a parceira sagrado-político como lutas de liberdade.

A exposição – Pretas e Pretos Velhos

CACHIMBA é a primeira exposição individual de Luanda no Rio de Janeiro. São apresentadas duas séries recentemente desenvolvidas pela artista: “Histórias de Liberdade e Guias”, que consiste em um conjunto de pinturas-instalação e esculturas, e “Kalunga”, composta de pinturas de grandes dimensões.

A série “Histórias de Liberdade e Guias”, realizada entre 2020 e 2022, é composta por cinco pinturas-instalação e duas esculturas, cada um dos conjuntos ocupando e ativando a sala de modo instalativo. As pinturas-instalação são retratos que combinam Pretas e Pretos Velhos e personalidades históricas no mesmo rosto, associando o sagrado, o histórico e o político. Nas paredes, esteiras de taboa e tecidos auxiliam o posicionamento das telas, expandindo-as para além da moldura; em frente e ao redor de cada pintura são posicionados banquinhos de Preto Velho e alguidares com objetos. “Assim, o espectador é envolvido em um processo de contemplação em que o olhar é direcionado de baixo para cima, dando corporeidade à experiência de contato com as obras”, observa Luanda.

Em continuidade, duas esculturas ocupando o centro da sala trazem os signos do guia Pretos Velhos em grande escala: um cachimbo feito de barro é ampliado em grandes proporções, funcionando como um defumador de ervas; ao seu redor, um Rosário, com contas douradas, é estendido no chão, circundando o cachimbo. Ambas as peças, uma envolvendo a outra, têm a intenção de valorar/refletir a atuação dos Pretos Velhos nos Terreiros, mas, também ampliar a nossa visão sobre o trabalho desse ancestral da terra.

Será exibida, ainda, a pintura “Fundo do Mar nº 5”, que integra a série “Kalunga” (2018), formada por sete pinturas. Esta série contextualiza a travessia do Atlântico, levando o expectador a pensar em um hiato que é, ao mesmo tempo, a conexão entre América (Atlântico) e África.

O “Ateliê Terreiro” – espaço de resistência

Parte de um movimento de uma arte decolonial, no “Ateliê Terreiro”, a artista Luanda aponta para uma prática de arte contemporânea em estreita relação com a ancestral Cultura de Terreiro, trazendo questões e conceitos da epistemologia afro-diaspórica em contato com os problemas de linguagem da arte contemporânea. Depois de três anos de dedicação ao seu Ateliê Terreiro, decidiu expandir o debate que havia na sua produção artística e começou a fazer uma curadoria para formar um grupo no seu Ateliê composto por pessoas racializadas, comprometidas com a arte afro-brasileira, e antirracistas. Os encontros iniciaram em 2019 e foi expandido para outras cidades brasileiras no Sul e Nordeste, e tem como perfil, artistas que são filhos de Terreiro e que exerçam uma cura anticolonial.

A artista tem na Plataforma Ateliê Terreiro, que envolve o seu Ateliê Terreiro, o Coletivo Ateliê Terreiro e eventos com convidados, seu projeto de vida, para ampliar seu ativismo e resistência cultural em prol da defesa dos Terreiros de matriz africana, da luta antirracista e de um núcleo da arte afro-brasileira formada por artistas que têm uma performatividade que desloca elementos da Cultura de Terreiro para suas práticas artísticas. O Ateliê Terreiro está localizado na cidade do Rio de Janeiro, nas proximidades da Pequena África, ao lado do Largo e Igreja Santa Rita, lugar de memória do museu território (museu a céu aberto) de referência afro-brasileira e afro-atlântica.

Entre terra, território e terreiro, a artista Luanda se auto declara como mulher cis miscigenada que tem seu lugar de fala a partir do Terreiro de Umbanda de matriz Bantu-Kongo, onde produz ancestralidade e carrega sua ancestralidade em conformidade com a hospitalidade bantu. Saravá!

Rede social da artista:

luanda.art.br

SERVIÇO:

CACHIMBA

Exposição individual de Luanda

Inauguração: 9 de junho de 2022, das 17 às 20h

A mostra ficará em cartaz de 9 de junho a 9 de julho de 2022.

MUHCAB – Museu da História e da Cultura Afro-brasileira

Sala Mercedes Batista

Rua Pedro Ernesto 80, Gamboa, Rio de Janeiro (RJ)

Visitação: Quintas, Sextas e Sábados de 10hs as 17h

Entrada franca

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