
Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.
E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.
(MEIRELES, Cecília. In FARACO; MOURA, 2006.p. 222)
A poesia de Cecília Meireles fala da leveza da alma, das coisas naturais, do caminhar pela vida. Fala da sutileza do momento, de imagens efêmeras e fugidias. Esse mesmo espírito permeia a Cultura, a Educação e a Arte do Japão, com toda a elegância e sutileza. Com uma sociedade milenar, o Japão teve seu período de isolamento, abriu-se para o mundo e, após a Segunda Guerra Mundial, assumiu um caráter pacifista, tornando-se grande economicamente. Na contemporaneidade, o Japão tem as marcas da evolução tecnológica, da liderança em robótica, da automação, da Inteligência Artificial, dos trens de alta velocidade, o que lhe rende a classificação de potência mundial. Ao mesmo tempo em que a contemporaneidade avança a passos largos, o Japão caminha lado a lado com a educação, a disciplina, a limpeza, a ética e um verdadeiro sentido de comunidade. E a Arte que fez História nesse país é única em estilo, variada e repleta de leveza.



Entre as formas e apresentações da Arte japonesa está a cerâmica antiga; a escultura; o Origami; a escrita em seda; os mangás e animes; a xilogravura; e a pintura. O refinamento cultural foi levado para a arte, atravessou várias fases como a Pré-Histórica, em que se destacaram cerâmicas, figuras de barro e sinos de bronze. O Budismo e a influência continental levaram à construção de esculturas e templos e a Literatura e a Pintura aos moldes Yamato-e fizeram parte de um terceiro período entre 794 e 1185. No período entre 1185 e 1573 viu-se florescer a Arte Zen Budista e a Pintura Monocromática. O auge da Arte popular perdurou entre 1603 e 1867, com xilogravuras sobressaindo nomes como Hokusai e Hiroshige. E por fim um momento Moderno, de 1867 até os dias atuais, em que se destacou a união de técnicas e a abertura para o mundo.
No período Jomon, entre 11.000 a.C a 300 a.C. surgiram cerâmicas com padrões de corda e figuras com formas humanóides e animais. A metalurgia e a cerâmica utilitária surgiram no período Yayoi (300 a.C a 250 d.C). Entre 300 d.C e 552 d.C, a época conhecida como Kofun houve a construção de túmulos e cerâmica de terracota para uso em rituais. As esculturas em bronze e templos revelaram a influência do Budismo e do estilo chinês, entre 552 a 794, num período conhecido como Asuka e Nara. A estética nativa esteve presente no período Heian entre 794 e 1185, marcado por pinturas de cores vibrantes, paisagens típicas e Literatura. Os samurais influenciaram a fase Kamakura, entre 1185 e 1333, com uma arte realista. Entre 1338 e 1573 foi a vez do Budismo Zen influenciar a arte do Japão, na fase Muromachi, com temas de jardins e o uso de tinta. A cerimônia do chá, os biombos dourados ficaram evidentes entre 1573 e 1603, na fase Momoyama. A arte popular floresceu no período Edo, entre 1603 e 1868, com as gravuras que retrataram cenas do cotidiano, com pessoas, paisagens e lendas. De 1868 até os dias atuais, o período foi nomeado de Meiji e Moderno, quando a Arte do Japão passou a utilizar materiais naturais como pigmento, com imagens de contornos definidos e ausência de sombra. Os artistas da Arte Contemporânea do Japão passaram a trabalhar com mistura de técnicas, acrescentando temas como a Cultura Pop.



Um das mais belas do mundo, a cerâmica japonesa revela influências dos ceramistas chineses em seus traços refinados (Fig.1). A disciplina é nítida nos traços simétricos e calculados. No campo da Escultura há grandes representações ligadas à Religião e ao Budismo. Na Arquitetura há preferência por materiais naturais e uma busca pela integração de espaços internos e externos. O Palácio de Katsura (Figuras 2 e 3), próximo a Kyoto deixa nítida essa característica e valoriza a simplicidade de linhas e a simetria, com destaque para a madeira e os jardins que parecem estar em todo o ambiente interno. Essa característica influenciou a Arquitetura dos séculos XIX e XX.
Pintura
Compreendendo uma grande variedade de gêneros e estilos, a Pintura do Japão é refinada e antiga, com traços estéticos peculiares e nítida influência chinesa, principalmente nas referências ao Budismo e na pintura Sumi-ê1 (Fig. 4), técnica em que o pincel fica aguado em tinta nanquim. Entre os temas de interesse na pintura, há plantas, animais, pássaros e flores. Tanto no campo profissional como no entretenimento, há uma grande utilização do pincel para a Pintura e também para a caligrafia (Figuras 7 e 8).
Entre as técnicas de impressão, a xilogravura é conhecida com a utilização de matrizes de madeira e tinta à base de água, o que leva à impressão final de imagem translúcida, com cores vivas. Essa técnica foi de relevante importância, apresentando cenas do cotidiano, narrativas e muitos personagens com detalhes complexos.


