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Fig. 2 – Templo Dórico: Parthenon, Atenas, Acrópole. Projetado por Icticino, cerca de 450 a.C. Foto de Pakhnyushchyy.
Fig. 2 – Templo Dórico: Parthenon, Atenas, Acrópole. Projetado por Icticino, cerca de 450 a.C. Foto de Pakhnyushchyy.

Arte Grega, História da Arte na Grécia Antiga por Rosângela Vig

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Rosângela Vig é Artista Plástica e Professora de História da Arte.

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Arte Grega, História da Arte na Grécia Antiga por Rosângela Vig

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou. (…)

Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas continuarei a escrever.

(LISPECTOR, 2008, p.11)

Sim bem primeiro nasceu Caos, depois também
Terra de amplo seio, de todos sede irresvalável sempre (segura) (…)
Do Caos Érebos e Noite negra nasceram.

Da Noite aliás Éter e Dia nasceram,
Gerou-os fecundada unida a Érebos em amor.
Terra primeiro pariu igual a si mesma

Céu constelado, para cercá-la toda ao redor (…)
(HESÍODO, 2006, p.109, v. 116 a 128)

A Arte se construiu, em forma de História e a partir de uma História; num dado momento em que o ser humano, inebriado pelas cores e pelas formas que o mundo lhe apresentava, aventurou pelo campo da estética, na árdua tentativa de imitar o que via. Dispondo dos recursos de seu tempo, o artífice arriscou pelos caminhos da Arte, para encantar olhares e para despertar sensações e sentimentos com relação ao mundo. Na evolução de seu traço e de seu entalhe, está implícita uma narrativa da humanidade, com seus comprazimentos e seus anseios diante da vida. Paralelamente com a Arte, a capacidade de julgar o que é belo foi se remoldando pelos tempos, mas foi na Grécia antiga que se manifestaram as primeiras discussões acerca desse conceito. O apogeu da cultura desse povo foi marcado por atividades políticas, intelectuais e artísticas, que deixaram um legado de fundamental importância para a cultura ocidental.

A cultura grega se estendeu aproximadamente do século VII, a.C. até o V, a.C. considerado o período arcaico e do V, a.C. ao IV a.C., o clássico. As cidades da Grécia antiga foram construídas entre os séculos XII e X a.C., a partir de comunidades pobres, de início, que aos poucos enriqueceram e cresceram. Essas cidades entraram em contato com a cultura do Egito antigo, que inspirou os gregos.

A influência egípcia ficou evidente no caráter simétrico e proporcional das esculturas de pessoas do período arcaico da Grécia, porém, desvencilhado do aspecto religioso, o escultor grego passou a trabalhar de forma mais livre, o que o permitiu modificar a aparência de imobilidade e de rigidez na obra. Já nos séculos VI a.C. e V a.C., os artistas esculpiam em mármore, figuras masculinas, nuas, em posição frontal, deixando evidente a questão da simetria. A sugestão de movimento se dava pela postura e pelos gestos da cabeça e dos membros, o que conferia também um ar de naturalidade à obra, como o Discóbolo de Míron. Há menções a respeito do Cânone, um conjunto de normas escritas pelo escultor Policleto, que estabeleciam as proporções corretas do corpo humano. Entre os temas das obras, destacavam-se principalmente as Olimpíadas e as cenas do cotidiano. No século IV, Alexandre Magno, filho do rei da Macedônia, manteve a conquista de seu pai sobre a Grécia e a ampliou, abarcando a Pérsia e o Egito. Após sua morte, a cultura que se desenvolveu foi considerada a helenística, em virtude da Grécia ser conhecida como Hélade. Nesse período, as figuras humanas femininas, que até então eram entalhadas apenas vestidas, passaram a ser feitas nuas ou seminuas (Fig. 1). Manteve-se o emprego do Cânone de Policleto, com relação à simetria e à posição de relaxamento das obras, que passaram a expressar também as emoções.

