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Arte Contemporânea, Optical Art – Op Art, por Rosângela Vig

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Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

O vulgo crê que é coisa fácil fugir da realidade, quando é o mais difícil do mundo. É fácil dizer ou pintar uma coisa que careça completamente de sentido, que seja inteligível ou nula: bastará enfileirar palavras sem nexo, ou traçar riscos ao acaso. Porém conseguir constituir algo que não seja cópia do material e que, não obstante, possua alguma substantividade, implica o dom mais sublime. (GASSET, 2005, p.43)

A Arte aguça a imaginação, estimula o cognitivo e abre caminho para infinitas formas de linguagem. Curioso, o olhar se sente atraído pelas cores, pelas formas e pelo movimento; e divaga interessado pelo objeto artístico, descortinando os códigos que o artista expôs. A cada novo olhar, uma nova mensagem pode ser revelada, pode ser decodificada. Talvez seja essa a maior propriedade da arte. Sua compreensão, no entanto nem sempre tem o encargo de espelhar a realidade. Ao se desprender do mundo das coisas conhecidas, a Arte se aproxima do que se pode dizer de uma Arte pura, espiritualizada, sem o envolvimento com as aflições do mundo real. Assim estendem-se os limites, se o artista assim escolher, se a imaginação com isso concordar.

Para se entregar a tal jornada basta somente contemplar o infinito que habita o interior da alma, do pensamento e se perder indefinidamente pelos caminhos que levam a essas paragens. O que a imaginação permitir será apenas uma representação do que ousa o verdadeiro eu. Somente assim a Arte emerge superior, vívida, em pleno movimento, dissociada de padrões. Assim caminhou a estética da modernidade, cada vez mais desvencilhada da realidade, engendrando novos moldes e abrindo campo para a estética Contemporânea da segunda metade do século XX.

A Arte Contemporânea

Embora não haja um consenso sobre o início da Arte Contemporânea, foi após a Segunda Guerra Mundial, por volta dos anos 50 que ocorreu uma ruptura com a Arte Moderna, quando os novos estilos afloraram acompanhando um mundo em ebulição com as inovações tecnológicas e científicas. A corrida espacial, a idéia de reconstrução da sociedade pós-guerra e a busca pelo inconsciente eram temas que inspiravam artistas. Ampliou-se o campo para novas linguagens, a partir de questionamentos ao estilo ditado pelo Cinema e pela Televisão. Entre a segunda metade do século XX até os dias atuais, a Arte Contemporânea acompanhou o pensamento, as inovações e as mudanças do mundo.

Também chamada de Pós-Moderna, a Arte vinha acompanhada de mudanças para a Pintura, para a Escultura e para a Arquitetura. Entre os diversos estilos que nortearam as produções da época, estavam a Pop Art e a Op Art.

Op Art

Ao movimento que surgiu em 1965, em Nova York, Estados Unidos e na Europa, foi cunhado o nome de Op Art, forma curta para Optical Art. A primeira exposição ocorreu no Museu de Arte Moderna (MoMA) e foi intitulada de “The Responsive Eye”. O nome pode ser traduzido como o “olho sensível”, ou o “olho que responde”, provavelmente se referindo às imagens das obras desse estilo, que envolvem o olhar com a idéia de contínuos movimentos das formas geométricas.

Incentivando a reflexão e estimulando o olhar para o objeto artístico, a Op Art foi considerada uma variação do Expressionismo Abstrato; aproximando-se do campo das sensações, dissociando formas, cores e padrões. No objeto artístico estão presentes triângulos, círculos e quadrados que se fecham, abrem-se em espirais, dividem-se em fractais, dissociam-se e se juntam novamente. O olhar se sente atraído, procura a imagem e por ela se perde buscando onde a obra inicia e onde termina. Como uma forma de ilusão, a Arte parece estar viva e em constante mutação, como se nuances e linhas vibrassem as cordas na forma de música. Soma-se a isso o uso de cores contrastantes, o que de certa maneira acentua os movimentos. Talvez seja essa a melhor descrição para o estilo Op Art ou talvez não exista uma forma de defini-la, sem a olhar.

Entre os nomes que representaram o estilo encontra-se o do artista húngaro Victor Vasarely (1908-1997), precursor do movimento; e os nomes de Alexander Calder (1898-1976); Luiz Sacilotto (1924-2003); Adolph Frederick Reinhardt (1913-1967); Jesús-Raphael Soto (1923-2005); Kenneth Noland (1924-2010); e Richard Allen (1933-1999).

Victor Vasarely1 estudou Arte em Budapeste, na Hungria, país onde nasceu; teve contato e influência do movimento Bauhaus; e recebeu a inspiração das obras de Kandinsky. A partir de 1930 foi para Paris onde trabalhou para empresas de publicidade. Chegou a trabalhar com a Arte figurativa, mas optou por um estilo cuja protagonista era a geometria. Suas linhas se associaram ao monocromático e foram aos poucos adquirindo movimentos e ondulações. Estavam presentes em sua obra elementos ligados à profundidade, à multidimensionalidade e, sobretudo ao dinamismo, como se todo o universo de sua obra ora expandisse, ora se retraísse. Feito células, galáxias e mundos nada ortodoxos, a Arte de Vasarely é pulsante a cada mudança de olhar.

