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Pintura em Tela, Passo a passo 18 – Percepção de cores e de formas por Rosângela Vig

Você também pode ouvir esse artigo na voz da própria Artista Plástica Rosângela Vig:

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Narizinho não gostava de esperar; ficou aborrecida de ter de esperar Pedrinho ainda por uma semana inteira. Mas felizmente era tempo de jabuticabas. No sítio de dona Benta havia vários pés, mas bastava um para que todos se acabassem até enjoar. Justamente naquela semana as jabuticabas tinham chegado ao ponto e a menina não fazia outra coisa senão chupar as deliciosas frutas. (…) Escolhia as mais bonitas, punha-as entre os dentes e tloc! E depois do tloc, uma engolidinha de caldo e – pluf! – caroço fora. E tloc, pluf, tloc, pluf e passava o dia inteiro na árvore. (LOBATO, 2019, p.11)

É bem provável que Narizinho, Pedrinho e Dona Benta estejam entre as mais doces lembranças da infância brasileira. A menina esperta, o primo aventureiro e a avó carinhosa são alguns personagens de Monteiro Lobato que povoaram as histórias que mais líamos e aquelas que imaginávamos viver. A meninice brasileira ainda guarda memórias que despertam o paladar, como as delícias preparadas por Dona Benta, por Tia Anastácia e aquelas gostosuras que a própria natureza fabrica, como as frutas brasileiras, entre as quais as jabuticabas. No trecho acima, Narizinho se delicia com esses pequenos regalos do sítio. A quem conhece é possível que a boca salive ao ver a bolinha preta, muito lustrosa; ao ouvir o som de seu estalido, quando a casca se rompe deixando saltar na boca o precioso e espesso conteúdo, branquinho, adocicado. Não há sabor parecido.

A bolinha pequena, revestida por luminoso invólucro muito negro é chamativa, atrai o olhar num primeiro plano e induz o paladar. Sua doçura inexplicável não se compara à de nenhuma outra fruta e seu sabor se torna completo quando ela é colhida diretamente do pé, muitas vezes no quintal da casa da avó, de uma tia, entre amigos, compartilhando e procurando entre elas, as maiores e mais doces. Não poderia haver melhor lembrança do melhor período da vida, com a molecada reunida ou com a família. A jabuticaba está entre os retratos do Brasil.

A lustrosa casca da pequena fruta espelha a luz, o céu e o olhar deliciado daquele que a aprecia. Sua cor muito negra parece um olhinho a nos fitar com a deliciosa inocência da infância. Acompanhando o início da Primavera, setembro traz consigo o rebentar infindável de frutos nas árvores e é quando os troncos das jabuticabeiras ficam cobertos de preto.

Petiscar essa saborosa fruta talvez seja tão delicioso quanto reproduzi-la na forma de Arte. Observá-la com o olhar de artista induz a mente a percorrer a infância e os saudosos tempos antigos, como se a forminha preta e lustrosa que abraça o fruto espelhasse ainda essas épocas e outras tantas, feito bolinhas de gude. Sobre o preto envoltório é possível descortinar muitas cores; é possível ver o céu refletido, os troncos da frondosa árvore e suas folhinhas verdes. Feito bolinhas de vidro, as jabuticabas da figura 1 refletem o que as cerca, as cores, as imagens. Na parte superior de cada fruta a cor branca deixa à mostra a incidência de luz a cor cinza vem a seguir, em pontos onde a iluminação não é direta; depois vem o preto onde a luz não incide. Alguns frutos ainda deixam à mostra tons terrosos, marrons, vermelho carmim e até mesmo roxo. Mas ainda é perceptível uma salpicada de azul sobre todas as frutas, o que, de certa forma acentua o branco da luz que incide.

