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Fig. 1 – Criação do Papel, Rita Caruzzo, Colagem de folhas naturais sobre papel; Papel São Paulo, gramatura 600, Moinho Brasil, 2019.
Fig. 1 – Criação do Papel, Rita Caruzzo, Colagem de folhas naturais sobre papel; Papel São Paulo, gramatura 600, Moinho Brasil, 2019.

A História do Papel, por Rosângela Vig

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

Molho o pincel no azul do mar,
no fogo do céu,
na macia prata da neblina
que cobre a montanha.
Molho o pincel
na luz do girassol,
no corpo verde da esperança,
e no papel em branco
vão surgindo manchas:
uma casa, um rio, e muito longe
uma menina com as mãos cheias de estrelas.
(MURRAY, 2005, p.36)

As linhas vão surgindo e se erguem no espaço em branco muito convidativo. O lápis, a caneta ou o pincel deslizam sobre a superfície ávida por receber a ideia que insiste em tagarelar na cabeça do poeta ou do pintor. E a mão vai correndo solta, livre e sem medo. O papel vai descortinando seu espaço e descobrindo suas curvas pela letra, pela cor, pela forma. O que então era simples pensamento vai agora encantar corações, soltar os nós das gargantas, aliviar pesos de almas e expandir universos. O papel tem sido testemunha de tantos desabafos, de inúmeras viagens do espírito, de acordos e de desacordos. Ele está no primeiro caderno da escola; no cheiro do livro novo, à cabeceira da cama; no diário secreto de adolescente; ou num bilhetinho arrebatador e apaixonado.

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O segredo, guardado pelos chineses por quase 800 anos, é hoje um dos produtos mais consumidos do mundo. Antes mesmo do papel, a escrita já era gravada em pedra no Egito Antigo. O primeiro material que serviu de suporte para a escrita foi o Papiro, criado pelos egípcios da Antiguidade, ainda no século 40 a.C., feito a partir de uma planta muito comum na região (Fig. 12). Na mesma época, em outros lugares do mundo, surgia o Pergaminho, produzido a partir de pele de bezerro, de cabra ou de carneiro, utilizado inclusive durante a Idade Média. A escrita ainda chegou a ser registrada em madeira; nas espadas e armaduras; em metais como o ferro, o cobre, a prata e o ouro; e as cascas de árvores cozidas que os Maias e os Astecas transformavam em uma espécie de tecido com o qual faziam livros ilustrados.

Antes da invenção do papel, os chineses chegaram a utilizar lâminas de bambu e seda como suporte para a escrita. A partir de restos de corda e de cascas de árvore produziram uma fibra que, por ser mais barata, substituía a seda. Somente no século XII essa invenção chegou à Europa e, em 1440, a imprensa ajudou a expandir o uso do papel. No Brasil, o papel chegou primeiro ao Rio de Janeiro, depois a São Paulo, em 1809, com a vinda da Família Real.

E a folha que serve de suporte ao Conto, à Poesia, ao Desenho, ou à Pintura, pode ser produzida de talos de bananeira, de varas de bambu, de folhas de abacaxi e até mesmo de cascas de cebola, além de poder ser reciclado e servir novamente ao artista e ao poeta. O papel conta com alguns museus pelo mundo, como o Museu do Papel de Tokyo 1 e o de Portugal 2, onde é possível saber um pouco mais sobre a História do Papel; conhecer equipamentos em que eram produzidos; além de apreciar as obras desse material tão antigo e apreciado.

Na Arte, cada tipo de papel pode proporcionar um efeito diferente dependendo de sua acidez, de sua gramatura, de sua textura, ou ainda da técnica utilizada pelo artista, levando o olhar de quem aprecia ao deleite, pelos caminhos do Belo ou do Sublime.

A instalação de Rita Caruzzo (Fig. 1) inicia esse passeio por um lindo caminho de folhas, das quais se originam o próprio papel. Como se despencassem, elas preenchem o solo e por ali caminham, coloridas, tecendo desenhos, pinturas e colagens. No meio do caminho, o tronco (Fig. 2) que perdeu suas folhas de Sônia Botture, está inerte e ressequido, como se buscasse um alento na água do mar, protegido sob o manto azul do céu. Com a técnica do pirógrafo, a folha de papel foi queimada com eletricidade e fogo, pelas mãos do artista Fábio Souza, que construiu uma cena desoladora (Fig. 3) e sem vida, amenizada pelas pequenas folhas verdes que parecem teimar em viver. A Paisagem X de Fátima Lourenço (Fig. 4) está repleta de natrureza. Representada pelo delicado monocromático, o fundo escuro evidencia a cor prata de sua aquarela, como se tecesse um lindo bordado. O Peixe de Paulo Sayeg (Fig. 5) nada livremente no mar azul sob os reflexos que permeiam a água. Com técnica mista é possível reconhecer linhas de tons azul e lilás que se intercalam para proporcionarem os efeitos de claro e de escuro. Passeando ainda pelos temas da natureza, o Flamingo rosa de Flavie observa o verde indizível do mar.

