Rhandal José é daqueles artistas que desafiam definições fáceis. Autodidata, construiu sua trajetória longe das salas de aula e dos caminhos tradicionais das artes plásticas, guiado pela curiosidade, pela observação e, principalmente, pela necessidade de criar.
Foi em Paraty, cidade onde vive há décadas, que encontrou o cenário ideal para transformar memórias, luzes, formas e emoções em pinturas que hoje ultrapassam fronteiras.
Suas obras já chegaram às mãos de colecionadores na França, Alemanha, Portugal, Holanda, China e outros países, carregando consigo um olhar profundamente humano sobre o cotidiano, a cultura caiçara e as pessoas que fazem parte desse universo.
Mas a história de Rhandal vai muito além das telas. Antes mesmo de conquistar admiradores no exterior, ele pintava em papelões, superfícies improvisadas e com os materiais que tinha ao alcance.
Para ele, a arte nunca dependeu das condições ideais, mas da vontade de transformar sentimentos em expressão.
Nesta entrevista exclusiva, Rhandal José fala sobre sua trajetória, o processo criativo, a influência de Paraty em sua obra, o reconhecimento internacional, a relação entre pintura e música — área em que também atua sob o nome de Rhandal Oliveira — e compartilha uma filosofia que resume sua maneira de enxergar a arte: mais importante do que impressionar pela técnica é emocionar quem observa.
A seguir, conheça as histórias, memórias e reflexões de um artista que acredita que a verdadeira arte não conhece fronteiras e encontra seu sentido quando toca o coração das pessoas.
Sobre a Trajetória Artística
Você costuma dizer que construiu sua linguagem artística com liberdade, sem
formação acadêmica. Como esse caminho autodidata influenciou sua maneira de
criar?
Foi numa época em que a informação era muito difícil. Eu tinha que garimpar a informação. Não tinha tanta facilidade como é hoje.
Então, às vezes, essa falta de informação, fazia você ter que descobrir, ou por si só, ou através daquela informação que você podia ter naquela época.
Antes de chegar às telas feitas à mão, você experimentou suportes como papelão, lençóis e outras superfícies improvisadas. O que essas experiências ensinaram sobre arte e criação?
Essas experiências me ensinaram que quando você está com a vontade de fazer a coisa, você tem que fazer com aquilo que você tem à mão né? Existe uma coisa que às vezes eu falo sobre a teoria do papelão, que é o quê?, É o que você tem à mão.
Uma vez eu estava com ímpeto de pintar, eu queria pegar um papelão de uma máquina de lavar, que estava descartado ali, pronto pra fazer um desenho. Meu amigo que estava próximo falou: “eu só queria ter dinheiro pra poder comprar umas telas e tintas pra você”.
O ideal seria isso. Mas nem sempre você tem o ideal. Então você tem que fazer o seu ideal com aquilo que você tem a mão, mesmo que seja um papelão de máquina de lavar com carvão. Acabei fazendo e, sem querer, acabei Vendendo. Fiz porque eu simplesmente precisava fazer..
Em algum momento você sentiu que precisava seguir regras ou tendências do mercado artístico? Como lida com essa pressão?
Exatamente porque eu não tenho o compromisso com isso, eu não tenho que provar nada pra ninguém ou obedecer a qualquer regra. Na verdade eu só comecei a pintar porque não tinha luz onde morava e eu era muito urbano.
Como eu não podia assistir TV (como um bom cara urbano) e nem frequentar cinemas ou teatros (coisas que o gostavam muito de fazer) eu tive que assistir paredes, paredes com as sombras de vela e nessas sombras de vela, eu vi que poderia criar um sonho além paredes.


Sobre Paraty e as Inspirações
Você nasceu no Rio de Janeiro, mas escolheu Paraty como território de criação. O que essa cidade desperta em você que talvez não encontrasse em outro lugar?
Na verdade eu não escolhi Paraty. Paraty é que me escolheu porque eu vim pra cá por causa de um grande amor e de outro grande amor, que estava ainda barriga desse outro grande amor. E isso me fez morar quinze anos sem luz.
Não tinha Músicos, não tinha trabalho de músico, eu tinha que extravasar de alguma maneira. Paraty é uma cidade que me desperta um saudosismo de uma época que eu sei que não vivi, mas parece que eu tenho saudade, mesmo não tendo vivido nela.
Na verdade, eu não penso no tema antes de pintar. Eu só sinto o cheiro da cidade, entendeu? As formas. E pelo fato dela ser uma cidade perdida no tempo, me remete a uma época que ela ainda conserva, entendeu? E que parece que eu vivi nessa época, apesar de ser muito mais antiga do que meu tempo.
A cultura caiçara, os rostos anônimos e os gestos simples aparecem com frequência em suas obras. Existe alguma história ou personagem real que tenha marcado profundamente seu trabalho?
Meu trabalho na verdade não é nem uma história, nem um personagem. É a forma e a luz da cidade e tudo que vive nela.
Muitas de suas pinturas parecem carregar memórias e emoções além da imagem retratada. O que você busca transmitir ao observador quando inicia uma nova obra?
Na verdade eu sou o principal observador curioso quando a obra se inicia. Eu nunca sei o que ela realmente quer dizer, porque elas estão sempre em movimento. Eu nunca sei onde estão, o que estão fazendo ou pra onde elas vão.