Fig. 1 – Vênus de Milo, assim chamada por ter sido encontrada na ilha de Melos. Estátua grega do século I a.C. Provavelmente imitação de uma obra do século IV a.C., Paris, Louvre. Foto de Paolo Gallo Modena. Arte grega.

Fig. 1 – Vênus de Milo, assim chamada por ter sido encontrada na ilha de Melos. Estátua grega do século I a.C. Provavelmente imitação de uma obra do século IV a.C., Paris, Louvre. Foto de Paolo Gallo Modena. Arte grega.

Para alguns artistas da Grécia clássica eram belas, as formas arquitetônicas, os templos eram construídos com uma base de três degraus e o atributo mais importante era a simetria entre o pórtico de entrada e o dos fundos. Embora a Arte grega não tinha fins religiosos, os templos eram construídos para abrigarem as esculturas dos deuses, da chuva e do sol. Havia dois principais modelos estruturais: o da ordem Dórica, como o Parthenon (Fig. 2), feito em homenagem à Deusa Atena, com pilares mais grossos, firmados nos degraus elevados; e o da ordem Jônica, com colunas mais finas, apoiadas em degraus ornamentados. A influência da arquitetura grega é visível, por exemplo no Lincoln Memorial, nos Estados Unidos, edifício construído entre 1914 e 1922 em estilo Dórico, projetado por Henry Bacon, em homenagem a Abraham Lincoln.

Da pintura grega, em virtude da fragilidade dos materiais, conservaram-se apenas alguns murais em tumbas dos séculos IV e III a.C., por outro lado, permaneceu uma grande quantidade de pinturas em cerâmica. No século VI a.C., os vasos e ânforas utilizados em rituais religiosos, também serviam para armazenar vinho, água e alimentos, mas devido a sua beleza, passaram a ser usados como objetos de decoração também. Os vasos eram inicialmente pintados em preto, pelo artesão, depois a tinta era retirada, formando os desenhos. Exéquias foi considerado o grande pintor dessas figuras e seu discípulo, Eutímedes, aprimorou esse método, pintando as figuras. Um importante passo na pintura desse período foi a introdução da ideia de profundidade na pintura, perceptível pela posição das pessoas desenhadas em objetos.

Dos gregos, ainda ficou o legado no campo da Literatura, com Homero, a quem se atribui a autoria de Ilíada e de Odisseia, poemas épicos ainda do século VIII a.C. que narram a história da Guerra de Tróia; e com Hesíodo, possível autor de Teogonia, poema épico narrativo, sobre a genealogia dos deuses e da criação do universo, cujo trecho inicia esse texto.

Fig. 2 – Templo Dórico: Parthenon, Atenas, Acrópole. Projetado por Icticino, cerca de 450 a.C. Foto de Pakhnyushchyy. Arte grega.

Fig. 2 – Templo Dórico: Parthenon, Atenas, Acrópole. Projetado por Icticino, cerca de 450 a.C. Foto de Pakhnyushchyy. Arte grega.

Na tentativa de explicar o mundo, os gregos ainda deixaram sua Filosofia, que serviu de base para o pensamento dos períodos posteriores. Nesse campo, cabe destacar Aristóteles (384 – 323 a.C.) e Platão (428 – 347 a.C.), o que não exclui a importância de tantos outros. De suas reflexões, ficou um importante legado em várias áreas, cabendo comentar nesse texto, as considerações acerca da beleza. Nas artes figurativas, segundo Platão, o belo estava representado através da mimesis que é a imitação da natureza e a correspondência com geometria, proporções e cores, aproximando o seu produto daquele que lhe serviu de modelo. Até mesmo a criação divina era uma imitação da natureza verdadeira do mundo das ideias. O artista não vai à ideia; ele tenta ser como um espelho que reflete o mundo sensível e trata assim, somente das aparências, ou seja, da imagem aparente do real. A arte da imitação é, pois como um obstáculo à busca da beleza, uma vez que convida a permanecer no mundo sensível que ela reproduz. É uma estética ao mesmo tempo objetiva e sensualista. Aristóteles, diferentemente de Platão, acreditava que o belo era inerente ao homem, afinal, a arte é uma criação particularmente humana e, como tal, não pode estar num mundo apartado daquilo que é sensível ao homem. A beleza de uma obra de arte é assim atribuída por critérios tais como proporção, simetria e ordenação, tudo em sua justa medida. Para os gregos, os valores supremos eram o belo, o bom e o verdadeiro.