A moça sentada de Ana Vig 3 (Fig. 7) é uma conhecida apresentadora. Perfeita na cor e na forma, ela está sentada em elegante gesto, com delicados efeitos de sombra e de luz. Feita com a técnica da aquarela, ela é protagonista da cena sobre o fundo branco. A moça de Ana Bittar (Fig. 8) foi trabalhada com a técnica do pastel seco. Ela representa o período de reclusão, usa máscara e está sem o famoso brinco de pérola que a tornou tão conhecida. A outra moça (Fig. 9) está na obra de Paulo Lionetti e foi trabalhada com a técnica da colagem sobre cartão, coim o fundo colorido em spray. O gesto lento e sensual feminino se destaca em meio ao colorido a seu redor. A obra é uma releitura da conhecida pintura de Modigliani.

O índio de Maurício Gigante (Fig. 10) foi trabalhado com a técnica da aerografia e sua expressão de esperança condiz com o olhar expressivo para um futuro. Também por meio da colagem, Rogério Carnaval (Fig. 11) caminhou pelo campo abstração, permitindo que as cores fortes bem distribuídas se alternassem entre o preto e o branco. Como um jardim repleto de flores do campo, a obra de Malu Renó (Fig. 12) parece plena e harmoniosa, com movimento, luz e vida. A abstração permite que a alma divague feliz pelas cores e pelas formas. Suas borboletas voejam sobre esse lindo jardim.

Ainda há que se falar do Origami, a linda Arte da Dobradura, oriunda do Japão, cuja matéria-prima também é o papel. A Flor de Natal Vermelha (Fig. 13) de Lucas Alberto é simétrica e suas linhas perfeitas parecem ser tecidas pela natureza. Elas se entrelaçam, como se estivessem, em infindável movimento de subir e descer. O Tsuru (Fig. 14) de Vânia Matsubara 4, em delicadas cores, parece vivo e prestes a alçar vôo, levando saúde, paz e harmonia para o mundo em ebulição. No Japão, segundo as crenças, os Deuses atendem pedidos da pessoa que fizer mil Tsurus; e é comum presentear enfermos com essas dobraduras, para desejar saúde à pessoa. De origem incerta, a técnica do Quilling já era utilizada durante a Idade Média. O trabalho minucioso e delicado em que tirinhas de papel são enroladas, formando lindos desenhos e rococós também é feito em papel e exige não somente habilidade do artista, mas a criatividade e suas divagações pelos mundos imaginários. A caixinha da Filó (Fig. 15) já é um lindo presente, ainda que dentro dela estejam apenas os sonhos e as aspirações mais profundas que a inocência puder criar. Lá dentro podem estar as folhas que caem sobre o chão, da Rita; o tronco ressequido da Sônia, que se transforma numa linda árvore, reconstruindo toda a floresta do Fábio.

Mais que encantar o olhar, a Arte tem servido como uma Terapia a quem vê e a quem a produz. O papel entra nisso tudo como o grande aliado tão próximo e sempre à mão para o que a mente imaginar e o que o espírito livre disser e desejar. Se houver uma caneta, um lápis ou um pincel pode-se escrever sobre ele, desenhar ou pintar. Se nada houver, apenas as mãos irão trabalhar e ir dobrando o papel até que as imagens vão surgindo alegres, saltitantes e leves.

Notas:

1 Museu do Papel de Tokyo, Japão:
www.youtube.com/watch?v=GYuKA–QyxQ

2 Museu do Papel de Santa Maria, Portugal:
www.youtube.com/watch?v=F24BpVER3RY

3 Ana Vig:
www.instagram.com/anacvig/?hl=pt-br

4 Vânia Matsubara:
bazarpopular.com.br/porfolio-1

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Referências:

  1. BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.
  2. CHILVERS, Ian; ZACZEK, Iain; WELTON, Jude; BUGLER, Caroline; MACK, Lorrie. História Ilustrada da Arte.Publifolha, S.Paulo, 2014.
  3. SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O Pequeno Príncipe. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1977.
  4. GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.
  5. HAUSER, Arnold.História Social da Arte e da Literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
  6. ROCHA, Ruth; ROTH, Otávio. O Livro do Papel. Sáo Paulo: Editora Melhoramentos, 2005.
  7. MURRAY, Roseana. Pêra, Uva ou Maçã? São Paulo: Editora Scipione, 2005.
  8. VIG, Rosângela Araújo Pires. DA ARTE COMO COMUNICAÇÃO À COMUNICAÇÃO COMO ARTE.Comunicação, Cultura e Mídia, Uniso, Sorocaba: 2010. Disponível em comunicacaoecultura.uniso.br/prod_discente/2010/pdf/Rosangela_Vig.pdf Acesso em 25 de outubro de 2020.

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Molho o pincel no azul do mar, no fogo do céu, na macia prata da neblina que cobre a montanha. Molho o pincel na luz do girassol, no corpo verde da esperança, e no papel em branco vão surgindo manchas: uma casa, um rio, e muito longe uma menina com as mãos cheias de estrelas. (MURRAY, 2005, p.36) As linhas vão surgindo e se erguem no espaço em branco muito convidativo. O lápis, a caneta ou o pincel deslizam sobre a superfície ávida por receber…

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