Sobre o Processo Criativo
Você afirma que cada tela nasce com identidade própria e que evita repetir fórmulas. Como surge uma nova obra: por uma imagem, uma lembrança, uma emoção ou uma combinação de tudo isso?
Tudo isso.
Há personagens recorrentes em suas pinturas. Quem são essas figuras? Elas representam pessoas reais, arquétipos ou sentimentos?
Na verdade eu acho que não são personalidades diferentes. São impressões de um artista sobre a sensibilidade de outras pessoas, que são diferentes no meu modo de ver, mas que são conhecidas do meu modo de entender.
Em seu material de apresentação, você menciona que dentro de cada obra existem pequenos universos que podem se transformar em novas obras. Poderia explicar melhor essa ideia?
Eu acho que a magia de um de um quadro é justamente você criar esses pequenos universos em que as pessoas às vezes observam alguns traços ou elementos que estão atrás do tema e que elas possam criar uma história a partir da viagem delas.
Então eu acho que os pequenos universos são justamente os atores coadjuvantes, que pra mim, eu sempre curti mais do que os atores principais.

Sobre Reconhecimento Internacional
Suas obras já chegaram a países como França, Alemanha, China, Portugal e Holanda através de colecionadores e admiradores. Como você se sente ao imaginar suas criações sendo apreciadas em culturas tão diferentes?
Eu acho que a arte é uma bandeira que extrapola os limites dos países e viaja além por mares nunca dantes navegados.
Você acredita que o público europeu percebe algo em sua arte que muitas vezes passa despercebido no Brasil?
Acho que o povo europeu tem as artes em geral mais inserida e divulgada em sua cultura. Tem uma percepção mais apurada para apreciar uma obra, por ter um convívio mais intenso com esse tipo de cultura.
Existe alguma história marcante envolvendo um colecionador estrangeiro que adquiriu uma de suas obras?
Sim. Um português adquiriu duas obras minhas em Paraty e depois resolveu colocar como rótulo de vinho da sua vinícola. Foi muito inusitado pra mim.

Sobre Arte e Emoção
Você costuma dizer que pinta não apenas o que vê, mas o que vive. Quais experiências pessoais mais influenciaram sua produção artística?
Foi numa lata de biscoito na casa da minha sogra, que era uma grande artista plástica também. A gente não tinha luz. Estava vindo de São Paulo de um trabalho de músico. Tomei um banho gelado e ela serviu (como uma boa sogra e maravilhosa que era) uma sopa de taioba e uma vela ela tinha uma lata de biscoito que ela colava obras de grandes artistas. E ali, eu virando aquela lata parecia que eu conhecia cada obra daquela. Eu acho que ali que nasceu toda essa história. Foi naquela lata de biscoito.
O que diferencia, em sua opinião, uma obra tecnicamente bem executada de uma obra que realmente emociona as pessoas?
Uma coisa é você impressionar pela técnica. Outra coisa é você emocionar pelo traço. Então o certo e o errado em matéria de arte não existem. Na verdade o que existe é emoção que tem que ser soprada no coração das pessoas.
Qual foi a obra mais importante da sua trajetória até hoje e por quê?
Eu estava pintando a casa e tinha uma lata de Suvinil. Lembro que eu estava pintando a parede, caiu tinta no vidro, na janela, aí eu fui limpar, mas eu fui limpar com o dedo e começou a sair um traço com as digitais do meu dedo e eu comecei a fazer um desenho quase digital porque não tinha pincel, fiquei entusiasmado. O vidro não existe mais, mas lembro do tema. Chamava: Homem de Chapéu.

Sobre Música e Múltiplas Expressões Artísticas
Você adota o nome Rhandal José nas artes plásticas e Rhandal Oliveira na música. Por que escolheu separar essas duas identidades artísticas? Elas representam facetas diferentes da mesma pessoa ou fazem parte de um mesmo universo criativo?
Eu resolvi fazer isso porque são situações emocionais diferentes. É como se fosse um heterônimo justamente pra não confundir a cabeça das pessoas e deixar primeiro que a arte, seja ela música ou artes plástica, seduzam pela arte.
A curiosidade de saber de quem foi é uma coisa relativa. Os dois na verdade é uma coisa só. Na verdade o artista é um. Só os universos são diferentes como afluentes que dão no mesmo rio.
Quando está compondo ou se apresentando, sente que expressa aspectos diferentes da sua personalidade artística?
A arte plástica me ensinou a ser um músico melhor. E a música, ela explica certas coisas.
A arte plástica explica certas coisas da música também.
O que a música acrescenta à sua visão sobre arte e criação? Que a música a visão sobre arte e criação. Não sei se falam do lado artes plástica, o que a música acrescenta dentro disso?
Música é aquele elemento que é efêmero né? tem um grande poder, porque ele arrebata aquele momento. As artes plásticas não tem esse poder da música, de arrebatar, ela já nasce cristalizada.

Sobre o Futuro
Quais são os próximos projetos, exposições ou sonhos que você deseja realizar nos próximos anos?
Adoro morar na minha casa porque eu acho que aqui, no ateliê do meio da mata, eu estou fazendo o trabalho que realmente tem que ser feito.
Agora, meu sonho de vida é uma coisa chamada projeto cucaracha. É viajar pra lugares diferentes, porque pra mim cada cidade, cada Cultura tem um cheiro, um uma luz, um jeito. Isso tudo me contagia e tenho a curiosidade de ver o que surgiria nas telas.
Se alguém tivesse apenas um minuto diante de uma obra sua, qual sentimento você gostaria que essa pessoa levasse consigo ao partir?
Um mundo mágico e intuitivo.
Apesar de suas obras estarem presentes em diversos países, muitos brasileiros ainda não conhecem seu trabalho. O que você gostaria que o público descobrisse sobre Rhandal José além das telas?
Eu queria que as pessoas descobrissem o poder da arte de emocionar, sem barreiras de conceitos.
Instagram: rhandaljose
…