Alexander Calder2 nasceu na Pensilvânia, Estados Unidos e se tornou conhecido por seus móbiles e por suas imensas esculturas, além de imagens em arame. Desde muito pequeno o artista já demonstrava interesse por criar, chegando a fazer seus próprios brinquedos, ainda criança. Mudou-se para Paris em 1926, onde teve contato com os artistas do Surrealismo. Mais que esculturas, suas obras são Arte em movimento. Em tamanho grande, seus trabalhos estão expostos em vários países e trazem à tona a idéia de uma arte pura, ligada ao uso de cores e de formas em movimento, o que é perceptível em sua Dobradura com Disco Vermelho (Fig. 1), de 1973, em exposição na Praça Schlossplatz, em Stuttgart, uma das maiores cidades da Alemanha. Em metal, sua construção gigante adquire incrível leveza com o movimento sutil e delicado. Como pássaros alçando vôo, suas formas coloridas levam alegria ao monocromático da cidade, ao mesmo tempo em que parecem fazer parte do espaço. Quando o espectador muda de perspectiva, a obra do artista (Figuras 2, 3, 4) adquire nova nuance pelo jogo de luz e de sombra; e se rearranja em novas formas, com novas figuras.

Nascido em Santo André, São Paulo, Luiz Sacilotto estudou Desenho no Centro Universitário Belas Artes; trabalhou como publicitário; fez desenhos para a Arquitetura. No campo da Arte, Sacilotto participou de mostras e Bienais no Brasil e exposições no exterior; e foi considerado um dos maiores representantes da geração concretista do Brasil. Sua obra apresenta contrastes, simetria e tem movimento. Sua imensa pintura (Fig. 7) no átrio do bloco B, da Universidade Federal do ABC seduz o olhar em um primeiro plano pela cor intensa. Essa atração aumenta à medida que o movimento da obra se intensifica, quando os olhos correm de um lado para outro, ou de cima para baixo. As formas parecem fazer uma espécie de movimento convexo, para onde se dirige toda a imagem infinitamente. Ao espectador, a impressão é a de que ele próprio converge junto com a obra e entra nessa imensidão de formas indo e voltando.

Na Figura 8, Sacilotto brinca com a forma geométrica e a divide, formando dois novos triângulos que parecem espreguiçar no espaço, como se esticassem cada um de suas pontas. O material é o alumínio, também utilizado na obra da Figura 10. Essa, junto com a madeira, ilude o olhar, que ora percebe o interior de uma pirâmide, ora seu exterior. Lembrando as cores do Fauvismo, as linhas verdes se destacam sobrepostas ao laranja, na Figura 11. As linhas de tamanho idêntico, desenhadas umas acima, outras abaixo, levam à impressão de serem maiores ou menores. A ilusão óptica ainda se completa com a idéia de que a obra se movimenta de cima para baixo ou de baixo para cima. Esse artista brasileiro dominou como nenhum outro a capacidade de transformar a Arte em um jogo de cores, de formas e de ilusão do olhar. Observar seu trabalho é como perceber campos em movimento, formas em expansão e em retração.

Considerações finais

Então, só essa pintura
De cores em voz alta,
Cores em linha reta,
Despidas, cores brasa.

Só tua pintura clara,
De clara construção,
Desse construir claro
Feito a partir do não.

Pintura em que ensinaste
A moral pela vista
(deixando o pulso manso
dar mais tensão à vida).

Só essa pintura pode,
Com sua explosão fria,
Incitar a alma murcha,
De indiferença ou acídia.
(NETO, 1975, p.19)

São insondáveis sempre os itinerários da Arte. Sua História tem evidenciado que não basta ser um objeto em que o observador encantado repousa sua atenção, mas algo que lhe arrebate o olhar convidando-o a fazer parte como um jogo infinito; que lhe proporcione novas perspectivas, novos pontos de vista, feito uma brincadeira. De fato os efeitos ópticos e visuais da Op Art, com formas e linhas, com cores vibrantes e contrastantes permitem uma espécie de passeio pela tridimensionalidade em movimento como se a obra estivesse viva, pulsando.

É agradável trafegar pelo objeto artístico como parte integrante dele, desfrutar de todo seu espaço, mover-se por ele, sob todos os ângulos possíveis. Quanto a alma se entrega a tal fruição, o espírito alça vôo em êxtase. Tal encantamento permite um duradouro deleite ao ser.

1 Vídeo da obra de Victor Vasarely
youtu.be/G_gOS_xwSiw

2 Vídeo da obra de Alexander Calder
youtu.be/fI5PRaTSMUI

Referências:

  1. ANDRADE, Mário. Poesias completas. São Paulo: Editora Itatiaia, 1987.
  2. BANDEIRA, Manuel. Bandeira de Bolso. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2008.
  3. BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.
  4. BILAC, Olavo. Antologia Poética. Porto Alegre: Ed. L & PM Pocket, 2007.
  5. CHILVERS, Ian; ZACZEK, Iain; WELTON, Jude; BUGLER, Caroline; MACK, Lorrie. História Ilustrada da Arte. São Paulo: Publifolha, 2014.
  6. FARTHING, Stephen. Tudo Sobre a Arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.
  7. GASSET, José Ortega y. A desumanização da arte. 5 a. Edição. São Paulo: Ed. Cortez, 2005.
  8. GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.
  9. HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
  10. MOISÉS, Massaud. A Literatura Brasileira atrvés dos Textos. São Paulo: Editora Pensamento Cultrix Ltda., 1971.
  11. MORAES, Vinícius. Antologia Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
  12. NETO, João Cabral de Melo. Museu de Tudo. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1975.
  13. PROENÇA, Graça. Descobrindo a História da Arte. São Paulo: Editora Ática, 2005.

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