Ainda que aqui se comente a respeito do legado Clássico da Grécia antiga, e de sua contribuição para a Arte e para o pensamento ocidental; e ainda que se estudem as diversas áreas em que os gregos trilharam suas ideias e sua maneira de compreender o mundo, seria ainda um minguado conteúdo, ante a vasta cultura que esse povo deixou. Pode-se até arriscar a dizer que

O gênio é somente a infância redescoberta sem limites; a infância agora dotada, para se expressar, de órgãos viris e do espírito analítico que lhe permitem ordenar a soma de materiais involuntariamente acumulada. É a curiosidade profunda e alegre que se deve atribuir o olhar fixo e animalmente estático diante do novo, seja o que for. (…) (BAUDELAIRE, 2007, p.19).

Muitos séculos após os gregos, Baudelaire (1821-1867), o maior crítico de Arte de seu tempo, ousou descrever como o artista via o mundo. E não há como negar que aquele que trabalha com a Arte assemelha-se a uma criança encantada por tudo que o cerca, ele transcende em seu deslumbramento, expõe isso em sua obra e a carrega de emoções. Na arte da Grécia antiga, está claro o objetivo do artista quanto à perfeição, à simetria e à proporção em sua obra, mas acima de tudo há uma demonstração de inefável admiração por tudo a seu redor. Talvez o fator tempo tenha sido mais generoso a eles, na tarefa de contemplação do mundo; mas acima de tudo, pode ser que ao ser humano contemporâneo isso seja impraticável, por tantos motivos inerentes ao próprio ser humano. A mesma contemporaneidade que avança em tecnologia a passos largos, pode estar nos arrebatando os momentos de deleite pelo simples. E para se pensar,

Inesperadamente, descobrimos que existir poderia ser uma experiência muito mais intensa, interessante e verdadeira do que aquele corre-corre distraído com o qual se calejou nosso cérebro. (CALVINO, 1993, P.241)

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Referências:

  1. BAUDELAIRE, Charles. Sobre a Modernidade. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2007.
  2. BAYER, Raymond. História da Estética. Lisboa: Editorial Estampa, 1993. Tradução de José Saramago.
  3. CALVINO, Italo. Por que ler os clássicos. Companhia das Letras, 1993 2a. ed. Tradução Nilson Moulin
  4. EAGLETON, Terry. A Idéia de Cultura. São Paulo: Editora UNESP, 2005.
  5. GOMBRICH, E.H. A História da Arte. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988.
  6. HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. Martins Fontes, São Paulo, 2003.
  7. HESIODO, Teogonia. A origem dos deuses. Estudo e Tradução de Torano Jaa, São Paulo: Ed. Iluminuras, 2006, 6a. edição.
  8. LISPECTOR, Clarisse. A Hora da Estrela. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2008.
  9. PLATÃO, Crátilo. 2a. edição. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1994, Tradução de Pe. Dias Palmeira.

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As figuras:

Fig. 1 – Vênus de Milo, assim chamada por ter sido encontrada na ilha de Melos. Estátua grega do século I a.C. Provavelmente imitação de uma obra do século IV a.C., Paris, Louvre. Foto de Paolo Gallo Modena.

Fig. 2 – Templo Dórico: Parthenon, Atenas, Acrópole. Projetado por Icticino, cerca de 450 a.C. Foto de Pakhnyushchyy.

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