O uso de cores intensas, formas e planos não convencionais; e a assimetria das composições são atributos marcantes dessa arte, que acabou por influenciar o estilo ocidental do final do século XIX. O traço e a estética japoneses levaram importantes elementos aos pintores impressionistas Renoir (1841-1919), Degas (1834-1917) e Monet (1840-1926); aos pós-impressionistas Toulouse-Lautrec (1864-1901) e Van Gogh (1853-1890); aos fauvistas como Henri Matisse (1869-1954); e ao cubista Pablo Picasso (1881-1973).
Na Figura 5 é possível reconhecer uma das obras mais icônicas da Pintura do Japão, de Katsushika Hokusai (1760-1849). A Grande onda atinge navios em alto mar que parecem desgovernados pela força intensa das águas. No horizonte, uma tempestade deixa o oceano inquieto e, ao fundo o monte Fuji, imóvel, pacífico observando tudo a seu redor. O destaque da pintura está nas tonalidades do azul forte das águas, contrastando com a espuma que se agita incansavelmente num movimento de vai e vem.
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Na Figura 6, o Deus do Vento, Fugin, à esquerda e o Deus do Trovão, Raijin, à direita pertencem ao Museu Nacional de Kyoto e fazem parte do patrimônio nacional do Japão. Os painéis são dois biombos pintados por Tawaraya Sotatsu (1570-1643) com tinta sobre papel folheado a ouro. Na imagem, as duas divindades religiosas da Mitologia japonesa estão em movimento, atuando com suas forças sobre o mundo. Seus movimentos são leves e eles parecem flutuar com seus tecidos sobre o céu dourado.


Entre os pintores clássicos do Japão ainda é importante lembrar os nomes de Katsushika Hokusai (1760-1849), Utagawa Kunyoshi (1798-1861), Kitagawa Utamaro (1753-1806), Sesshu Toyo (1420-1506) (Fig. 4), Hasegawa Tohaku (1539-1610), Ogata Korin (1658-1716), Kawase Hasui (1883-1957), Kiyohara Yukinobu (1643–1682). Na atualidade são importantes os nomes de Yayoi Kusama (1929-), a artista de vanguarda famosa por suas instalações; Takashi Murakami (1962-), o artista que flui entre a arte tradicional e o anime; Yoshimoto Nara (1959-) com pinturas de crianças; Yokoyama Taikan (1868-1958), pintor do modernismo japonês; Taro Okamoto (1911-1996); e Iwasaki Chihiro (1918-1974) a pintora de aquarelas. E não é possível esquecer os nomes dos artistas Nipo-Brasileiros Tomie Ohtake (1913-2015), Yutaka Toyota (1931-) e o Grupo Seibi, coletivo de artistas que atua desde a década de 30.
Considerações Finais
Ajuntei todas as pedras
Que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
E no alto subi.
Teci um tapete floreado
E no sonho me perdi.
(CORALINA, p.213, 2004)
Desde os primórdios, a Arte japonesa deixou nítida a referência à natureza, o refinamento da técnica e a harmonia. A leveza do traço acentua os movimentos lentos dos personagens retratados e fica evidente que a estética foi equilibradamente desenvolvida no Japão.
Ainda há que citar a caligrafia e o teatro; os mangás e os animes, preferência há muitas gerações. Caminhando lado a lado com a tecnologia, a Arte não perdeu seu espaço e nem o gosto do público, o que deixa evidente a busca e o incentivo desse país à Cultura.
Referências:
- BAUDELAIRE, Charles. As Flores do Mal. São Paulo: Editora Martin Claret, 2006. Tradução de Pietro Nassetti.
- BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.
- CORALINA, Cora. Melhores Poemas. São Paulo: Global Editora, 2004.
- CHILVERS, Ian; ZACZEK, Iain; WELTON, Jude; BUGLER, Caroline; MACK, Lorrie. História Ilustrada da Arte. Publifolha, S.Paulo, 2014.
- FARACO, Carlos Emílio; MOURA, Francisco Marto de. Língua e Literatura. São Paulo: Editora Ática, 2006.
- FARTHING, Stephen. Tudo sobre a Arte. Rio de Janeiro: Sextante, 2011.
- GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.
- HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. Martins Fontes, São Paulo, 2003.
- KANT, Immanuel. O Belo e o Sublime. Pôrto: Livraria Educação Nacional Ltda., 1942.
- MASON, Penelope. History of Japanese Art. New Jersey: Prentice Hall, 1993.
- MEIRELES, Cecília. Janela Mágica. São Paulo: Ed.Moderna, 1988.
- SCHILLER, Friedrich Von. A Educação Estética do homem. 4a. edição. S.Paulo: Ed. Iluminuras, 2002.
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ROSÂNGELA VIG
Sorocaba – São Paulo
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