Observando as nuances da fruta, a Arte pode então emergir livre sobre a alva tela. Com a tinta acrílica mais aguada (Fig. 2) pode ser dado o fundo verde da vegetação ao redor dos protagonistas da cena, que serão o tronco e as frutas. Em meio ao verde, destacam-se as primeiras pinceladas do tronco (Fig. 3) com os tons de marrom e de ocre. Perceba que a árvore não tem uma cor somente, porque ela descasca à medida que cresce, deixando no fundo a casca nova que substitui a antiga. Dessa forma, os tons terrosos são diferentes, mais claros ou mais escuros conforme a casca está mais escondida ou mais exposta. Além disso, o líquen ou fungo que recobre a superfície do tronco pode também modificar as cores da árvore, manchando-a com tons avermelhados como pode ser visto na figura 4. Mas esse líquen pode ainda ter outras cores, dependendo do meio em que estiver a árvore. Ainda na figura 4 as sombras se acentuam com a cor preta sob as cascas que estão se soltando do tronco. Nesse caso, o preto não se dissipa muito, ele permanece apenas onde não há incidência de luz, portanto deve-se tomar cuidado para que ele não se sobressaia sobre as outras cores, para que a profundidade não se torne excessiva. O azul finaliza o tronco, em alguns pontos deixando mais evidente os lugares onde há luz.

Com o fundo e o tronco prontos, é possível agora iniciar as jabuticabas, a parte mais deliciosa da pintura. Como todo desenho ou pintura, a luz deve incidir sempre a partir de uma mesma direção. Nesse caso, a luz vem da parte da frente da tela. Então as frutas devem ter um pontinho de luz em sua parte frontal, como ocorre na figura 5, onde esse ponto está na cor branca. As frutinhas têm a cor cinza onde a luz incide indiretamente e preta onde não há luz.

O azul e o roxo se sobrepuseram um pouco sobre o cinza como pode ser visto na figura 7. Isso de certa forma ressalta a claridade sobre as frutas e as imagens parcialmente refletidas sobre elas, como um espelho. Terminada a transição de cores agora é possível fazer o acabamento, com os cabinhos e uma leve salpicada de verde (Fig. 9), uma vez que, próximas aos cabos ou quando estão em amadurecimento, algumas jabuticabas apresentam essa cor. Agora também é o momento de reforçar as sombras das frutas na árvore e entre elas mesmas, com o preto, de forma bem leve, para não escurecer demasiadamente a cena. A tinta branca aqui também reforça o escuro, porque se aplica onde existe luz, contrapondo ao preto. O azul salpica novamente a cena e potencializa o branco. A tela agora está pronta. Perceba que não há muitos elementos, apenas os frutos em suas nuances e o tronco, sobre um fundo simples e verde.

Em alguns casos, tanto na Pintura quanto no Desenho, são dispensáveis detalhes em demasia, porque cansam a visão e poluem a imagem. Nesse caso apenas as frutas e o tronco são personagens principais e não haveria necessidade de qualquer outro elemento na cena. O intuito foi causar no observador a vontade de arrancar a fruta do tronco, para comê-la. E talvez saborear uma fruta direto do pé seja a maior viagem que se possa fazer aos melhores tempos de nossas vidas.

Decerto o mês de setembro seja o mais belo em nosso Brasil. É quando o olhar se deleita com os canteiros e jardins desse imenso país salpicados de colorido; e quando ainda se pode satisfazer o paladar com os frutos de nossa terra.

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.
Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta do teu lar.
(CORALINA, 2004, 311)

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Referências:

  1. CORALINA, Cora. Melhores Poemas. São Paulo: Global Editora, 2004.
  2. LOBATO, Monteiro. Turma da Mônica – O Sítio do Picapau Amarelo. Barueri, SP: Ed. Girassol, 2019. Adaptação: Regina Zilberman.

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As figuras:

Fig. 1 – Jabuticabas, 2017, Andrea Ramos Molina.

Fig. 2 – Jabuticabas, Fundo de tela, 2019, Rosângela Vig.

Fig. 3 – Tronco da jabuticabeira, 2019, Rosângela Vig.

Fig. 4 – Tronco da jabuticabeira com líquen e sombras, 2019, Rosângela Vig.

Fig. 5 – Tronco com jabuticabas, 2019, Rosângela Vig.

Fig. 6 – Jabuticabas ainda não terminadas no tronco, 2019, Rosângela Vig.

Fig. 7 – Jabuticabas ainda não terminadas no tronco, 2019, Rosângela Vig.

Fig. 8 – Jabuticabas sobre o tronco, 2019, Rosângela Vig.

Fig. 9 – Jabuticabas sobre o tronco, 2019, Rosângela Vig.

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